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Paulo Cunha -
16.11.06/Agencia Lusa

ALDEIA >> O Prêmio Nobel da Literatura, José
Saramago, durante apresentação na Azinhaga, sua aldeia natal,
em plena lezíria do Ribatejo. |
Um dos mais renomados escritores
portugueses, José Saramago, avaliou o impasse em torno do acordo
ortográfico. Para ele, a situação se tornou “caricata” e é preciso
cumprir o que foi assinado. “Estiveram à mesa das negociações,
discutiu-se o problema, chegou-se a um acordo e assinou-se. E
depois não se cumpre, como em outras coisas no nosso país”,
afirmou o escritor português, em entrevista à Agência Lusa, em 26
de fevereiro.
“O acordo existe e passou por umas quantas
cabeças de um lado e de outro. Se for preciso, sentem-se outra vez
à mesa, puxem as esferográficas e avancem, que isto já se está a
tornar caricato”, observou.
Considerando não ter "autoridade para
defender um ponto de vista ou outro" sobre a matéria, Saramago
rejeitou concepções "puristas" em torno da língua. “Gosto da minha
língua tal qual a escrevo, mas não posso impor a 150 milhões de
pessoas os meus gostos pessoais. Recordo que aprendi a escrever
mãe com 'e', depois me mandaram escrever com 'i', e depois
voltaram a mandar escrever com 'e', quando a mãe era sempre a
mesma”, afirmou.
“Deviam preocupar-se agora era com as
pessoas que não respeitam a língua, em vez de falar de pureza. A
reforma de 1911 é que foi uma revolução autêntica, quando se
reconheceu que a língua, na sua expressão ortográfica, era
bastante confusa, mas resolveu-se tudo sem traumatismo, sem
traumas culturais, intelectuais ou psíquicos”, insistiu,
mencionando a alteração no português que acabou com as consoantes
duplas.
Para o Nobel, é importante decidir “o que
se quer”, frisando que a língua portuguesa “não é condenada à
situação do húngaro, [idioma] fechado em fronteiras de onde não
consegue sair”.
“Evidentemente que, se escrevo a palavra 'objecto',
gostava de a escrever com o 'c' entalado lá no meio, mas um
brasileiro escreverá sem 'c'. Mas isso é grave? A pronúncia é
igual”, disse também o escritor. Saramago cita os exemplos do
Brasil e dos países africanos lusófonos, “onde as transformações
idiomáticas, ortográficas e semânticas se aceleram” e onde “não
continuam a falar o português do Almeida Garrett”.
“Temos de acabar com a idéia de que somos
os donos da língua. Os donos da língua são quem a fala, melhor ou
pior”, sublinhou.