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>> Tomás, 8, estuda música. |
Em 18 de Agosto de 2008 o presidente da
república sancionou a lei nº 11.769 que altera a de nº 9.394/96,
Lei de Diretrizes e Bases da Educação - LDB, para dispor sobre o
ensino da música na educação básica, tornando finalmente
obrigatório o seu estudo nos níveis fundamental e médio no país.
Até agora, dentro do que estava sendo estipulado pela LDB, a
música era conteúdo optativo na rede, a cargo do planejamento
pedagógico das secretarias estaduais e municipais de educação,
podendo a escola oferecer no ensino geral artístico música,
teatro, dança e/ou artes visuais. Mas, com a mudança, agora a
música passa a ser conteúdo obrigatório, embora não exclusivo.
Isto representa que o planejamento pedagógico deve continuar a
também contemplar as demais áreas artísticas. O Ministério da
Educação recomenda que, além das noções básicas de música, dos
cantos cívicos nacionais e dos sons de instrumentos de orquestra
os alunos aprendam também cantos, ritmos, danças e sons de
instrumentos regionais e folclóricos para que, desta forma, os
estudantes possam conhecer a amplitude cultural brasileira.
Houve apenas um veto, que ficou por
conta do artigo 2º, prevendo que os professores contratados para
lecionar tivessem formação específica. Segundo o congresso o veto
ocorreu porque música é uma prática social e existem diversos
profissionais atuantes nessa área sem formação oficial e, mesmo
assim, são reconhecidos nacionalmente. Esses profissionais
estariam impossibilitados de ministrar tal conteúdo na maneira que
estava proposta a lei. E mais: segundo informação do Censo da
Educação Superior/2006 há no país em funcionamento 42 cursos de
licenciatura em música que oferecem 1.641 vagas no total. Porém,
em 2006 houve apenas 327 alunos se formando.
A nobre profissão de educador, hoje em
dia, atrai bem poucos abnegados. Ainda mais para um campo de
atuação que não era nem obrigatório no currículo escolar. Contudo,
sementes de mudanças positivas estão sendo lançadas. É preciso por
mãos à obra para seu cultivo. Conforme o artigo 3º da nova lei, os
sistemas de ensino terão 3 anos letivos para se adaptarem às
exigências requisitadas por todo o território nacional. As
autoridades locais têm obrigação de fazer a idéia florescer.
Para um povo como o nosso, cuja cultura
original foi formada por um tripé de índios, portugueses e
africanos que, ao longo dos séculos, recebeu ainda outros
elementos imigrantes de todos os quadrantes do planeta, tudo isso
acabou por contribuir para uma musicalidade muito rica e
diferenciada ao longo dos mais de 8,5 milhões de km2 territoriais.
E esse patrimônio precisa ser estudado e difundido entre as
regiões, entre os nossos escolares, através do canto e/ou da
prática instrumental, que inclui os rudimentos da leitura musical.
Fortalecer a identidade nacional. Tomar contato com a música vai
muito além de passatempo. O ensino musical auxilia na boa formação
do indivíduo, seja pelo ponto de vista da disciplina, seja pelos
aspectos cognitivos ou psicológicos do aprendizado. Sem contar
também com uma possibilidade de profissionalização. É bom recordar
que, no último Enem - Exame Nacional do Ensino Médio, o primeiro
lugar coube ao tradicional Colégio São Bento, da capital
fluminense, que segundo sua coordenação, valoriza a educação
humanista, destacando aulas de história da arte e apreciação
musical, entre outras atividades. O caráter ideológico utilitário
das últimas décadas afastou conteúdos de reflexão crítica e
abstrata da escola. É um resgate educacional que certamente
auxiliará muito, se bem implementado, na melhora de nossa educação
que anda tão desqualificada.
De acordo com o MEC no final dos anos
1930 educadores como Antônio Sá Pereira e Liddy Chiaffarelli
Mignone promoviam experiências onde defendiam a música como
veículo de aprendizagem. Eles viviam numa época onde o maestro e
compositor Heitor Villa-Lobos, após viagem à França em 1927 quando
trouxe na bagagem o ideal de realizar um plano de educação
musical, impulsionava essa prática. Em 1932 Getulio Vargas tornou
obrigatório o ensino de canto nas escolas e criou o curso de
pedagogia e canto. No ano seguinte, Villa-Lobos foi nomeado
diretor da Superintendência de Educação Musical e Artística. Em
1960 Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro davam novos estímulos à
educação musical através da Universidade de Brasília valorizando a
experimentação e a criatividade das crianças na escola.
