Um navio negreiro assinalou os 200 anos do
fim da escravatura no arquipélago de Cabo Verde. A réplica do
navio negreiro espanhol “Amistad” atracou no porto da Praia, no
âmbito da viagem destinada a assinalar 200 anos da abolição da
escravatura na Inglaterra (25 de Março de 1807), e nos Estados
Unidos (2 de Março de 1807).
O navio está fazendo uma digressão por
vários portos ligados ao tráfico de escravos. Trata-se da “A
viagem da Liberdade no Atlântico”. A chegada do “Amistad” na
capital caboverdiana foi recebida ao som da tabanka e do batuque
(duas manifestações culturais da ilha de Santiago), numa recepção
preparada pelo Ministério cabo-verdiano da Cultura e que contou
com a presença do primeiro-ministro José Maria Neves, segundo
informou a Panapress.
Para o ministro cabo-verdiano da Cultura,
Manuel Veiga, a visita simboliza a comemoração da liberdade. “Se
antes se chorava com a partida e o regresso de barcos, hoje
cantamos, dançamos, para celebrarmos a liberdade” explicou.
Aproveitando a ocasião, Veiga anunciou a
realização, em 2009, do simpósio “Cultura Afro-Mundo: Futuro do
Passado”, com a presença de personalidades de todos os países por
onde o navio negreiro já passou ou deverá passar. Além do evento,
Veiga recordou que Cabo
Verde vai celebrar 550 anos de achamento das ilhas em 2010, e
ainda os 35 anos da sua independência (5 de Julho de 1975).
“Faremos uma grande celebração e uma das coisas que vamos
comemorar será um mega monumento à liberdade”, garantiu.
Iniciada em New Heaven (Estados Unidos), a
viagem transatlântica do Amistad vai demorar 18 meses, com intuito
de divulgar a diáspora africana e assinalar a abolição do comércio
de escravos. Com uma tripulação constituída por pessoas da Serra
Leoa, da Grã-Bretanha, dos Estados Unidos, do Canadá e das
Bermudas, e capitaneado por uma mulher, o navio tem a bordo um
descendente direto de Sengbe Pieh, escravo que chefiou a revolta
no navio.
História
Foi em 1839 que dezenas de negros, capturados na África Ocidental,
foram transportados pelo navio negreiro português Tecora para
Havana, em Cuba, onde foram comprados por espanhóis e embarcados
no Amistad.
Em alto mar, os escravos chefiados por
Sengbe Pieh, em uma revolta se apoderaram do navio. Mas como não
tinham experiência de navegação, tiveram que depender dos
espanhóis que andaram 63 dias às voltas, sem rumarem a África como
queriam os 49 escravos sobreviventes à viagem.
Forçados em ancorar em Connecticut, por
falta de alimentos, o navio foi capturado pela Marinha dos Estados
Unidos, onde a escravatura já era proibida e punida com pena de
morte. Ainda assim, os escravos africanos foram detidos e acusados
de motim e homicídio. Somente em 1841, o Supremo Tribunal dos
Estados Unidos decidiu pela libertação dos escravos, reconduzindo
35 sobreviventes para África.