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Em meio às comemorações dos 200 anos da
chegada da família real portuguesa ao Brasil coisas interessantes
para resgate e preservação da memória deste país acontecem. O que
é muito importante, diga-se. Afinal, como podemos construir um
futuro se não conhecemos a fundo nossas raízes? Se não nos
enxergamos plenamente? Se não sabemos quem somos? Estudar muito é
preciso sempre. E esta é mais uma boa oportunidade.
A Editora Casa da Palavra aproveitou o
ensejo para lançar o mais novo trabalho do diplomata e incansável
pesquisador da música brasileira, hoje com 87 anos, o carioca
Vasco Mariz. A obra é intitulada A Música no Rio de Janeiro no
Tempo de D. João VI. De acordo com o autor “com a chegada da
família real ao Brasil, o monarca impulsionou a tímida vida
cultural da colônia ao transformar a Ordem do Carmo em palco
clássico, estimular compositores nacionais e a vinda de
estrangeiros e construir o Real Teatro de São João, o maior palco
lírico das Américas.”
É exatamente o período do esplendor de
criatividade do mulato padre José Maurício Nunes Garcia,
considerado um gênio da composição e do teclado. Ele realizou uma
bela obra no campo religioso e também escreveu música profana.
Aliás, a vinda da corte para a colônia na América do Sul
propiciaria também a expansão das atividades da música secular. Em
1813 com a inauguração do Real Teatro de S. João intensificaram-se
as presenças de muitos instrumentistas e cantores da Europa para a
realização de concertos e óperas. Isto foi fundamental para
dinamizar o contexto musical daquela cidade em todos os sentidos.
E refletir pelo restante do território.
Este impacto descrito por Mariz
promovido pela necessidade, pelo prazer de ouvir música, sentido
pelo monarca e sua trupe, pode ser notado também por outro
lançamento para relembrar 1808. Desta vez como registro
fonográfico. Um belo presente realizado pela gravadora Biscoito
Fino, numa parceria entre a Prefeitura do Rio e a Zucca Produções:
A Música na Corte de D. João VI. Serão vários álbuns lançados ao
longo do ano sob a direção do maestro Edino Krieger e coordenação
artística do maestro André Cardoso. Trarão de volta momentos
importantes dos derradeiros instantes da época da colonização.
A estréia deu-se com o lançamento do CD
“Te Deum e Requiem”, do Padre José Maurício, gravado em dezembro
de 2007 na Sala Cecília Meirelles, Rio de Janeiro. É considerada a
sua obra-prima e foi feita por encomenda de D. João VI para as
exéquias de d. Maria I. Com uma triste coincidência: a mãe do
compositor também se foi no mesmo dia em que a rainha. Outra
produção sacra de José Maurício está prestes a sair: “Missa de
Nossa Senhora da Conceição”, gravada pela Orquestra Sinfônica
Brasileira e o Coro Calíope regidos pelo maestro Roberto Minczuk.
Mas, a musica profana igualmente é contemplada. Já está disponível
o primeiro álbum. Intitula-se “Modinhas Cariocas” e traz a direção
musical de Marcelo Fagerlande, gravado na Escola de Música da
UFRJ. No repertório são resgatados compositores como Joaquim
Manoel da Câmera, Gabriel Fernandes da Trindade e Cândido Ignácio
da Silva, autores de modinhas e lundus.
Ao lado dessas comemorações, bem que
poderíamos também festejar o nascimento do Choro. Por que não?
Afinal, ele surge exatamente após essa virada cultural promovida
no Rio de Janeiro a partir de 1808 estudada pelos autores acima.
De acordo com mestre Paulinho da Viola, um dos grandes expoentes
do gênero, “é um estilo instrumental popular que deriva
principalmente da música de Bach. Sofisticado e complexo, é talvez
um dos primeiros estilos musicais a se firmar nas Américas. Já foi
dito que o choro é o jazz brasileiro, porém o choro é algumas
décadas mais antigo do que o estilo instrumental americano.”
Segundo outro entendido, o pesquisador
Cravo Albin, a chegada da família real e os impactos
administrativos possibilitaram “a formação de um novo segmento
social, a classe média. Com a corte portuguesa vieram, além de
instrumentos como o piano e as danças européias, alguns gêneros e
hábitos musicais, como o minueto, a quadrilha, a valsa e o xótis,
que juntos com o lundu, de origem africana e já sedimentado a
nossa cultura naquela altura, foram sendo abrasileirados na forma
de tocar. [...] Todos esses fatores contribuíram para o início do
choro, que surge não como um gênero musical e sim como uma
abrasileirada forma de tocar alguns gêneros musicais e danças da
época, que assimilamos e reproduzimos com aspectos endógenos.”
Assim, estaríamos agora vivendo a 6ª geração de chorões,
considerando o mulato Joaquim Antonio da Silva Callado e seu grupo
– flauta, dois violões e um cavaco – conhecidos como “O Choro do
Callado” de 1870, reinado de D. Pedro II, o marco inicial que
catalisou aqueles vários ingredientes.
O primeiro gênero musical autenticamente
brasileiro vinha à luz. E, destaque-se, está mais vivo do que
nunca, com praticantes além fronteiras, na Europa, nos EUA e até
no Japão. Como disse Villa-Lobos, é ‘a essência musical da alma
brasileira’.
Que tal agora, então, lermos e ouvirmos
mais sobre esses grandes talentos?
São Paulo, 27 de junho de 2008.
Prof. José de Almeida
Amaral Júnior
Professor universitário em Ciências
Sociais, Economista, pós-graduado em Sociologia e mestre em
Políticas de Educação, Colunista do Jornal Cantareira, Colunista
pela Pascom na Rádio 9 de Julho Am 1600 Khz e escreve semanalmente para o Mundo Lusíada
Online.
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