Nas minhas memórias escolares uma das
coisas mais prazerosas é a lembrança de ver e ouvir a fanfarra do
meu Colégio Estadual Casimiro de Abreu. Com vistoso uniforme
inspirado na guarda britânica e instrumentos reluzentes, em dia de
apresentação, lotava as ruas próximas à escola. O som dos metais e
dos instrumentos de percussão enchia o ar e era audível a boa
distância dali. Outras escolas das redondezas, na zona norte
paulistana, também tinham bons conjuntos. Lembro que anualmente a
Rádio Record com o falecido ator Durval de Souza promovia grandes
concursos reunindo fanfarras e bandas de muitos lugares. Isto sem
contar os famosos festivais musicais das escolas, onde os alunos
criavam e apresentavam suas composições. Recordações de meados dos
anos 1970. Plena ditadura. E sei dessa saudade também entre vários
dos amigos daquela época.
Recentemente, cerca de três meses atrás,
pude ter contato com a Luther College Jazz Orchestra, de Iowa,
EUA, numa turnê a convite da FUNARTE, do SESC/SP e da Oficina
Coral do Rio de Janeiro. É verdade que eram estudantes
universitários, alunos não só de música, mas de biologia,
medicina, física e história. Há 60 programas de graduação por lá,
entre formações pré-profissionais e bacharelados, diga-se.
Todavia, o que chamou a atenção, além da boa performance
apresentada em vários dos estilos jazzísticos, foi especificamente
a relevância dada à educação musical como parte dos elementos que
compõe a formação do indivíduo para aquela instituição. Para eles,
que vieram difundir exatamente a importância dessa experiência, as
artes são fundamentais ao conhecimento porque elas auxiliam a
definir ‘o que significa ser pessoa humana’. Eles deixam claro que
essa prática dá aos estudantes ajuda para escrever com
criatividade, desenvolver pesquisa e espírito crítico e de grupo.
No Recife, no bairro do Coque, dos mais
violentos e precários da capital pernambucana, 130 crianças
durante 5 horas por dia e 6 dias por semana reúnem-se para estudar
e dar corpo ao que foi intitulado Orquestra Cidadã. Há pouco
fizeram uma apresentação para comemorar o seu segundo aniversário
com presença de músicos da Orquestra Sinfônica do Recife tocando
temas regionais e também de música erudita, como “Bolero”, de
Ravel e “Ode à Alegria” de Beethoven, em alemão, além de
Saint-Saens e Albioni. O espetáculo emocionante no Teatro de Santa
Isabel foi além da própria apresentação. Expôs-se uma prova do que
a boa educação pode fazer com indivíduos que estão marginalizados
pela ausência de renda e, conseqüentemente, quantos talentos
revelam-se ao darem-lhes chances decentes. O menino Júlio Carlos
Rocha da Silva, 14 anos, violinista, traz alento e alegria para
seu barraco, onde vive com os pais desempregados. O projeto, que
corria o risco de ser extinto, conseguiu apoio e verba para
funcionar por mais alguns anos, de acordo com o seu maestro, Cussy
de Almeida, que definiu bem: "É uma realização. Uma prova de que,
quando a gente quer fazer, é possível”.
O retorno da música como conteúdo
obrigatório nas escolas não é a salvação da lavoura, obviamente. È
apenas mais um elemento importante para os vários que são
necessários a fim de que salvemos nossa educação. E, aliás,
frise-se, que precisa ser bem implementado para não desperdiçar a
oportunidade. Se bem utilizada, comprovadamente, a música aliada
harmonicamente aos demais conteúdos reflexivos e práticos podem
dar bons frutos na formação dos sujeitos. Alvíssaras!
São Paulo, 26 de agosto de 2008
Prof. José de Almeida
Amaral Júnior
Professor universitário em Ciências
Sociais, Economista, pós-graduado em Sociologia e mestre em
Políticas de Educação, Colunista do Jornal Cantareira, Colunista
pela Pascom na Rádio 9 de Julho Am 1600 Khz e escreve semanalmente para o Mundo Lusíada
Online.
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