|
Apesar da grave crise motivada pela
especulação no mercado financeiro (que levou os Bancos Centrais de
EUA e Grã-Bretanha socializarem os prejuízos com seus patrícios)
mais a forte elevação das commodities, caso do petróleo e dos
grãos, provocando turbulência nas relações globalizadas, a
economia brasileira vai caminhando com relativo sucesso,
especialmente se comparados os resultados sociais atuais frente
aqueles de alguns anos atrás. Recentes dados do IBGE e FGV provam
essa tendência que, esperamos, permaneça resistindo mesmo com o
cenário duvidoso.
Dados publicados no início deste mês de
Agosto pelo IBGE/IPEA apontam que entre os anos de 2002 e 2008,
com base nas seis principais regiões metropolitanas do país, ou
seja, Recife, Salvador, São Paulo, Porto Alegre, Belo Horizonte e
Rio de Janeiro, mais de 3 milhões de pessoas deixaram a linha da
pobreza, resultando assim numa queda de 32,9% para 24,1% na taxa
referente a esses locais, totalizando hoje 11,3 milhões de
indivíduos nessa desconfortável posição. Segundo a metodologia,
pobre é aquele que recebe renda per capita igual ou inferior a
meio salário mínimo (R$ 207,50). Nessa onda, o número de
miseráveis ou indigentes também sofreu uma redução: dos 5,5
milhões existentes em 2002 caiu o total para 3,1 milhões em 2008,
considerando-se aqueles que recebem renda igual ou abaixo de 25%
do mínimo (R$ 103,75).
O melhor resultado na queda da pobreza
aconteceu na região metropolitana de Belo Horizonte. Dos 38,3% de
pobres existentes na população houve queda para 23,1% entre 2002 e
2008. São Paulo possui a maior quantidade de pobres em números
absolutos, ou seja, 4 milhões de pessoas. O Rio de Janeiro está em
segundo, com 2,6 milhões.
Outra pesquisa que aponta melhoras vem da FGV e descreve a
ampliação da classe média brasileira. O trabalho intitulado “A
Nova Classe Média” revela que entre 2004 e 2008 o número de
famílias nesta categoria subiu de 42,26% para 51,89%. Na
metodologia da FGV uma família é classe média (classe C) quando
tem renda mensal entre R$ 1.064 e R$ 4.591. Famílias de classes A
e B são aquelas com renda superior a R$ 4.591 enquanto a classe D
(os ‘remediados’) ganha entre R$ 768 e R$ 1.064. A classe pobre
reúne famílias com rendimentos abaixo de R$ 768. Para analise dos
dados a FGV contou com as pesquisas do IBGE e do Ministério do
Trabalho.
É importante frisar que essa situação na
renda reflete a estabilidade econômica nacional. Esta
circunstância empurra para cima o número de carteiras de trabalho
assinadas. Não existe melhor remédio que geração de empregos para
melhorar a condição da população e do emprego formal. Isso ajuda a
todos, incluindo a Previdência Social. Segundo dados do Caged
(Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), nos seis primeiros
meses de 2008 foram gerados 1,3 milhão de novos postos de
trabalho, um aumento de 24,3% em relação ao primeiro semestre de
2007, recorde para o período. Isso é muito bom.
Mas, é fundamental destacar que a
pesquisa IBGE/IPEA mostra como a relação capital x trabalho
permanece desfavorável ao último. A remuneração dos trabalhadores
não segue os ganhos de produtividade da indústria. Entre 2001 e
2008 houve aumento da produção física na indústria brasileira em
28,1% com ganhos de produtividade do trabalhador de apenas 22,6%.
E mais: a concentração de renda permanece bastante intensa.
Aqueles com renda igual ou maior do que 40 salários mínimos (R$
16,6 mil), os ricos, aumentaram 28,1 mil entre 2002 e 2008.
Existem hoje 476,596 mil privilegiados nessa condição nas regiões
metropolitanas pesquisadas. Representam 1% da população. E
observem: os 10% mais abastados concentram 75,4% da riqueza do
país. As maiores discrepâncias se dão da seguinte maneira: em São
Paulo, a concentração na mão dos 10% mais ricos é de 73,4%, em
Salvador 67% e, no Rio, 62,9%.
De acordo com o economista da UNICAMP e
hoje prestando serviços ao IPEA, Márcio Pochmann, no século 18 os
10% mais ricos concentravam 68% da riqueza no Rio de Janeiro, a
capital colonial. Precisamos evoluir muito para corrigir tal
injustiça. E um dos mecanismos importantes nesse sentido, aponta o
professor, é uma tributação mais justa, que force melhor
distribuição da renda. O IPEA mostra que os pobres pagam 44,5%
mais impostos do que os ricos porque a carga tributária representa
22,7% da renda dos 10% mais ricos enquanto para os 10% mais pobres
o peso equivale a 32,8% de sua renda. Assim, não precisamos
aumentar ainda mais a carga sobre o contribuinte, mas sim apertar
onde sobram recursos e desafogar onde o existente é escasso. Vai
ser uma grande luta, todavia, porque como dizia o técnico Oto
Glória, ‘não se faz omelete sem quebrar os ovos’.
Assim, podemos perceber por esses novos
dados do cenário brasileiro que há avanços, inegavelmente. Mas,
mais uma vez, prova-se que o país ainda está muito defasado em
relação a uma situação sócio-econômico decente para sua população.
Uma breve elevação do PIB já empurra uma massa de necessitados
para cima. Porém, anunciar uma pretensa ‘chegada à classe média’
com meros R$ 1064, que mal dão para pagar alimentação, impostos,
aluguéis, remédios e transporte público no mês é devaneio
metodológico. Tomara que o crescimento do produto seja sustentado
e não volte a tropeçar como nas décadas anteriores para manter a
criação de empregos formais. Arrancar renda de uma elite que há
séculos vive no ‘bem bom’ para melhorar a divisão, aí já é outra
história.
São Paulo, 18 de agosto de 2008
Prof. José de Almeida
Amaral Júnior
Professor universitário em Ciências
Sociais, Economista, pós-graduado em Sociologia e mestre em
Políticas de Educação, Colunista do Jornal Cantareira, Colunista
pela Pascom na Rádio 9 de Julho Am 1600 Khz e escreve semanalmente para o Mundo Lusíada
Online.
|