ML - O polêmico Acordo Ortográfico da
Língua Portuguesa não deverá avançar "desunido". Como a CPLP vê o
prazo de 10 anos para a entrada em vigor divulgado em Portugal;
pretende-se chegar num consenso ortográfico?
LF - O Acordo Ortográfico já está em vigor na ordem jurídica
internacional e no quadro normativo jurídico interno do Brasil,
Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. A identificação de uma data para
aplicação prática do Acordo afigura-se difícil. Antes de mais, por
ser um processo gradual e não instantâneo. Para além disto, a
repercussão das alterações constantes do Acordo no Português
escrito dependem, em primeira linha, da natural vontade dos
Estados em que seja um esforço concertado entre os países membros
da CPLP. Tal leva ao “compasso de espera” em que nos encontramos.
Numa segunda linha, a aplicação prática do Acordo dependerá da
capacidade (técnica, financeira e humana) de cada Estado em
reflectir a nova grafia em todos os cenários em que esta se
manifesta (Educação, Academias de Letras, Editores e Indústria
Livreira, Imprensa, Internet, Serviços Públicos, etc.).
ML – Algumas comunidades de Língua
Portuguesa apresentam grande dificuldade na continuação do ensino
da língua portuguesa, assim como comunidades que vivem em outros
países em que a CPLP não acolhe. A instituição pretende
desenvolver iniciativas com intuito de preservar o idioma?
LF - A língua portuguesa está de boa saúde e o número de lusófonos
e de grafia portuguesa está a crescer rapidamente no espaço da
CPLP e no mundo. Nos Estados-membros da Comunidade, os progressos
da escolarização e do combate ao analfabetismo (escola para todos
no Brasil) faz regredir a percentagem da população que não tem o
português, pelo menos, como segunda língua. Por outro lado,
dedica-se maior atenção ao ensino dos crioulos e línguas nacionais
nos países africanos de língua oficial portuguesa e em Timor-leste.
Recordo que a Educação na sua plenitude, enquanto direito
fundamental de todos, contribui activamente para a transmissão e o
aprofundamento de conhecimentos, de saberes e competências, para a
compreensão da sociedade e do mundo e para o respeito mútuo entre
pessoas.
No âmbito do reforço da Língua, as actividades do Instituto
Internacional da Língua Portuguesa (IILP) vão intensificar-se
tendo por objectivos a planificação e execução de programas de
promoção, defesa, enriquecimento e difusão da Língua Portuguesa
como veículo de cultura, educação, informação e acesso ao
conhecimento científico, tecnológico e de utilização em fora
internacionais. Um dos objectivos da Organização é colocar a
Língua portuguesa como língua oficial e de trabalho no maior
número de organizações internacionais. Actualmente, o português já
é utilizado como língua de trabalho e oficial em várias
organizações regionais: Além da União Europeia (UE) e da
Organização dos Estados Ibero-Americanos (OEIA), o português já é
utilizado na UA (União Africana), CEDEAO (Comunidade Económica dos
Estados da África Ocidental) e SADC (Comunidade de Desenvolvimento
da África Austral), na UNESCO, em organizações como a FAO e OMS,
entre outros exemplos.
Nesta matéria, sublinho ainda que a entrada em vigor do Acordo
Ortográfico em todos os Estados-membros da CPLP, unificando a
Língua escrita, vai facilitar o processo de circulação de
informação. Senão, vejamos, a existência de dupla grafia limita a
dinâmica do idioma e as diferenças criam obstáculos, maiores ou
menores, em todos os incontáveis planos em que a forma escrita é
utilizada: seja a difusão cultural (literatura, cinema, teatro); a
divulgação da informação (jornais, revistas, mesmo a TV ou a
Internet); as relações comerciais (propostas negociais, textos de
contratos) etc., onde o Português escrito é utilizado. Isto, se
considerarmos apenas as relações intracomunitárias (nos oito
países da CPLP). A dupla grafia dificulta a partilha de conteúdos,
no plano internacional, limita a capacidade de afirmação do
idioma, provocando, por exemplo, traduções quer literárias quer
técnicas diferentes para Portugal e Brasil.
