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INFIEL >> Carlota Joaquina, autor anônimo - Palácio
Nacional da Ajuda, Lisboa, Portugal. |
A chegada da Corte Portuguesa ao Novo
Mundo trouxe à tona e agravou os problemas dos Bragança que mais
pareciam caricaturas da realeza européia: a rainha dona Maria I, a
Louca, com o seu luto perpétuo, o ineficiente Príncipe Regente
D.João, aquele que, na condição de segundo filho, nunca fora
destinado a governar, e sua esposa conspiradora,
dona Carlota Joaquina. Uma família mergulhada na desconfiança, na
infelicidade, frustrada e fragmentada sob as pressões da era
napoleônica.
Na origem dos problemas da família real
portuguesa, o casamento desastroso entre Carlota Joaquina, então
com 10 anos, e dom João, com 17, por razões de Estado no intuito
de
solidificar as relações entre as cortes espanhola e portuguesa.
Filha primogênita de Carlos IV e irmã de
Fernando VII, reis da Espanha, e de Maria Luísa de Bourbon,
princesa de Parma, Itália, Carlota Joaquina nasceu em 1775 e
morreu em 1830,
aos 54 anos de idade.
A menina Carlota chegou a Portugal em maio
de 1785. Desde o princípio, antipatizou com o recém-conhecido que
viria a ser seu marido constando, inclusive, registros de alguns
incidentes entre o jovem casal como uma violenta mordida na orelha
de dom João e um castiçal que a temperamental dona Carlota
atirou-lhe na testa.
Como ambos não tinham chegado a puberdade,
o casamento só se consumou seis anos mais tarde quando passaram a
compartilhar a mesma cama. Ao longo dos quarenta anos seguintes e
num período de treze anos, o casal teve nove filhos: Maria Teresa,
em 29 de abril de 1793, um ano depois de dom João assumir a
regência do Reino; Antonio, em 25 de março de 1795 e que faleceu
aos seis anos de idade em 11 de junho de 1801; Maria Isabel, em 10
de maio de 1797 que veio a casar-se com dom Fernando VII, rei da
Espanha, morrendo logo depois, em 2 de dezembro de 1818; Pedro, em
12 de outubro de 1798, futuro primeiro Imperador do Brasil e rei
Pedro IV, de Portugal; Maria Francisca, em 22 de abril de 1800 que
se casou com o infante dom Carlos, irmão do rei dom Fernando VII,
da Espanha; Isabel Maria, nascida a 4 de junho de 1801 e que foi
regente de Portugal entre os anos de 1826 e 1828; Miguel, em 22 de
outubro de 1802, rei de Portugal entre 1828 e 1834 perdendo o
trono para o irmão Pedro quando fugiu para a Alemanha onde morreu
em 1866, aos 64 anos; Maria da Assunção, em 25 de junho de 1805 e
falecida em janeiro de 1834 e Ana Maria de Jesus nascida em 23 de
dezembro de 1806, mais tarde a Duquesa de Loulé.
Alguns historiadores suspeitam de que
alguns desses filhos não seriam de dom João, mas frutos de
relacionamentos extraconjugais de Carlota Joaquina. Um deles,
Oliveira Lima no seu livro “Dom João VI no Brasil” escreve que dom
João “ não tinha grande certeza da paternidade dos últimos filhos”
e que Carlota Joaquina foi “traidora como cônjuge, conspiradora
como princesa, desleal sempre e sem interrupção”.
A mudança da sua Espanha para Portugal foi
traumática para a menina que pouco falava o português e era a
única criança numa corte envelhecida. Os “mui malos modos” da
infanta, relatados através de cartas enviadas para a Corte de
Madrid por sua criada, Anna Miquelina, iam desde “não querer fazer
nada do que lhe dizem”, “demorar tempos infindos a vestir-se, o
“levantar-se sempre tarde”, as birras “pela roupa que lhe apertava
ou os sapatos que não queria calçar”. Á mesa “pegava os alimentos
com a mão” ou “atirava comida à cara do infante (dom João) e às
criadas de servir” , desesperava o seu professor, o padre Filipe,
“por estar durante as lições duas ou três horas sem querer falar
uma palavra” e a todos escandalizava ao levantar as saias de suas
criadas.
