Laurentino Gomes é autor da obra que faz um relato completo sobre
o momento na história que mudou os destinos de Brasil e Portugal.
“1808” já é considerado um best-seller, na lista dos mais vendidos
há mais de 10 semanas. O livro relata um outro lado de D. João VI,
a realidade de Portugal diante de Napoleão Bonaparte e o
redescobrimento do Brasil com diversas medidas tomadas pelo rei de
Portugal em terras brasileiras, entre as principais delas a
abertura dos seus Portos.
Em 2008, a obra também será lançada em Portugal, pela editora Dom
Quixote, e no seu texto original, ou seja, sem tradução para o
português de Portugal. “Todos os contatos que eu tive com os
portugueses até agora foram os melhores possíveis”, conta o
jornalista e escritor. O lançamento ainda não tem local e data
marcados, mas acontece no próximo mês de fevereiro, em Portugal.
Ele que procurou escrever uma obra “mirando no leitor leigo”,
disse que tomou cuidado para não ser outro jornalista a escrever
uma história “torta”. E depois desta pesquisa de 10 anos, afirma:
“D. João é minha primeira paixão masculina”, comentando um
personagem “fascinante” que veio para um país empobrecido e que
viveu, até seus últimos dias, como rei.
Em entrevista ao Mundo Lusíada, Laurentino Gomes diz que o Brasil
ganhou muito com a vinda da família real portuguesa, e fala também
sobre as comparações com outros colonizadores, afirmando que os
portugueses conseguiram manter as fronteiras de sua colônia,
transformando-a num único e imenso país. Na sua opinião, apesar
das trocas de favores e corrupção que sempre houveram, a vinda da
corte permitiu mudar o Brasil num país em crescimento, pacífico,
unificado e herdeiro da cultura portuguesa.
Mundo Lusíada - Laurentino Gomes, como você vê esta
vendagem alta desde o lançamento do livro?
Laurentino Gomes - Eu diria que sou autor de uma criatura
que fugiu ao meu controle. Eu fiz esse livro durante 10 anos com
muito carinho, muita dedicação, mas a repercussão está sendo muito
maior do que eu imaginava. O livro está na lista dos mais
vendidos, em primeiro lugar já há 10 semanas, o que, pra mim, é
uma grande surpresa, porque todo mundo dizia que brasileiro só lia
auto-ajuda ou literatura barata, e estão lendo um livro de
história do Brasil. Isso é muito surpreendente.
ML – E como será o lançamento em Portugal?
Laurentino Gomes - As vendas estão na casa dos 50 mil numa
tiragem total de 70 mil, o que nos levou a lançar o livro em
Portugal também. Eles [os portugueses] estão reagindo muito bem ao
livro (...). Estive outro dia na Bahia, em Porto Seguro onde
chegam muitos vôos charter de Portugal, e tinha um grupo numeroso
por lá. Eles adoraram, tiraram fotos, fizeram fila para pedir
autógrafos. Então o livro está sendo recebido com entusiasmo,
tanto quanto no Brasil.
ML – Falando sobre o “redescobrimento” do Brasil, a vinda
da corte portuguesa foi benéfica para o país?
Laurentino Gomes - Brasil e Portugal se beneficiaram desse
episódio, mais o Brasil. Eu considero esses 13 anos que D. João
permaneceu no Rio de Janeiro como o período mais importante da
história do Brasil, porque nasceu a rigor em 1808. O Brasil foi
descoberto em 1500 mas foi criado como país em 1808. Até então era
uma grande fazenda extrativista de Portugal que só exportava
madeira, cana-de-açúcar, ouro, diamante. Não existia um país aqui,
não existia uma noção de identidade nacional. E com a chegada da
corte, um país começa a se construir da noite para o dia. Começam
a surgir escolas novas de medicina, engenharia, a Casa da Moeda, o
Banco do Brasil, novas instituições de Justiça, todo o Estado
brasileiro começa a ser construído.
ML – E podemos dizer que o Brasil também ajudou Portugal?
Laurentino Gomes - O Brasil é hoje o grande herdeiro da
cultura portuguesa, ele é sim o maior país da língua portuguesa no
mundo. Isso é parte também da vinda da corte. D. João realmente
não tinha alternativa em 1807, ou ele fugia ou provavelmente seria
destronado por Napoleão, então foi mudar a corte para o Rio de
Janeiro. E eu acho que foi uma decisão sabia, os fatos mostram que
foi correta. De todos os reis da Europa continental que foram
perseguidos por Napoleão, ele foi o único que sobreviveu,
preservou a coroa e preservou a cabeça, enquanto outros reis, por
exemplo Luis XVI da França a perdeu na guilhotina. D. João foi
esperto.
ML – Depois de terminado o livro, quais as suas conclusões
sobre colonizadores diante de polêmicas como se outro povo tivesse
colonizado o Brasil?
Laurentino Gomes - Os historiadores relutam muito a fazer
conjectura, eu sou jornalista então me permito fazê-lo. É difícil
dizer como seria o Brasil se um outro povo o tivesse colonizado,
mas o que tenho certeza é que sem a vinda da corte, em 1808, esse
país que nós conhecemos hoje não existiria. Ou seja, esse país de
dimensões continentais integrado, com a mesma cultura, mesma
língua, mesma seleção de futebol, mesmo currículo escolar, esse
Brasil não existiria.
Provavelmente o que teria acontecido seria a república teria vindo
mais cedo, a independência também, mas a colônia portuguesa tinha
se fragmentado em três ou quatro países diferentes como aconteceu
com a América espanhola. Então, a principal conseqüência com a
vinda da corte para o Rio de Janeiro é o próprio Brasil, quem está
fazendo aniversário o ano que vem não é a corte portuguesa no
Brasil, é o próprio Brasil que está fazendo 200 anos. A coroa
funciona como um ponto aglutinador dos interesses das diferentes
províncias que antes eram isoladas, não se comunicavam, eram
estranhas umas as outras. Claro que ainda houve um longo caminho
até a integração definitiva, mas o fato é que este país, com suas
dimensões continentais, é resultado de 1808.