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Por Prof.José de Almeida Amaral Júnior*


Segunda-feira | 19 AGO 08

Notas Quotidianas: Economia, Cultura e Sociedade
A Utopia Olímpica?

Começa mais uma edição das olimpíadas nos tempos modernos. A de número 29. Desta feita, o grandioso espetáculo acontece na China, país milenar, hoje com mais de 1,3 bilhões de habitantes e reservas na casa do 1,3 trilhão de dólares. O 4º PIB do mundo com 226 bilhões de dólares em 2007. O maior país em espaço geográfico, com mais de 9,5 milhões de m2. Uma grande potência que tem em sua capital, Pequim, a sede dos jogos nesta ocasião. Um momento muito especial para os anfitriões que ficarão ao longo de semanas em total evidência na mídia internacional. Oportunidade de revelar aos demais povos seus costumes, suas idéias, seus valores, suas inovações. Claro, atrair investimentos. Ampliar negócios. E, no caso do atual governo chinês, também tentar aplacar as críticas quanto a poluição aérea e terrestre que produz suas empresas, quanto a ausência de amplos direitos civis que praticam sobre sua população e quanto ao controle pesado que aplica em regiões como o Tibet e Xinjiang.

São 204 países participantes que disputam mais de 34 modalidades esportivas diferentes, indo do atletismo até o vôlei de praia, passando pela canoagem, esgrima, handebol, judô, remo e triatlo entre outras. Cinco continentes reunidos para participarem da festa. A delegação brasileira conta nesta ocasião com a ida de 277 atletas. Muita emoção, esforço, dedicação e torcida para grandes momentos esportivos, contundentes buscas de superação humana. Coisas que compensam ficar ligado, mesmo que de madrugada, como é o nosso caso, cujo fuso horário nos coloca numa diferença de 11 horas em relação àquele local da Ásia, tendo que perder o sono para trabalhar ao raiar do sol na manhã seguinte. Mas, vale a pena. É um altíssimo nível de competição e disciplina. Norteado pelo chamado ‘espírito esportivo’. Pelo menos deveria.

Conforme sonhou o Barão de Coubertain na virada do século XIX para o século XX ao pensar em fundar as olimpíadas modernas, o que deve mover os atletas é o princípio ético de ‘o importante é competir’. Embora nada impeça de unir-se ao ‘fazer o seu melhor’. Isto esteve presente, por exemplo, na performance da romena Nadia Comaneci e o primeiro 10 na ginástica olímpica, em Montreal, 1976; no caso da suíça Gabriele Andersen-Scheiss que mesmo exausta arrancou de si as últimas forças para ultrapassar a linha de chegada na maratona em Los Angeles, 1984; na coragem de Jesse Owens, o negro que enfrentou o racismo de Hitler em Berlim, 1936; ou nos heróicos brasileiros, originários de uma pátria que até hoje apenas valoriza marmanjos de chuteiras, porém apresentou exemplos como Adhemar Ferreira da Silva, João do Pulo ou Guilherme Paraense, o primeiro ouro do Brasil em 1920, competição de tiro, na Antuérpia. Por histórias como essas as olimpíadas são vistas por muitos como o símbolo da utopia humana, isto é, ocasião de congraçamento e harmonia entre os povos a cada 4 anos. Belos momentos. Contudo, embora reconhecendo a importância do evento, não concordo com isso.

Não é por conta das propagandas oficiais e dos dividendos aos governos, dos dopings, dos favorecimentos dos árbitros para este ou aquele país, dos prêmios que algumas das categorias acabarão por render aos campeões. Não é por nenhuma dessas coisas. É simplesmente porque, mesmo respeitando os demais, jogo olímpico é competição, disputa. Tentativa de vencer o outro. Aquele visto inequivocamente como adversário. E daí chegam ao podium os considerados melhores, os bons. Os mais bem preparados cuja discrepância entre concorrentes será exposta no quadro final de medalhas. Não, esse não é um bom símbolo da utopia humana a meu ver. “Vencer a si próprio é a maior de todas as vitórias”, explicou Platão. Prefiro então para essa simbologia a brincadeira de roda, aquela das crianças, onde meninos e meninas, brancas, índias, negras ou amarelas dão as mãos, cantam e dançam juntas. Alegremente.

Sem ganhadores ou derrotados. Sem troféus, sem medalhas. Vale apenas e simplesmente o calor da participação. E também a orquestra. Sim, essa usina de sons. Homens e mulheres de todas as nacionalidades tocando um tema, falando uma mesma língua com os seus instrumentos, a língua musical, uma espécie de esperanto que se espalhou, se multiplicou. Dezenas de sujeitos criando com suas participações uma obra em conjunto. Símbolos coletivos. Símbolos de harmonia e paz entre os seres. Medalha de ouro para todo mundo.

São Paulo, 19 de agosto de 2008

Prof. José de Almeida Amaral Júnior
Professor universitário em Ciências Sociais, Economista, pós-graduado em Sociologia e mestre em Políticas de Educação, Colunista do Jornal Cantareira, Colunista pela Pascom na Rádio 9 de Julho Am 1600 Khz e escreve semanalmente para o Mundo Lusíada Online.


 

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