Sem grande tradição de ajuda ao
desenvolvimento, o Brasil tem “um potencial gigantesco” de
cooperação. Testemunha disso é o trabalho da Agência Brasileira de
Cooperação (ABC) no Timor Leste, que inclui projetos de formação
profissional (como centro de Becora, em Dili, que Lula visitou
demoradamente), alfabetização, agricultura e ensino à distância.
Segundo David Letichevsky, do Apoio ao
Desenvolvimento do Setor Público do Programa das Nações Unidas
para o Desenvolvimento (Pnud), os programas brasileiros foram
tocados simultaneamente, mas a “carteira de projetos e os
montantes envolvidos foram diminuindo” ao longo dos anos, tendo o
novo impulso coincidido com a eleição de Lula.
Uma das vantagens do modelo da ABC
apontadas pelos especialistas em cooperação é a triangulação com
organizações internacionais, como o próprio Pnud. “Isso evita o
problema da politização das ajudas ao desenvolvimento, que marca a
cooperação portuguesa e australiana”, diz outro especialista
brasileiro, que pediu anonimato à Lusa. “Ninguém acredita no
desinteresse da ajuda ao desenvolvimento em política externa, mas
é possível minimizar o problema”, acrescentou.
Luiz Vieira, diretor da Organização
Internacional das Migrações (OIM) no Timor, afirma que “a
cooperação brasileira tem a possibilidade de manter uma
neutralidade em setores sensíveis”. “É curioso que a Austrália não
fica tão 'mordida' quando os programas de língua portuguesa são do
Brasil e não de Portugal”, diz Luiz Vieira, que chegou ao Timor
Leste dez dias antes da independência, em maio de 2002. Luiz
Vieira defende ainda que “a falta de formalidade dos brasileiros
nos faz mais flexíveis e, talvez, facilite uma adaptação maior ao
esquema de vida timorense, uma sociedade que está na infância e é
menos regrada”.
“Há uma afinidade romântica do Brasil com
Timor. Temos esse papo do 'país irmão, com a mesma língua, do
outro do lado do mar'", disse David Letichevsky. Outra razão do
apoio brasileiro segundo ele é que, na Assembléia Geral da ONU,
“um país é um voto”. “O Brasil quer ser um ator global e, para
isso, é preciso se mostrar. No Timor Leste, o Brasil se mostra à
Austrália, ao Japão, a Portugal, à União Européia”.