ML - Recentemente, as fundações da CPLP
comprometeram-se a reforçar as parcerias em prol da sociedade
civil. O que a CPLP observa sobre essas trocas de experiências,
são elas válidas diante das diferentes realidades de cada país?
LF - A vontade de abertura ao mundo e de aproximação entre os
povos manifestada na fundação da CPLP tem-se confirmado ao longo
dos últimos dez anos, embora sem a rapidez e o dinamismo desejado.
Com base nesta ideia, foi criado em 2005 a figura do Observador
Consultivo. Na Conferência de Bissau foram aceites como
Observadores Consultivos 18 organizações da sociedade civil. No
próximo Conselho de Ministros, previsto para Novembro, serão
admitidas ainda mais de duas dezenas de organizações da Sociedade
Civil, entre as quais Fundações, Universidades, Organizações Não
Governamentais para a cooperação, entre outras.
Neste sentido é sempre positivo que as instituições da sociedade
civil do espaço CPLP cooperem com a organização, uma vez que estão
implantadas no terreno, com conhecimento especializado. Estes
serão sempre os contributos para uma maior coesão social,
consolidação da paz e democracia.
ML - É o que também se pretende abordar
no Seminário Internacional sobre os Objetivos do Desenvolvimento
do Milênio (ODM) da ONU, previsto para Novembro?
LF - De facto, a CPLP vai organizar, depois do XII Conselho de
Ministros do dia 2 de Novembro, um seminário subordinado ao tema
da aplicação dos Objectivos do Milénio nos seus Estados-membros.
Vamos analisar como é que os ODM estão a ser realizados no espaço
da CPLP e as perspectivas da sua concretização até 2015.
Certamente que esta realização influenciará os aspectos a que se
refere.
Creio que é também o que se pretende abordar e mais ainda. Se bem
que, alguns objectivos acabam por merecer mais atenção – a luta
contra a pobreza, a escolarização universal, a igualdade de género,
particularmente no que respeita à inclusão das raparigas nos
ensinos primário e secundário, o combate às grandes pandemias e a
alteração da situação de mortalidade infantil, que, nalguns países
da CPLP, é extremamente elevada. Também se pretende que a
sociedade civil e a iniciativa privada possam dar uma contribuição
importante para a realização desses objectivos. Sublinho ainda
que, no dia 19 de Outubro, o Secretariado Executivo da CPLP e os
18 Observadores Consultivos, admitidos em Bissau no ano passado,
reuniram-se para debater o estreitamento de relações na Cooperação
para o Desenvolvimento. Nesta reunião estiveram também os 20 novos
observadores consultivos admitidos pelo XII Conselho de Ministros.
ML - Sobre o recente encontro com o Grupo
Político-Militar da União Européia, qual objetivo da cooperação? A
CPLP acredita que a aproximação com o bloco deve-se sobretudo pela
presidência portuguesa neste semestre?
LF - O Encontro resultou de uma visita do Grupo Político-Militar
do Conselho da União Europeia ao Secretariado Executivo da CPLP,
para compreender um pouco melhor a Organização, os seus objectivos
e estrutura.
A CPLP ao enquadrar Estados-membros inseridos nas mais variadas
regiões do mundo e plataformas de cooperação regionais de peso,
torna-se desde logo num importante espaço estratégico em matérias
de Segurança e Defesa da Ordem Internacional.
O espaço CPLP ao estender-se desde o Continente Americano,
Europeu, Africano e Asiático, através do Brasil, na Mercosul, de
Portugal, na União Europeia, dos cinco Estados africanos de Língua
Oficial Portuguesa que estão presentes nas mais estratégicas
organizações regionais do seu Continente e Timor-Leste presente no
Continente Asiático no seio das emergentes economias da ASEAN, em
termos de importância geoestratégica, abarca um vasto cenário de
interesses internacionais o que suscita desde logo interesse de
cooperações sectoriais como o caso do Grupo Político-Militar do
Conselho da União Europeia.
A presença do Estado Português na CPLP, no exercício da actual
Presidência da União Europeia, é um facto que contribui para uma
maior visibilidade, aproximação e cooperação entre o espaço
político da União Europeia e a nossa Comunidade.
ML - Neste âmbito, a CPLP vê Portugal
como um membro "estratégico", juntamente com o Brasil pela sua
dimensão?
