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Começa mais uma edição das olimpíadas
nos tempos modernos. A de número 29. Desta feita, o grandioso
espetáculo acontece na China, país milenar, hoje com mais de 1,3
bilhões de habitantes e reservas na casa do 1,3 trilhão de
dólares. O 4º PIB do mundo com 226 bilhões de dólares em 2007. O
maior país em espaço geográfico, com mais de 9,5 milhões de m2.
Uma grande potência que tem em sua capital, Pequim, a sede dos
jogos nesta ocasião. Um momento muito especial para os anfitriões
que ficarão ao longo de semanas em total evidência na mídia
internacional. Oportunidade de revelar aos demais povos seus
costumes, suas idéias, seus valores, suas inovações. Claro, atrair
investimentos. Ampliar negócios. E, no caso do atual governo
chinês, também tentar aplacar as críticas quanto a poluição aérea
e terrestre que produz suas empresas, quanto a ausência de amplos
direitos civis que praticam sobre sua população e quanto ao
controle pesado que aplica em regiões como o Tibet e Xinjiang.
São 204 países participantes que disputam mais de 34 modalidades
esportivas diferentes, indo do atletismo até o vôlei de praia,
passando pela canoagem, esgrima, handebol, judô, remo e triatlo
entre outras. Cinco continentes reunidos para participarem da
festa. A delegação brasileira conta nesta ocasião com a ida de 277
atletas. Muita emoção, esforço, dedicação e torcida para grandes
momentos esportivos, contundentes buscas de superação humana.
Coisas que compensam ficar ligado, mesmo que de madrugada, como é
o nosso caso, cujo fuso horário nos coloca numa diferença de 11
horas em relação àquele local da Ásia, tendo que perder o sono
para trabalhar ao raiar do sol na manhã seguinte. Mas, vale a
pena. É um altíssimo nível de competição e disciplina. Norteado
pelo chamado ‘espírito esportivo’. Pelo menos deveria.
Conforme sonhou o Barão de Coubertain na
virada do século XIX para o século XX ao pensar em fundar as
olimpíadas modernas, o que deve mover os atletas é o princípio
ético de ‘o importante é competir’. Embora nada impeça de unir-se
ao ‘fazer o seu melhor’. Isto esteve presente, por exemplo, na
performance da romena Nadia Comaneci e o primeiro 10 na ginástica
olímpica, em Montreal, 1976; no caso da suíça Gabriele
Andersen-Scheiss que mesmo exausta arrancou de si as últimas
forças para ultrapassar a linha de chegada na maratona em Los
Angeles, 1984; na coragem de Jesse Owens, o negro que enfrentou o
racismo de Hitler em Berlim, 1936; ou nos heróicos brasileiros,
originários de uma pátria que até hoje apenas valoriza marmanjos
de chuteiras, porém apresentou exemplos como Adhemar Ferreira da
Silva, João do Pulo ou Guilherme Paraense, o primeiro ouro do
Brasil em 1920, competição de tiro, na Antuérpia. Por histórias
como essas as olimpíadas são vistas por muitos como o símbolo da
utopia humana, isto é, ocasião de congraçamento e harmonia entre
os povos a cada 4 anos. Belos momentos. Contudo, embora
reconhecendo a importância do evento, não concordo com isso.
Não é por conta das propagandas oficiais
e dos dividendos aos governos, dos dopings, dos favorecimentos dos
árbitros para este ou aquele país, dos prêmios que algumas das
categorias acabarão por render aos campeões. Não é por nenhuma
dessas coisas. É simplesmente porque, mesmo respeitando os demais,
jogo olímpico é competição, disputa. Tentativa de vencer o outro.
Aquele visto inequivocamente como adversário. E daí chegam ao
podium os considerados melhores, os bons. Os mais bem preparados
cuja discrepância entre concorrentes será exposta no quadro final
de medalhas. Não, esse não é um bom símbolo da utopia humana a meu
ver. “Vencer a si próprio é a maior de todas as vitórias”,
explicou Platão. Prefiro então para essa simbologia a brincadeira
de roda, aquela das crianças, onde meninos e meninas, brancas,
índias, negras ou amarelas dão as mãos, cantam e dançam juntas.
Alegremente.
Sem ganhadores ou derrotados. Sem
troféus, sem medalhas. Vale apenas e simplesmente o calor da
participação. E também a orquestra. Sim, essa usina de sons.
Homens e mulheres de todas as nacionalidades tocando um tema,
falando uma mesma língua com os seus instrumentos, a língua
musical, uma espécie de esperanto que se espalhou, se multiplicou.
Dezenas de sujeitos criando com suas participações uma obra em
conjunto. Símbolos coletivos. Símbolos de harmonia e paz entre os
seres. Medalha de ouro para todo mundo.
São Paulo, 19 de agosto de 2008
Prof. José de Almeida
Amaral Júnior
Professor universitário em Ciências
Sociais, Economista, pós-graduado em Sociologia e mestre em
Políticas de Educação, Colunista do Jornal Cantareira, Colunista
pela Pascom na Rádio 9 de Julho Am 1600 Khz e escreve semanalmente para o Mundo Lusíada
Online.
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