Foi um exército francês faminto, descalço
e sem agasalho que a 4 de Novembro de 1807 entrou em território
português. Desesperados pela fome e pelo frio, açoitados por uma
chuva intermitente, os soldados invasores saquearam e profanaram
as igrejas e até sepulturas das regiões que atravessavam. Pareciam
mais uma horda de malfeitores do que um exército regular,
arrastando-se na lama e lentamente progredindo na sua marcha rumo
a Lisboa.
A Corte do Príncipe Dom João só tomou conhecimento de que as
forças francesas haviam ultrapassado a fronteira, três semanas
após o fato. Cercado de cortesãos que lhe davam os mais
contraditórios conselhos, Dom João não sabia o que fazer e
desconhecia grande parte dos acontecimentos que agitavam o país.
A situação de indecisão transformar-se-ia
totalmente, quando a 25 de Novembro, Dom João recebeu, através do
Tenente-Coronel Lécor, a notícia da invasão. Junot estava com o
seu exército em Abrantes, a 22 léguas de Lisboa. Com o Conselho de
Estado reunido às pressas, ficou resolvido por unanimidade que no
dia 27 a família real e a Corte embarcariam e que a 28 partiriam
para o Brasil. O Príncipe Regente transferiu-se com a família do
Palácio de Mafra para o da Ajuda, e todos começaram os
preparativos para a viagem.
As notícias sobre a partida da família
real e da aproximação do exército francês transformaram Lisboa.
Milhares de pessoas, em pânico, aglomeravam-se às margens do Tejo
com a esperança de conseguir um lugar na esquadra composta de oito
naus, quatro fagatas, três brigues e 30 navios mercantes. Não
faltaram cenas deploráveis, pois muitos queriam embarcar à força.
Aos que corriam de um lado para outro
pelas ruas da cidade vieram juntar-se os foragidos do interior,
que pensavam escapar aos invasores franceses na capital do Reino,
aumentando ainda mais a aflição dos lisboetas. Lamentando-se e
chorando, acotovelando-se pelas praias, e pelo cais, o povo
lisboeta assistia ao embarque de seu Príncipe e sua Corte. Enormes
volumes, carregando as riquezas da metrópole, obras de arte,
relíquias históricas, raridades iam aos poucos sendo tragadas
pelos porões dos navios.
O dia 27 de Novembro, data marcada para o
embarque, nasceu claro e ensolarado, ao contrário dos chuvosos
dias anteriores. A primeira carruagem real a chegar ao cais
conduzia um emocionado D.João e o infante da Espanha, Dom Pedro
Carlos, primo de Dona Carlota Joaquina que morava havia algum
tempo em Lisboa. Ambos embarcaram no “ Príncipe Real” onde
viajariam também sua mãe a Rainha Dona Maria I e seu filho, Dom
Pedro. Estava já a bordo o Príncipe Regente quando chegaram ao
cais a Princesa Dona Carlota Joaquina e os restantes filhos que
embarcaram no “Afonso d ´Albuquerque”. Depois que a família real
embarcou com a sua comitiva, toda a Corte deixou o cais em direção
à esquadra. Ministros, altas personalidades do Reino , da nobreza
e do clero, juntamente com muitos negociantes e proprietários
fizeram com que o número de embarcados chegasse, segundo alguns
historiadores, a cerca de 15 mil.
O terror que dominava os fugitivos, porém,
ainda não chegara ao fim. A angustiante espera da partida
demoraria 40 horas. O mar além da barra do Tejo estava bastante
agitado para permitir a saída dos navios. Enquanto isso, as tropas
de Junot avançavam sobre a capital e o general francês, conhecedor
da região, enviara um destacamento para tomar o Forte de São
Julião, com o objetivo de apontar os seus canhões para a foz do
Tejo.
Às duas horas da madrugada de 29 de
Novembro de 1807, um vento favorável permitiu que a esquadra
portuguesa formasse sob a proteção dos navios de Sua Majestade
Britânica.
Às nove horas da manhã de 30 de Novembro , Junot entrava em Lisboa
à frente de um exército de 26 mil homens e de um destacamento da
cavalaria real portuguesa que encontrara a força francesa perto de
Santarém e se pusera às suas ordens.
Abandonado à própria sorte, Portugal viveria os piores anos de sua
História.