LF - Tal como afirmei, todos os Estados-membros da CPLP têm a sua
importância estratégica nas suas respectivas zonas de influência,
o Brasil é de facto um membro de peso, não só pela dimensão
geográfica mas também populacional, económica e comercial com
crescente presença no espaço CPLP e noutros cenários
internacionais, o que se torna benéfico na conjunção de sinergias.
Portugal, está inserido numa região do mundo política e
economicamente estáveis, com forte interligação e interdependência
com o resto do mundo o que torna por sua vez, num parceiro
privilegiado para a cooperação com outros países em
desenvolvimento, nomeadamente no espaço intra CPLP. Mas, observa
também que Angola, Cabo Verde, Moçambique e todos os outros
Estados da CPLP desempenham um papel crucial nas regiões e
sub-regiões que integram.
ML - A CPLP tem buscado uma abrangência
cada vez maior. A função do órgão destina-se a representar os
países de língua portuguesa, neste âmbito, qual a visão da CPLP
sobre a importância das comunidades imigrantes, oriundas de países
de língua portuguesa, no mundo?
LF - O papel da CPLP está mais clarificado, o que tem contribuído
para o aumento da nossa visibilidade e para um acréscimo no
reconhecimento. O tema da Cidadania e Circulação de Pessoas no
Espaço CPLP, ou seja, no plano intra-comunitário, constitui uma
das prioridades Em Maputo, em 2000, foi criado o Grupo de Trabalho
Alargado sobre Cidadania e Circulação de Pessoas no Espaço CPLP,
para actuar de forma concreta na busca desses objectivos, e que
elaborou os textos de cinco acordos imigratórios que seriam, em
2002, assinados na Cimeira de Brasília: (1) Acordo sobre Concessão
de Visto Temporário para Tratamento Médico, (2) Acordo sobre
Concessão de Vistos de Múltiplas Entradas para Determinadas
Categorias de Pessoas, (3) Acordo sobre Estabelecimento de Balcões
Específicos nos Postos de Entrada e Saída para o Atendimento dos
Cidadãos da CPLP, (4) Acordo para o Estabelecimento de Requisitos
Comuns Máximos para a Instrução de Processos de Vistos de Curta
Duração, e (5) Acordo sobre Isenção de Taxas e Emolumentos devidos
à Emissão de Autorizações de Residência para os cidadãos da CPLP.
Em ultimação, temos ainda a concessão de vistos para estudos.
Quanto às Migrações CPLP, por sua vez, vem activamente
participando de eventos promovidos por organizações internacionais
envolvidas com o tema. Exemplos disso são as nossas participações
no seminário “Migration and Development Policy within the CPLP
Framework: Engaging Diasporas as Agents for Development”,
organizado pela Gulbenkian, Organização Internacional para as
Migrações (OIM), do Alto Comissariado para a Imigração e Minorias
Étnicas (ACIME), do Instituto Português de Apoio ao
Desenvolvimento (IPAD) e de outras entidades. Participámos ainda
no encontro que a Organização Internacional para as Migrações
promoveu, em Genebra, denominado “Migrants and the Host Society:
Partnership for Success”, que teve como participantes a UNESCO, o
ACIME, a Confederação de Sindicatos Africanos, Representações
governamentais junto às Nações Unidas em Genebra e grande número
de entidades públicas e privadas. No âmbito da Assembleia Geral da
ONU, o Secretário Executivo da CPLP participou no Diálogo de Alto
Nível sobre Migrações, foro em que defendeu a associação entre
políticas de imigração de desenvolvimento como meio de eliminar a
discriminação contra os migrantes e torná-los agentes no processo
social e económico dos países de origem e de acolhimento. No “XI
Metropolis”, tido como o mais importante evento não oficial na
área migratória, debatemos a situação migratória em cada um dos
nossos países membros.
Várias iniciativas de âmbito regional têm contando também com o
apoio e a presença da CPLP, levadas a cabo por órgãos
governamentais, universidades, entidades sociais e freguesias.
