O Governo são-tomense deverá submeter
brevemente à Assembléia Nacional (Parlamento) uma proposta de
alteração da lei-quadro das receitas petrolíferas vigente nas
ilhas desde 2004.
O governo pretende criar um consórcio
entre a estatal Petrogas, de São Tomé e Príncipe, a Petrobras, do
Brasil, a Galp, de Portugal, e a Sonangol, de Angola, companhias
que deverão explorar blocos específicos na Zona Econômica Excluiva
são- tomense, segundo a Panapress.
De acordo com uma nota do Executivo, a
revisão do diploma incidirá apenas no artigo 22º, que prevê a
obrigatoriedade de concursos públicos para a celebração de
contractos petrolíferos ou instrumento negocial.
O Executivo explica, no entanto, que “esta
obrigatoriedade de concurso público para a fase de pesquisa até à
declaração de uma descoberta comercial se tem revelado
contraproducente”, desde logo porque obsta “a realização de
estudos de pesquisa com fins meramente académicos num primeiro
momento”.
O governo pretende, por isso, introduzir
na lei outros “processos complementares e secundários ao concurso
público que possam conduzir a uma instalação da indústria
petrolífera de forma muito mais célere”.
Entre as inovações constam a introdução de
regimes de “negociação direta para a fase de pesquisa” e de
“dispensa excepcional e pontual de concurso público para pesquisa
e produção” na Zona Econômica Exclusiva (ZEE), cuja ronda negocial
de adjudicação de blocos petrolíferos deverá acontecer ainda este
ano.
A intenção de revisão do quadro legal
atualmente em vigor já tinha sido prometida há uns meses pelo
ex-ministro dos Negócios Estrangeiros das ilhas, Carlos Gustavo
dos Anjos.
O advogado são-tomense Kiluange Tiny, que
trabalhou na preparação da lei quadro das receitas petrolíferas,
desaconselha, no entanto, a sua alteração por entender que ela não
foi testada nem totalmente regulamentada, apesar de ter já quatro
anos de existência.
Diz que fazer a alteração a lei como mero
expediente para se obter um contrato – ainda que alegadamente
estejam em causa centenas de milhões de euros/dólares americanos –
não é social e politicamente fundamentado.
“Não se altera uma lei de um país soberano
para acomodar interesses de companhias estrangeiras que algum
motivo terão para não se querer submeter a um concurso público.
Assim, começamos por retalhar a manta onde a coerência, o rigor e
o interesse público se perderia por falta de pensamento
sistemático” advertiu.
Por seu turno, a WEBETO, uma importante
organização da sociedade civil, indicou que como parceira dos
agentes de governação espera que, antes de o assunto subir ao
Parlamento para aprovação, ele seja objeto de debate público, por
forma a que os vários setores interessados na matéria possam
pronunciar-se por uma solução que seja de consenso nacional.
A ONG submeteu uma carta às autoridades
solicitando explicações sobre o processo e aconselhou o governo a
pedir parecer técnico independente para que a proposta de
alteração seja de domínio público como forma de permitir um melhor
esclarecimento e evitar a desinformação à volta de um assunto
ainda “tabu” nas ilhas.