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“Retrato Eqüestre de Dom João VI”, Óleo atribuído a Domingos
Antonio Sequeira, Museu Imperial de Petrópolis, RJ, Brasil |
Dom João acenava e sorria. Nas suas
lembranças ficavam as ameaças de Napoleão, as pressões dos
ingleses, as suas desgraças domésticas. Talvez pela primeira vez,
dom João sentiu-se forte e soberano.
No Novo Mundo distanciado do estado de
ebulição em que havia muito tempo se encontrava a Europa, poderia
de fato governar, o que lhe fora praticamente impossível fazer
desde que assumira a Regência do reino, com o impedimento da
Rainha Dona Maria I, sua mãe, acometida de loucura em 1791 e por
ele substituída a 10 de Fevereiro de 1792, embora oficialmente a
regência só lhe tenha sido entregue a 16 de Julho de 1799.
E a cidade de São Sebastião do Rio de
Janeiro, com os seus pouco mais de 50 mil habitantes, fervilhava.
As homenagens dos súditos não ficavam apenas pelas mesuras e
palavras. Ofereciam casas para abrigar a comitiva do Príncipe
Regente, contribuíam com dinheiro, alimentos e escravos.
Nesses primeiros dias, o Príncipe Regente,
Dona Carlota Joaquina e os filhos se hospedaram no Paço Real e a
rainha dona Maria I no Convento dos Carmelitas que se ligava ao
Paço Real por uma passarela improvisada.
No mês seguinte, o traficante de escravos
Elias Antonio Lopes, para demonstrar o seu apreço à Corte
Portuguesa, ofereceu ao Príncipe a Quinta da Boa Vista, em São
Cristovão, para cujo solar Dom João foi residir na companhia dos
filhos e que foi incorporada aos bens da Coroa, sendo hoje o Museu
Nacional. Dona Carlota Joaquina, de quem vivia separado,
instalou-se numa chácara na praia de Botafogo.
Ainda não haviam terminado as festas pela
sua chegada, e Dom João já se preparava para governar escolhendo
um Ministério cujas figuras principais eram Dom Rodrigo de Sousa
Coutinho (futuro Conde de Linhares), Dom João Rodrigues de Sá e
Melo (Conde de Anadia) e Dom Fernando de Portugal e Castro (depois
Marquês de Aguiar). Os órgãos administrativos foram
reconstituídos, seguindo o modelo de Lisboa e entraram logo em
funcionamento.
Um mês depois de sua chegada, Dom João
revogou o antigo decreto de sua mãe que impedia a existência de
indústrias. Também liberou o plantio, até então proibido, de
oliveiras e amoreiras e permitiu a comercialização do trigo do
Estado do Rio Grande do Sul, que antes servia apenas para consumo
local. Iniciava-se, assim, o desenvolvimento da Colônia.
Enquanto isso, em Portugal o povo levanta-se contra o domínio
francês e auxiliado pelas tropas inglesas e espanholas, derrota os
homens de Napoleão. A proclamação de 15 de setembro de 1808
afirmava aos habitantes de Lisboa que o país havia sido resgatado
ao invasor e que “a bandeira nacional flutua em toda parte do
Reino”. A proclamação terminava dando vivas ao Príncipe Regente.
Desconhecendo o que se passava em Portugal
Dom João decidiu enviar uma expedição para ocupar a Guiana que é
vencida e ocupada a 12 de janeiro de 1809. Dom João ficou radiante
com essa vitória. Sentiu-se vingado pela humilhação que Napoleão
lhe tinha imposto.
Se ao Príncipe faltavam preparo e idéias,
isso sobrava ao inventivo Conde de Linhares, sempre pronto a
sugerir novos empreendimentos. Uma escola de cirurgia tinha sido
fundada na Bahia e outra no Rio de Janeiro, que ganhou ainda um
curso de economia, o Jardim Botânico, o Observatório Astronômico,
um pequeno museu mineralógico e a Biblioteca Pública. Além disso a
tipografia régia começara a funcionar, imprimindo livros
científicos, de literatura e um jornal “A Gazeta do Rio de
Janeiro”. Para aparelhar as Forças Armadas de maneira eficaz,
criou-se uma fábrica de pólvora, a Academia da Marinha e a
Academia Militar.
Organizou-se também um órgão centralizador
das finanças, o Banco do Brasil, fundado em 12 de Outubro de 1808.
O Brasil transformava-se de maneira completa. Entretanto, nem tudo
saía de maneira satisfatória. Não acostumado aos hábitos da terra,
o Príncipe cometia erros que desgostavam a população.
Havia, por exemplo, a requisição de casas
no Rio de Janeiro para abrigar o pessoal da Corte. A princípio os
moradores locais sentiam-se honrados em ceder as suas residências,
mas depois acharam que as requisições constantes, que só cessaram
por completo em 1818, eram uma espoliação injusta. Sobre as casas
desapropriadas, Dom João mandava colocar as letras PR (Príncipe
Real), querendo com isso homenagear o proprietário. Mas o povo,
ressentido, traduzia a inscrição como “Ponha-se na Rua”, ou “
Prédio Roubado”. Críticas mais sérias vinham de Londres onde era
editado o “Correio Braziliense”, jornal de Hipólito José da Costa.
“Não se cuidou de uma inspeção de estradas, de uma redação de
mapas, do exame de navegação dos rios. O Governo arranjou-se
exatamente pelo Almanaque de Lisboa, sem nenhuma atenção ao país
em que se estabelecia”.
Vários problemas de caráter econômico
começaram a surgir. Se muitos dos cargos criados eram apenas
“cabides de emprego”, a realidade é que custavam muito caro. E uma
das questões a serem resolvidas era, exatamente, a de como
conseguir dinheiro para enfrentar as despesas da Corte, o
pagamento do funcionalismo e as concessões às indústrias e ao
comércio. A arrecadação de impostos na Colônia era ainda precária,
variando, muitas vezes, de acordo com as determinações das
autoridades locais de cada província.
Completada a chegança da Corte Real
portuguesa teve início a chamada “inversão brasileira”. O Brasil,
de simples Colônia, passou a ser a sede da monarquia portuguesa. O
Vice-Reino ganhou tanta importância que se veria traduzida, em
termos políticos, com a sua ascensão através do decreto de 16 de
Dezembro de 1815, à categoria de Reino-Unido aos de Portugal e
Algarves.