Outra dimensão que tem levado a CPLP e a cultura dos seus povos às
diásporas e ao mundo foi a constituição dos Grupos CPLP,
actualmente existentes em mais de 30 capitais do planeta. Por
outro lado, iniciamos, este ano, em Março, em colaboração com a
UNESCO, o projecto de criação de uma plataforma de partilha de
conteúdos audiovisuais entre os operadores públicos de televisão
dos oito países que integram a CPLP. Estamos numa fase em que a
nossa preocupação ainda está sobretudo versada sobre a preservação
e conservação dos arquivos existentes. Mas, pretendemos avançar
para a partilha de conteúdos e para a realização de co-produções.
E, porque não, almejo um serviço televisivo comum que seja veículo
da imagem dos nossos países e voz dos nossos cidadãos nas
diásporas e no mundo.
ML - Nestes 11 anos, qual sua análise das
atividades desenvolvidas pela CPLP, aproveitando o encerramento
das suas funções, em julho próximo?
LF - A Declaração Constitutiva da CPLP contém objectivos bastante
amplos, mas grande parte são, obviamente, para serem conseguidos
no médio e longo prazo. Os estatutos reúnem esses objectivos em
três áreas fundamentais: a coordenação político-diplomática, a
cooperação e a promoção da língua portuguesa. Se formos
desapaixonados verificamos que a CPLP fez muito. De 1996 a 2007
houve acontecimentos e iniciativas que não teriam existido sem a
CPLP.
Em tom auto-crítico, acho absolutamente normal que as pessoas se
sintam insatisfeitas. Eu sou uma delas. Todos devemos estar
insatisfeitos, porque gostaríamos que se fizesse mais e melhor e
que os resultados fossem mais palpáveis. Mas muitas vezes as
críticas que surgem são resultado das expectativas daquilo que as
pessoas desejariam que fosse a CPLP. Quando chegamos à conclusão
de que a CPLP não funciona porque não dá resposta às nossas
expectativas, muitas vezes pessoais, há sempre uma frustração
muito grande. Essas expectativas, por vezes demasiado elevadas,
foram, inclusive, despertadas pela própria maneira de apresentar a
Organização. É possível que o erro esteja um pouco do nosso lado.
Devemo-nos ater aos objectivos que são fixados pela nossa própria
Organização: na Cooperação para o Desenvolvimento realizamos cerca
de três dezenas de reuniões técnicas por ano e, sob o “chapéu” da
CPLP, são realizadas anualmente mais algumas dezenas de reuniões
de partilha de conhecimento e de cooperação técnica a vários
níveis.
Recordo que já existem ou estão a ser constituídas redes de
profissionais de Saúde, Educação, Administração Pública, entre
inúmeras outras, para a cooperação entre os nossos Estados em
matéria de disposições legislativas, para facilitar a circulação
entre os nossos países e desenvolver as relações económicas.
No âmbito da concertação político-diplomática, todos reconhecem o
papel que a Comunidade teve no processo de Timor-Leste [referendo
para a independência em 1999]. É inquestionável a solidariedade
que se criou e acabou por ser potenciada junto das Nações Unidas
com influência significativa na restauração dos direitos do povo
timorense. São os próprios timorenses que o reconhecem. E por
pouco que se tenha feito na Guiné-Bissau [situação vivida entre o
golpe de Estado de Outubro de 2004 e as eleições de Junho de
2005], não é de ignorar os esforços notáveis da CPLP em ajudar os
guineenses a reencontrar a normalidade do funcionamento das
instituições.
No âmbito das relações com as Nações Unidas, onde a CPLP tem o
estatuto de Observador, temos vindo a participar na
Assembleia-Geral anual que este ano decorreu em Setembro. À margem
desta AG, realizou-se a terceira reunião do Grupo Internacional de
Contacto para a Guiné-Bissau – que engloba, para além da CPLP,
representantes de Angola, Brasil, Cabo Verde, Espanha, França,
Gana, Níger, Portugal, Senegal, da Comunidade Económica dos
Estados da África Ocidental (CEDEAO), das Nações Unidas, do
Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e da
União Económica e Monetária da África Ocidental (UEMOA) - que
pretende obter apoios para a regularização da situação neste país.
Sublinho que, em qualquer caso, a CPLP só pode agir dentro dos
limites do direito internacional e com base naquilo que a sua
própria constituição e estatutos permitem. E não pode ultrapassar
as competências dos próprios Estados-membros que a compõem.