Apenas a sua sogra, a Rainha dona Maria I,
ainda em plena posse de suas faculdades mentais, conseguia
discipliná-la passando um bom tempo com ela levando-a a passeios
por
conventos e igrejas, assim como às fontes termais da cidade de
Caldas, hoje Caldas da Rainha. A menina tornou-se a substituta
afetiva de uma filha de dona Maria, Maria Ana
Victória, que se casara na Corte espanhola em troca de dona
Carlota.
Desde a sua chegada à Corte portuguesa,
dona Carlota se empenhou sempre em ser o centro das atenções e
entregava-se, de corpo e alma, á suas duas paixões: a dança
flamenca e a equitação. Foi uma adolescente que usava jóias e
roupas extravagantes mas uma mulher difícil de desvendar.
Envolveu-se em tantas polêmicas que até as
descrições físicas se revelam variadas e incoerentes. Magra, de
baixa estatura (menos de 1,50m), pele morena marcada pelas
cicatrizes da varíola, com grandes olhos negros e boca larga, de
lábios finos e buço escuro e pronunciado. Vista como exótica , ela
suportou o peso dos insultos anti-colonialistas do Brasil e do
ódio liberal de Portugal.
Foi taxada de “bruxa de Córdoba”, “Maria
Antonieta” lusitana, adúltera, e acima de tudo, conspiradora.
Desde 1805 liderou cinco conspirações sendo a primeira a
“Conspiração de Mafra” que tentou destronar o marido alegando que
ele estaria sofrendo de uma doença semelhante à de sua mãe.
Carlota Joaquina pretendia assumir a regência de Portugal mas Dom
João descobriu a tentativa de golpe, puniu os envolvidos e partir
de então passou a viver separado da mulher. Já no Brasil, tentou
assumir o trono das colônias espanholas na América depois de
Napoleão ter deposto o seu irmão, Fernando VII, rei da Espanha.
Dom João impediu que ela viajasse para Buenos Aires onde pretendia
ser aclamada princesa.
Já em Portugal, em 1821, recusou-se a
assinar a Constituição e foi confinada no Palácio do Ramalhão,
longe de Lisboa e do poder. Mesmo assim, em 1824, conspirou para
fazer do seu filho predileto, Miguel, rei de Portugal, no
movimento conhecido como “Abrilada” quando ele, à frente de um
grupo de militares aprisionou o próprio pai e tentou assumir a
Coroa. O golpe deu errado e dom Miguel acabou exilado como a mãe.
Até na morte do marido há suspeitas da participação de Carlota
Joaquina. Dom João VI morreu em 1826 em meio a acessos de náuseas
e vomitos. Rumores na época falavam em envenenamento ordenado pela
rainha. Depois da morte de dom João, envolveu se na sua derradeira
conspiração, na qual tentou aclamar dom Miguel em detrimento da
regente Isabel Maria. Perdeu mais uma vez.
Para dona Carlota Joaquina a fuga para o
Brasil representou uma tragédia pessoal. Ao chegar tinha 32 anos e
embora as suas intrigas não tivessem resultado, ela aprendera com
os seus próprios erros e constituíra uma base informal de poder.
Tudo desmoronou de um só golpe quando no “Alfonso de Albuquerque”
acompanhada pelas suas filhas Maria Teresa,
Maria Isabel, Maria da Assunção e Ana Maria de Jesus, zarpou do
Tejo e tomou o rumo da colônia distante, a milhares de quilômetros
das cortes européias.
A bordo, para além da escassez dos
alimentos e da água, os sofrimentos foram agravados por uma
infestação de piolhos que se espalhou pelos conveses abarrotados.
Os nobres
lançaram suas perucas infestadas ao mar e as mulheres, de dona
Carlota para baixo, fizeram fila para raspar as cabeças e untá-las
com banha de porco.
E foi com um turbante para cobrir a cabeça
raspada que dona Carlota Joaquina desembarcou em Salvador para as
cerimônias de boas vindas depois de uma viagem de 57 dias . Era
uma mulher abatida. Amargurada, de imediato odiou o Brasil e o seu
povo.
Depois de quase um mês na Bahia, dias de
incontáveis festas, celebrações, passeios e decisões, a Corte
partiu para o Rio de Janeiro onde Carlota Joaquina viria a ser
coroada, a
Princesa do Brasil.