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Antonio
Cotrim/Lusa

RARIDADE >> Réplicas das páginas de algumas obras
literárias consideradas "Tesouros" que se encontram guardadas
na Torre do Tombo em Lisboa, 15 de Janeiro 2008. |
A carta de Pêro Vaz de Caminha ao rei D.
Manuel I sobre o descobrimento do Brasil atrai muitos
historiadores e até turistas brasileiros à Torre do Tombo, guardiã
do tesouro histórico e literário considerado "Memória do Mundo"
pela Unesco.
O documento em que o escrivão da armada de
Pedro Álvares Cabral e mestre da Casa da Moeda do Porto descreve
em detalhes a terra, o povo, a fauna e a paisagem das terras de
"Vera Cruz" é considerado a certidão de nascimento do Brasil, fato
que desperta a curiosidade dos brasileiros que visitam a capital
portuguesa.
Em entrevista à Agência Lusa, a
coordenadora do Gabinete de Relações Externas da Direção-Geral de
Arquivos da Torre do Tombo, Maria de Lurdes Henriques adiantou que
a carta do descobrimento do Brasil é muito solicitada pelos
brasileiros, que acabam ficando um "bocadinho decepcionados"
quando descobrem que não podem ver o documento.
"A carta não vai para a sala de leitura
porque é um documento que está no cofre-forte e só é mostrado
quando há exposições ou uma razão suficientemente forte que o
justifique", explicou, adiantando que os interessados podem
consultar o documento por microfilme ou pela internet.
Nas comemorações dos 500 anos da chegada
dos portugueses ao Brasil, a carta saiu da Torre do Tombo e esteve
mais de um ano exposta em várias cidades brasileiras, o que
preocupou os responsáveis pelo arquivo luso.
"É uma peça que é sempre uma dor de cabeça
quando sai para exposição", já que o controle da umidade e da
temperatura deve ser constante como condição fundamental para sua
conservação, explicou.
Referência
Contatada pela Agência Lusa, a presidente da Assembléia-Geral da
Casa do Brasil, Eliana Bibas, disse que a Torre do Tombo é uma
referência para muitos pesquisadores que estudam a história do
Brasil e viajam a Portugal para pesquisar o documento.
Segundo Maria de Lurdes Henriques, mais de
mil pesquisadores estrangeiros consultam anualmente o arquivo.
Além dos brasileiros, a instituição recebe japoneses, chineses,
indianos, canadenses e europeus em geral.
A Torre do Tombo guarda cerca de 100
quilômetros de documentos que, por seu valor histórico, constituem
a memória do país.
"Há determinadas obras que, por sua beleza
ou significado, são autênticos tesouros nacionais e mundiais",
sublinhou.
Entre esses tesouros estão o "Tratado de
Tordesilhas", assinado em 1494, e o "Corpo Cronológico" - uma
coleção formada por Manuel da Maia que reúne 83 mil documentos em
papel e pergaminho do século 12 ao 17.
A coleção "Leitura Nova de D.Manuel I" -
formada por 61 livros manuscritos em pergaminho, 43 dos quais com
iluminuras que retratam a época dos Descobrimentos - também é
muito solicitada, assim como a "Bíblia dos Jerônimos", da Escola
Florentina, pela beleza de suas iluminuras, das quais se
sobressaem as cores azul, vermelho, amarelo e o ouro.
"Estas obras são muito procuradas por
historiadores de arte portugueses e estrangeiros porque são obras
de referência mundial", disse Maria de Lurdes Henriques, que
relata que o interesse também passa por modismos, como a recente
"enchente" de interessados nos arquivos da ditadura portuguesa.
A cartografia também desperta grande
interesse dos historiadores, como o Atlas de Fernão Vaz Dourado,
que Maria de Lurdes classifica como "uma maravilha" porque o
cartógrafo reproduziu, segundo sua visão da época, todos os
continentes.
A arquivista citou ainda outras
preciosidades guardadas no arquivo, como a coleção "imensa" de
bulas, entre as quais a de canonização da rainha Santa Isabel, a
carta do imperador da Etiópia escrita para D.Manuel, a coleção de
tratados e um fragmento de uma cantiga do rei D. Dinis, descoberta
por um pesquisador na Torre do Tombo quando servia de capa a um
livro de cartório.
"O conjunto destas obras consideradas de
grande preciosidade é de bem mais que mil" e estão guardadas no
forte anti-sísmico da Torre do Tombo, vigiadas para assegurar sua
conservação, revelou.
O documento mais antigo guardado no
edifício da Torre do Tombo - a carta de fundação de uma igreja nas
proximidades da cidade do Porto - data de 27 de junho de 882.
A Torre guarda ainda um documento de 28 de
julho de 1129, onde se registra, pela primeira vez, a palavra
Portugal.