Durante a estada de pouco mais de um mês
na Bahia, a devoção popular, com as suas homenagens e os
“beija-mão”, pouco tempo de descanso deixou para a Família Real e
para a sua comitiva.
Salvador ainda se ressentia de não ser
mais a capital do Brasil, título que lhe tinha sido tirado em 27
de Junho de 1763 e queria fazer as honras para a realeza que, pela
primeira vez, pisava solo das Américas. Com os seus 46 mil
habitantes, dos quais 72% eram pretos ou mestiços, possuía um
porto que muito arrecadava com o tráfico de escravos, embarque de
açúcar, fumo, grãos e óleo de baleia, dentre outras mercadorias. A
passagem pela Bahia é considerada por muitos historiadores não
como um ocasional desvio de rota cujo objetivo final era a cidade
do Rio de Janeiro mas sim como um estratagema do Príncipe Regente
que precisava do apoio financeiro e político, de ganhar a simpatia
da população local além de controlar os ímpetos de independência
do povo. Fosse esse o propósito, Dom João deixou-se mimar pela
população local.
Vista da Baía de Todos os Santos a cidade
encantava pela sua topografia. De perto, o belo ganhava ares
pesados com as suas ruas mal-cheirosas. O lixo era jogado na rua,
não havia rede de esgotos e os dejetos era coletados por escravos
e armazenados em barris de madeira que depois eram esvaziados no
mar ou em rios. Salvador resumia-se à Cidade Alta e Cidade Baixa.
As ruas eram estreitas e tortuosas, as construções mais suntuosas
eram as igrejas, todas em estilo barroco. Não havia encanamento, a
água para consumo era trazida de fontes públicas em baldes
carregados pelos escravos. Os banhos não eram diários. A luz vinha
de lamparinas com óleo de baleia, abatidas na Baía de Todos os
Santos e as cadeirinhas de arruar eram o principal meio de
transporte: dois escravos apoiavam um varal de madeira nos ombros,
enquanto o nobre sentava em um compartimento entre eles.
A Família Real ficou hospedada no Palácio
do Governador, atual Palácio do Rio Branco, centro econômico e
administrativo da cidade, enquanto os outros membros da comitiva
eram alojados nos melhores sobrados que existiam entre as portas
do Carmo e as imediações do mosteiro de São Bento, depois dos seus
proprietários e moradores serem devidamente enxotados por ordem do
governador João Saldanha da Gama, o Conde da Ponte.
Em Salvador dom João efetivou a abertura
dos portos brasileiros às nações amigas e pouco menos de um mês
depois de desembarcar, em 18 de Fevereiro de 1808, acatando
sugestão do cirurgião-mor da Corte, o pernambucano José Corrêa
Picanço, assinou a Carta Régia determinando a criação da Escola de
Cirurgia da Bahia ou Colégio Médico-Cirúrgico da Bahia, na sede do
Hospital Militar, no Terreiro de Jesus, a primeira faculdade de
medicina do Brasil.
E mais fez dom João para demonstrar aos
baianos o seu apreço e gratidão: agraciou os membros da Câmara, da
magistratura, da administração e do clero e os mais notáveis da
terra, concedeu facilidades para o estabelecimento de uma fábrica
de vidros, autorizou a organização de uma companhia de seguros
chamada de Comércio Marítimo, a primeira do Brasil. Preocupado com
a defesa da Bahia autorizou a construção de 25 barcas canhoneiras,
a criação de uma fábrica de pólvora e de uma fundição para o
fabrico de peças, a realização de obras de fortificação do porto,
o aumento no efetivo dos regimentos de infantaria e a organização
de dois esquadrões de cavalaria. Mandou ainda abrir estradas
“especialmente para o Rio de Janeiro”, estabeleceu a cultura do
trigo e instalou moinhos.
Os baianos fizeram grandes esforços para
que o Príncipe Regente fixasse a Corte em Salvador prometendo
construir-lhe um palácio e outros prédios necessários às
repartições governamentais mas, a 26 de Fevereiro uma população
chorosa e triste assistia a partida de Dom João, da Família Real e
de toda a comitiva rumo ao Rio de Janeiro.