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Sexta-feira | 15 FEV 08

A chegança da Corte Portuguesa no Brasil - Parte IV
“Fica, meu Rei”, suplicavam os baianos

Por Eulália Moreno
Para Mundo Lusíada

FOTO 01 >> "Dom João VI e Dona Carlota Joaquina”, Óleo de Manuel Dias de Oliveira Brasiliense, Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. FOTO 02 >> Retrato Equestre de Dona Carlota Joaquina”, Óleo supostamente atribuído a Domingos Antonio Sequeira, Museu Imperial de Petrópolis, RJ, Brasil

...Em verdade, o Senhor D.João foi, senão o primeiro imperador do Brasil, pelo menos o primeiro a proclamar a idéia de fundar no Brasil um novo Império Varnhagen

Durante a estada de pouco mais de um mês na Bahia, a devoção popular, com as suas homenagens e os “beija-mão”, pouco tempo de descanso deixou para a Família Real e para a sua comitiva.

Salvador ainda se ressentia de não ser mais a capital do Brasil, título que lhe tinha sido tirado em 27 de Junho de 1763 e queria fazer as honras para a realeza que, pela primeira vez, pisava solo das Américas. Com os seus 46 mil habitantes, dos quais 72% eram pretos ou mestiços, possuía um porto que muito arrecadava com o tráfico de escravos, embarque de açúcar, fumo, grãos e óleo de baleia, dentre outras mercadorias. A passagem pela Bahia é considerada por muitos historiadores não como um ocasional desvio de rota cujo objetivo final era a cidade do Rio de Janeiro mas sim como um estratagema do Príncipe Regente que precisava do apoio financeiro e político, de ganhar a simpatia da população local além de controlar os ímpetos de independência do povo. Fosse esse o propósito, Dom João deixou-se mimar pela população local.

Vista da Baía de Todos os Santos a cidade encantava pela sua topografia. De perto, o belo ganhava ares pesados com as suas ruas mal-cheirosas. O lixo era jogado na rua, não havia rede de esgotos e os dejetos era coletados por escravos e armazenados em barris de madeira que depois eram esvaziados no mar ou em rios. Salvador resumia-se à Cidade Alta e Cidade Baixa. As ruas eram estreitas e tortuosas, as construções mais suntuosas eram as igrejas, todas em estilo barroco. Não havia encanamento, a água para consumo era trazida de fontes públicas em baldes carregados pelos escravos. Os banhos não eram diários. A luz vinha de lamparinas com óleo de baleia, abatidas na Baía de Todos os Santos e as cadeirinhas de arruar eram o principal meio de transporte: dois escravos apoiavam um varal de madeira nos ombros, enquanto o nobre sentava em um compartimento entre eles.

A Família Real ficou hospedada no Palácio do Governador, atual Palácio do Rio Branco, centro econômico e administrativo da cidade, enquanto os outros membros da comitiva eram alojados nos melhores sobrados que existiam entre as portas do Carmo e as imediações do mosteiro de São Bento, depois dos seus proprietários e moradores serem devidamente enxotados por ordem do governador João Saldanha da Gama, o Conde da Ponte.

Em Salvador dom João efetivou a abertura dos portos brasileiros às nações amigas e pouco menos de um mês depois de desembarcar, em 18 de Fevereiro de 1808, acatando sugestão do cirurgião-mor da Corte, o pernambucano José Corrêa Picanço, assinou a Carta Régia determinando a criação da Escola de Cirurgia da Bahia ou Colégio Médico-Cirúrgico da Bahia, na sede do Hospital Militar, no Terreiro de Jesus, a primeira faculdade de medicina do Brasil.

E mais fez dom João para demonstrar aos baianos o seu apreço e gratidão: agraciou os membros da Câmara, da magistratura, da administração e do clero e os mais notáveis da terra, concedeu facilidades para o estabelecimento de uma fábrica de vidros, autorizou a organização de uma companhia de seguros chamada de Comércio Marítimo, a primeira do Brasil. Preocupado com a defesa da Bahia autorizou a construção de 25 barcas canhoneiras, a criação de uma fábrica de pólvora e de uma fundição para o fabrico de peças, a realização de obras de fortificação do porto, o aumento no efetivo dos regimentos de infantaria e a organização de dois esquadrões de cavalaria. Mandou ainda abrir estradas “especialmente para o Rio de Janeiro”, estabeleceu a cultura do trigo e instalou moinhos.

Os baianos fizeram grandes esforços para que o Príncipe Regente fixasse a Corte em Salvador prometendo construir-lhe um palácio e outros prédios necessários às repartições governamentais mas, a 26 de Fevereiro uma população chorosa e triste assistia a partida de Dom João, da Família Real e de toda a comitiva rumo ao Rio de Janeiro.

 

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