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Elza Fiuza/ABr

>> "Imperatriz Leopoldina com seus filhos", óleo de
A. Failutti, Museu Paulista, São Paulo. |
Ferrar cavalos não ficava bem a um filho
de reis. Falar gíria e conviver com a gente do povo, também não.
Rondar pelas senzalas com o olhar interessado nas escravas de boa
aparência, menos ainda. Mas dom Pedro de Alcântara fazia tudo isso
com muito prazer. A praxe da monarquia pouco lhe interessava. As
normas da etiqueta palaciana o aborreciam. Os cortesãos
portugueses criticavam tão estabanada displicência e todo o Rio de
Janeiro achava graça nas excentricidades do filho de dom João VI e
de dona Carlota Joaquina.
Ele sentia-se brasileiro. Viera para cá
menino e aqui fizera-se homem. Portugal era para ele uma
reminiscência, uma terra distante que mal conhecera. Da Lisboa
onde nasceu a 12 de outubro de 1798 praticamente só se lembrava do
Palácio de Queluz onde tinha passado a sua infância.
Cultura não era o grande interesse do
jovem Pedro. Foi um estudante desinteressado que só aprendeu latim
o suficiente para ler alguns clássicos da antiguidade e que
assistia as aulas de pintura, francês e inglês com grande enfado.
Daquilo que lhe ensinavam, a música era a matéria que mais o
atraía e sem grande esforço aprendeu a compor e a tocar algumas
peças.
Uma vida dinâmica ao ar livre deu-lhe um
físico robusto embora a sua saúde não fosse das melhores. A
erisipela frequentemente prendia-o à cama durante dias seguidos e
ataques epilépticos prostravam-no desfalecido e delirante, em
crises que colocavam a Corte em pânico.
A criadagem do Paço de São Cristovão
murmurava a respeito das suas saídas noturnas mas os seus casos
eram passageiros. Noemy Thierry, bailarina de uma companhia
francesa dona de inegáveis encantos foi a primeira por quem dom
Pedro se apaixonou. Contudo, não poderia haver momento mais
inoportuno para esse episódio sentimental. Após demoradas
negociações diplomáticas, estava a caminho do Brasil, a
Arquiduquesa Maria Leopoldina Josefina Carolina de Habsburgo,
nascida em Viena a 22 de janeiro de 1797, filha do Imperador
Francisco I da Áustria e de sua segunda esposa, Maria Teresa da
Sicília, e que, aos 20 anos fôra escolhida para esposa de dom
Pedro.
O casamento, por procuração, realizou-se
em maio de 1817 e a 5 de novembro ela chegou ao Rio de Janeiro
acompanhada por uma comitiva de damas de companhia, mordomo,
alguns capelães, um bibliotecário, médicos e uma guarda real
composta por seis homens. Coubera ao Marquês de Marialva a tarefa
de convencer os Habsburgos quanto a sensatez dessa união que nada
mais era do que uma estratégia destinada a aliar o Rio de Janeiro
a uma das cortes mais poderosas da Europa. Marialva seduzira os
austríacos com uma exibição suntuosa de riquezas do Novo Mundo,
distribuindo barras de ouro, diamantes e jóias à elite austríaca.
Segundo o historiador Alberto Rangel, a
chegada da austríaca teria causado espanto aos reis, que esperavam
uma bela princesa. Era, segundo ele, de “estatura meã, grosso
pescoço das vienenses, um quê de corcunda, beiços polpudos dos
Habsburgo no rosto vultoso e carregado de pigmentação vermelha, o
nariz desgraciosíssimo, cabelos espichados, olhos azuis com a
expressão de assustados, a organização robusta e inelegante”.
Muitas eram as diferenças entre eles. A
comunicação foi difícil com o hesitante português de dona
Leopoldina e o sofrível francês de dom Pedro mas dona Leopoldina
parecia encantada quando o acompanhava nos demorados passeios
pelos arredores da Quinta da Boa Vista e organizava freqüentes
saraus musicais no Paço de São Cristovão. Muitos se impressionavam
com a erudição e conduta de dona Leopoldina que falava
fluentemente além da sua língua pátria, francês, inglês e italiano
e que conhecia tão bem belas-artes quanto botânica.
Em 1819 nasceu a primeira filha do casal,
dona Maria da Glória. E nos anos seguintes de um casamento que
durou apenas nove anos tiveram mais seis filhos: dom Miguel, dom
João Carlos, dona Januária Maria, dona Paula Mariana, dona
Francisca Carolina e dom Pedro de Alcântara que viria a ser o
segundo Imperador do Brasil.
O Príncipe Regente não demorou a retomar o
seu estilo de vida e as sucessivas aventuras amorosas tornaram-se
públicas, como a paixão por dona Domitília de Castro Canto e Melo,
com quem teve duas filhas. Apresentada à Corte recebeu o título de
Marquesa de Santos passando a morar numa casa próxima ao palácio o
que causou grande sofrimento à dona Leopoldina. Vinda dos salões
de Viena sentia-se deslocada no mundo fechado das damas, sequer
alfabetizadas, e de uma Corte repleta de banalidades e intrigas
mesquinhas.
