MUNDO cultura
 

12/DEZ/2007

 

Entrevista: Obra será lançada, no original, em Portugal

Quem comemora 200 anos é o próprio Brasil, diz autor de '1808'

 

Vanessa Sene
Mundo Lusíada

Mundo Lusíada

Laurentino Gomes, autor do livro "1808" e o Dr. Carlos Mota durante o Seminário em São Paulo

Laurentino Gomes é autor da obra que faz um relato completo sobre o momento na história que mudou os destinos de Brasil e Portugal. “1808” já é considerado um best-seller, na lista dos mais vendidos há mais de 10 semanas. O livro relata um outro lado de D. João VI, a realidade de Portugal diante de Napoleão Bonaparte e o redescobrimento do Brasil com diversas medidas tomadas pelo rei de Portugal em terras brasileiras, entre as principais delas a abertura dos seus Portos.

Em 2008, a obra também será lançada em Portugal, pela editora Dom Quixote, e no seu texto original, ou seja, sem tradução para o português de Portugal. “Todos os contatos que eu tive com os portugueses até agora foram os melhores possíveis”, conta o jornalista e escritor. O lançamento ainda não tem local e data marcados, mas acontece no próximo mês de fevereiro, em Portugal.

Ele que procurou escrever uma obra “mirando no leitor leigo”, disse que tomou cuidado para não ser outro jornalista a escrever uma história “torta”. E depois desta pesquisa de 10 anos, afirma: “D. João é minha primeira paixão masculina”, comentando um personagem “fascinante” que veio para um país empobrecido e que viveu, até seus últimos dias, como rei.

Em entrevista ao Mundo Lusíada, Laurentino Gomes diz que o Brasil ganhou muito com a vinda da família real portuguesa, e fala também sobre as comparações com outros colonizadores, afirmando que os portugueses conseguiram manter as fronteiras de sua colônia, transformando-a num único e imenso país. Na sua opinião, apesar das trocas de favores e corrupção que sempre houveram, a vinda da corte permitiu mudar o Brasil num país em crescimento, pacífico, unificado e herdeiro da cultura portuguesa.

Mundo Lusíada - Laurentino Gomes, como você vê esta vendagem alta desde o lançamento do livro?
Laurentino Gomes - Eu diria que sou autor de uma criatura que fugiu ao meu controle. Eu fiz esse livro durante 10 anos com muito carinho, muita dedicação, mas a repercussão está sendo muito maior do que eu imaginava. O livro está na lista dos mais vendidos, em primeiro lugar já há 10 semanas, o que, pra mim, é uma grande surpresa, porque todo mundo dizia que brasileiro só lia auto-ajuda ou literatura barata, e estão lendo um livro de história do Brasil. Isso é muito surpreendente.

ML – E como será o lançamento em Portugal?
Laurentino Gomes - As vendas estão na casa dos 50 mil numa tiragem total de 70 mil, o que nos levou a lançar o livro em Portugal também. Eles [os portugueses] estão reagindo muito bem ao livro (...). Estive outro dia na Bahia, em Porto Seguro onde chegam muitos vôos charter de Portugal, e tinha um grupo numeroso por lá. Eles adoraram, tiraram fotos, fizeram fila para pedir autógrafos. Então o livro está sendo recebido com entusiasmo, tanto quanto no Brasil.

ML – Falando sobre o “redescobrimento” do Brasil, a vinda da corte portuguesa foi benéfica para o país?
Laurentino Gomes - Brasil e Portugal se beneficiaram desse episódio, mais o Brasil. Eu considero esses 13 anos que D. João permaneceu no Rio de Janeiro como o período mais importante da história do Brasil, porque nasceu a rigor em 1808. O Brasil foi descoberto em 1500 mas foi criado como país em 1808. Até então era uma grande fazenda extrativista de Portugal que só exportava madeira, cana-de-açúcar, ouro, diamante. Não existia um país aqui, não existia uma noção de identidade nacional. E com a chegada da corte, um país começa a se construir da noite para o dia. Começam a surgir escolas novas de medicina, engenharia, a Casa da Moeda, o Banco do Brasil, novas instituições de Justiça, todo o Estado brasileiro começa a ser construído.

ML – E podemos dizer que o Brasil também ajudou Portugal?
Laurentino Gomes - O Brasil é hoje o grande herdeiro da cultura portuguesa, ele é sim o maior país da língua portuguesa no mundo. Isso é parte também da vinda da corte. D. João realmente não tinha alternativa em 1807, ou ele fugia ou provavelmente seria destronado por Napoleão, então foi mudar a corte para o Rio de Janeiro. E eu acho que foi uma decisão sabia, os fatos mostram que foi correta. De todos os reis da Europa continental que foram perseguidos por Napoleão, ele foi o único que sobreviveu, preservou a coroa e preservou a cabeça, enquanto outros reis, por exemplo Luis XVI da França a perdeu na guilhotina. D. João foi esperto.

ML – Depois de terminado o livro, quais as suas conclusões sobre colonizadores diante de polêmicas como se outro povo tivesse colonizado o Brasil?
Laurentino Gomes - Os historiadores relutam muito a fazer conjectura, eu sou jornalista então me permito fazê-lo. É difícil dizer como seria o Brasil se um outro povo o tivesse colonizado, mas o que tenho certeza é que sem a vinda da corte, em 1808, esse país que nós conhecemos hoje não existiria. Ou seja, esse país de dimensões continentais integrado, com a mesma cultura, mesma língua, mesma seleção de futebol, mesmo currículo escolar, esse Brasil não existiria.

Provavelmente o que teria acontecido seria a república teria vindo mais cedo, a independência também, mas a colônia portuguesa tinha se fragmentado em três ou quatro países diferentes como aconteceu com a América espanhola. Então, a principal conseqüência com a vinda da corte para o Rio de Janeiro é o próprio Brasil, quem está fazendo aniversário o ano que vem não é a corte portuguesa no Brasil, é o próprio Brasil que está fazendo 200 anos. A coroa funciona como um ponto aglutinador dos interesses das diferentes províncias que antes eram isoladas, não se comunicavam, eram estranhas umas as outras. Claro que ainda houve um longo caminho até a integração definitiva, mas o fato é que este país, com suas dimensões continentais, é resultado de 1808.

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