Maria Francisca Isabel Josefa Antonia
Gertrudes Rita Joana, Princesa Maria da Beira, Duquesa de
Bragança, Rainha Maria I de Portugal e dos Algarves D´Aquém e
D´Álém Mar em África e finalmente Rainha do Reino Unido de
Portugal, Brasil e Algarves, nasceu em Lisboa em 17 de Dezembro de
1734 e faleceu no Rio de Janeiro a 20 de março de 1816.
Dentre quatro irmãs era a filha mais velha
do Rei dom José I e de dona Maria Ana Vitória de Bourbon, Infanta
de Espanha e ficou conhecida, para os portugueses, como “A
Piedosa” ou “A Pia”, devido à sua extrema devoção religiosa. Para
os brasileiros, como “A Louca”.
Casou-se, em 1760, com seu tio, Pedro de
Bragança, Pedro III, irmão mais novo de dom José I e tiveram sete
filhos, quatro homens e três mulheres, dos quais apenas três
sobreviveram à primeira infância:
José nascido em 1761 que casou em 1777, com a sua tia, irmã de sua
mãe, a Infanta Maria Benedita de Bragança e faleceu aos 27 anos,
de varíola; João Maria José Francisco Xavier de Paula Luis Antonio
Domingos Rafael de Bragança, o futuro dom João VI e Mariana
Vitória nascida em 1768 que foi casada com o quarto filho do rei
Carlos II da Espanha, Gabriel de Bourbon, e faleceu em 1788.
Em 13 de maio de 1777 dona Maria tornou-se
a primeira mulher a ocupar o trono de Portugal, sucedendo ao pai,
dom José I, um rei fraco que tinha delegado a Sebastião José de
Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal, a tarefa de governar.
Inteligente e culta, ela gostava de
literatura, música e pintura. Falava latim e francês. Era educada
no trato e requintada no gosto. Não era considerada uma mulher
fisicamente atraente com os seus olhos pequenos e grande nariz mas
os portugueses a recordam como uma mulher doce e melancólica que
os governou durante 15 anos realizando grandes reformas no sistema
econômico, social e educacional do país.
O seu primeiro ato como Rainha, dando
início ao período que ficou conhecido como a “ Viradeira”, foi
soltar os presos políticos, muitos deles sem julgamento, e fazer
regressar os exilados e desterrados, vítimas da política de
Pombal. Cerca de oitocentas pessoas foram postas em liberdade, num
estado andrajoso e debilitado. O passo seguinte foi afastar o
despótico, anti-clerical e perseguidor de jesuítas, Marquês de
Pombal, obrigando-o ao exílio em sua própria casa e a proibição de
se aproximar da Corte.
Na definição do historiador Oliveira
Martins, “a Rainha era a maior beata que a educação jesuítica
criara no decurso de quase três séculos”. Por todo o Reino
murmuravam-se terços e havia santos por todos os cantos, em
oratórios e nichos, com velas e lâmpadas acesas. O seu fervor
religioso era de uma natureza tão impressionável que quando
ladrões entraram em uma igreja e espalharam hóstias pelo chão ela
decretou nove dias de luto, adiou os negócios públicos e
acompanhou, a pé, com uma vela, a procissão de penitência que
percorreu as ruas de Lisboa. Opositora do luxo e da depravação dos
reinados anteriores, gastou quantias exorbitantes em obras
religiosas, música sacra e festas religiosas.
No Castelo de São Jorge fundou, em 1790, a
Casa Pia de Lisboa presidida por Pina Manique. Ali eram recebidas
crianças pobres, órfãs e abandonadas tornando-se no primeiro
estabelecimento de educação popular e de amparo a menores. Para
sanar as dificuldades financeiras da Santa Casa da Misericórdia de
Lisboa, fundada no século XV pela Rainha dona Leonor, e dos
Hospitais Reais de Enfermos e Expostos, instituiu em 18 de
novembro de 1783 uma loteria anual, nos moldes das que ainda hoje
existem em todo o mundo, cujos lucros beneficiam, até hoje,
aquelas instituições de assistência hospitalar.
Pagou também os quinze anos de salários em
atraso dos empregados do palácio e dos soldados. Os presos
passaram a ser tratados com mais humanidade e ordenou que nenhum
criminoso poderia ficar mais do que cinco dias no castigo da
“solitária”.
Para o Brasil foi menos “Pia” e mais
“Impiedosa”. Foi ela a Rainha que instituiu, em 1765, a “derrama”,
a cobrança de uma cota mínima de ouro em Minas Gerais independente
da produção obtida. Foi esse o gatilho que, em 1789, disparou a
Inconfidência Mineira e também foi ela quem condenou à morte
Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, enquanto atenuava a
mesma condenação atribuída aos outros conjurados para prisão
perpétua.
Preocupada em retomar as rédeas da economia colonial, promulgou a
5 de janeiro de 1785, um alvará impondo pesadas restrições a
atividade industrial no Brasil e estabeleceu a cobrança de
elevados preços pelos produtos importados como tecidos, sabão,
calçados, instrumentos de trabalho e armas que estavam proibidos
de serem produzidos na colônia.
Com a morte do marido em 1786, a Rainha
dona Maria I começou a apresentar sintomas de declínio mental e em
1788 o quadro se agravou com as mortes da filha Mariana Vitória e
de José, este porque a mãe, nos seus caprichos de devota não
permitiu que lhe fosse ministrada a vacina contra a varíola,
recentemente descoberta. Enquanto ainda estava de luto, eclodiu a
Revolução Francesa, provocando-lhe surtos paranóicos, um deles em
público durante uma apresentação de teatro em Lisboa.
Cabeças rolavam na França e cabeças se
perdiam na Inglaterra e em Portugal com ambos os monarcas, George
III e Maria I sendo tratados pelo mesmo médico, o padre Francis
Willis. Enquanto George era capaz de falar ininterruptamente
durante 19 horas e engolir a comida sem mastigar, os desatinos de
dona Maria tinham uma conotação mais religiosa. Quebrava
crucifixos, insultava os seus confessores, tinha visões repetidas
do diabo espiando em todos os cantos e, obcecada com as penas
eternas que o pai estaria sofrendo no inferno por ter permitido a
Pombal perseguir os jesuítas o via como “uma massa calcinada de
cinzas, sobre um pedestal de ferro derretido negro e horizontal”.
Depois que um incêndio destruiu a Barraca
Real, um palácio de madeira provisório e que era utilizado
enquanto se construía o Palácio da Ajuda, a Família Real mudou-se
para Queluz, palácio que tinha sido construído por dom Pedro III,
marido de dona Maria I. Os gritos da Rainha ecoavam pelos
corredores frios e escuros e seu filho, dom João é nomeado
Príncipe Regente em 1799.
Depois de dezesseis anos de reclusão, a
Rainha saiu de Queluz para embarcar no “Príncipe Real” rumo ao
Brasil onde invariavelmente vestida de seda preta, num infindável
luto pelo marido e pelos filhos, continuaria a ver o diabo, desta
feita escondido atrás do morro do Pão de Açúcar.