As suas cartas para a irmã Marie Louise,
segunda esposa de Napoleão Bonaparte, passaram a demonstrar uma
certa melancolia: “(...) a verdadeira felicidade não existe neste
mundo e tremo constantemente na expectativa de um desgosto ou
aborrecimento. Não posso saber com certeza se tenho um amigo no
meu marido e se sou realmente amada(...) o modo de vida onde a
gente nunca vai ao teatro, nunca a uma sociedade, a não ser a das
pessoas vistas todos os dias, é, para uma pessoa acostumada a
divertimentos, para desvanecer (...)”.
Em 25 de abril de 1821 a Corte voltou para
Portugal e dom Pedro, Príncipe Regente, permaneceu no Brasil com
amplos poderes contrabalançados por um Conselho de Estado. Boas
intenções não lhe faltavam para exercer a Regência. Queria
manter-se fiel ao pai e, ao mesmo tempo, dar vida nova ao Brasil,
estabelecer um equilíbrio nacional. Mas, para isso, havia poucas
condições: o Banco do Brasil estava à beira da ruína e o povo
insatisfeito.
Dona Leopoldina assumiu a Regência em
agosto de 1822 enquanto o marido viajou para São Paulo na
tentativa de apaziguar os ânimos descontentes com a Coroa
portuguesa. De Portugal chegam-lhe notícias de que o Reino planeja
uma ação contra o Brasil rebaixando-o ao estatuto de simples
colônia. Sem tempo para aguardar o retorno de dom Pedro, dona
Leopoldina, aconselhada por José Bonifácio de Andrada e Silva e
utilizando os seus atributos de chefe interina do governo,
reúne-se na manhã de 2 de setembro de 1822 com o Conselho do
Estado e assina o Decreto da Independência, declarando o Brasil
independente de Portugal.
Em seguida convoca um oficial de sua
confiança, enviando por meio dele o decreto a dom Pedro,
juntamente com uma carta sua e outra de José Bonifácio,
solicitando, com empenho, a pronta decisão do Príncipe Regente em
favor da independência. Acrescentou ainda papéis recebidos de
Lisboa através dos quais, às margens do riacho do Ipiranga, ele
toma conhecimento das críticas que lhe faziam em Lisboa e dá o
grito histórico de “Independência ou Morte”.
Enquanto aguarda o retorno do marido, dona
Leopoldina idealiza a bandeira do Brasil independente, misturando
o verde da família Bragança ao amarelo ouro da família austríaca
dos Habsburgos e a 1 de dezembro de 1822 foi coroada Imperatriz do
Brasil na mesma cerimônia de coroação e sagração de dom Pedro I.
Sobre as causas da sua morte em 11 de
dezembro de 1826 há divergências. Para alguns historiadores teria
falecido com uma infecção generalizada ocasionada por um aborto
espontâneo seguido de uma série de “ataques de nervos” enquanto o
Imperador se encontrava no Rio Grande do Sul inspecionando as
tropas durante a Guerra da Cisplatina.
Para outros, dentre eles Eugenio dos Santos (“ D.Pedro IV”,
editora Rio de Mouro, Portugal, 2006), Carlos Oberacker Jr (“A
Imperatriz Leopoldina, Sua Vida e Sua Época, Imprensa Nacional,
Rio de Janeiro, 1973) e Isabel Lustosa (“D.Pedro I- Um Herói sem
Caráter”, editora Companhia das Letras, São Paulo, 2006), dona
Leopoldina teria morrido em conseqüência das agressões sofridas
durante um acesso de raiva do seu marido. Esses fatos teriam
ocorrido em 20 de novembro de 1826 quando novamente assumiria a
Regência do país para que dom Pedro pudesse viajar para o sul.
Pretendendo demonstrar que eram apenas
boatos as suas relações extraconjugais, dom Pedro decidiu que o
“beija-mão” à Regente seria feito na Sala do Trono numa cerimônia
com a presença da Marquesa de Santos. Dona Leopoldina teria
considerado isso uma grande humilhação e afrontando o marido
recusou-se a participar. O Imperador a teria arrastado pelo
palácio, agredindo-a com palavras e pontapés. Como testemunhas do
episódio apenas os três envolvidos, as damas de companhia e os
médicos que ampararam dona Leopoldina já em avançado estado de
gravidez.
Na véspera de sua morte descreveu para a
irmã Marie-Louise, numa carta ditada a Marquesa de Aguiar, o
“terrível atentado que sofrera do marido na presença da amante”.
Morreu no Palácio de São Cristovão, na
Quinta da Boa Vista, e foi sepultada no Convento da Ajuda. Quando
este foi demolido, em 1911, os seus restos mortais foram
trasladados para o Convento de Santo Antonio, também no Rio de
Janeiro até que em 1954 foram transferidos definitivamente para um
sarcófago de granito verde ornado de ouro, sob o Monumento do
Ipiranga, na cidade de São Paulo.
Em 1972, durante as comemorações do
Sesquicentenário da Independência, os restos mortais de dom Pedro
I (com exceção do seu coração embalsamado que permaneceu numa
redoma na Igreja da Lapa, na cidade do Porto, em Portugal) foram
trazidos para o Brasil e depositados num outro jazigo ao lado do
de dona Leopoldina, a melancólica e humilhada Imperatriz do
Brasil.