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Por Prof.José de Almeida Amaral Júnior*


Sexta-feira | 18 JUL 08

Notas Quotidianas: Economia, Cultura e Sociedade
200 Anos – Música para a Corte e para o povo

Em meio às comemorações dos 200 anos da chegada da família real portuguesa ao Brasil coisas interessantes para resgate e preservação da memória deste país acontecem. O que é muito importante, diga-se. Afinal, como podemos construir um futuro se não conhecemos a fundo nossas raízes? Se não nos enxergamos plenamente? Se não sabemos quem somos? Estudar muito é preciso sempre. E esta é mais uma boa oportunidade.

A Editora Casa da Palavra aproveitou o ensejo para lançar o mais novo trabalho do diplomata e incansável pesquisador da música brasileira, hoje com 87 anos, o carioca Vasco Mariz. A obra é intitulada A Música no Rio de Janeiro no Tempo de D. João VI. De acordo com o autor “com a chegada da família real ao Brasil, o monarca impulsionou a tímida vida cultural da colônia ao transformar a Ordem do Carmo em palco clássico, estimular compositores nacionais e a vinda de estrangeiros e construir o Real Teatro de São João, o maior palco lírico das Américas.”

É exatamente o período do esplendor de criatividade do mulato padre José Maurício Nunes Garcia, considerado um gênio da composição e do teclado. Ele realizou uma bela obra no campo religioso e também escreveu música profana. Aliás, a vinda da corte para a colônia na América do Sul propiciaria também a expansão das atividades da música secular. Em 1813 com a inauguração do Real Teatro de S. João intensificaram-se as presenças de muitos instrumentistas e cantores da Europa para a realização de concertos e óperas. Isto foi fundamental para dinamizar o contexto musical daquela cidade em todos os sentidos. E refletir pelo restante do território.

Este impacto descrito por Mariz promovido pela necessidade, pelo prazer de ouvir música, sentido pelo monarca e sua trupe, pode ser notado também por outro lançamento para relembrar 1808. Desta vez como registro fonográfico. Um belo presente realizado pela gravadora Biscoito Fino, numa parceria entre a Prefeitura do Rio e a Zucca Produções: A Música na Corte de D. João VI. Serão vários álbuns lançados ao longo do ano sob a direção do maestro Edino Krieger e coordenação artística do maestro André Cardoso. Trarão de volta momentos importantes dos derradeiros instantes da época da colonização.

A estréia deu-se com o lançamento do CD “Te Deum e Requiem”, do Padre José Maurício, gravado em dezembro de 2007 na Sala Cecília Meirelles, Rio de Janeiro. É considerada a sua obra-prima e foi feita por encomenda de D. João VI para as exéquias de d. Maria I. Com uma triste coincidência: a mãe do compositor também se foi no mesmo dia em que a rainha. Outra produção sacra de José Maurício está prestes a sair: “Missa de Nossa Senhora da Conceição”, gravada pela Orquestra Sinfônica Brasileira e o Coro Calíope regidos pelo maestro Roberto Minczuk. Mas, a musica profana igualmente é contemplada. Já está disponível o primeiro álbum. Intitula-se “Modinhas Cariocas” e traz a direção musical de Marcelo Fagerlande, gravado na Escola de Música da UFRJ. No repertório são resgatados compositores como Joaquim Manoel da Câmera, Gabriel Fernandes da Trindade e Cândido Ignácio da Silva, autores de modinhas e lundus.

Ao lado dessas comemorações, bem que poderíamos também festejar o nascimento do Choro. Por que não? Afinal, ele surge exatamente após essa virada cultural promovida no Rio de Janeiro a partir de 1808 estudada pelos autores acima. De acordo com mestre Paulinho da Viola, um dos grandes expoentes do gênero, “é um estilo instrumental popular que deriva principalmente da música de Bach. Sofisticado e complexo, é talvez um dos primeiros estilos musicais a se firmar nas Américas. Já foi dito que o choro é o jazz brasileiro, porém o choro é algumas décadas mais antigo do que o estilo instrumental americano.”

Segundo outro entendido, o pesquisador Cravo Albin, a chegada da família real e os impactos administrativos possibilitaram “a formação de um novo segmento social, a classe média. Com a corte portuguesa vieram, além de instrumentos como o piano e as danças européias, alguns gêneros e hábitos musicais, como o minueto, a quadrilha, a valsa e o xótis, que juntos com o lundu, de origem africana e já sedimentado a nossa cultura naquela altura, foram sendo abrasileirados na forma de tocar. [...] Todos esses fatores contribuíram para o início do choro, que surge não como um gênero musical e sim como uma abrasileirada forma de tocar alguns gêneros musicais e danças da época, que assimilamos e reproduzimos com aspectos endógenos.” Assim, estaríamos agora vivendo a 6ª geração de chorões, considerando o mulato Joaquim Antonio da Silva Callado e seu grupo – flauta, dois violões e um cavaco – conhecidos como “O Choro do Callado” de 1870, reinado de D. Pedro II, o marco inicial que catalisou aqueles vários ingredientes.

O primeiro gênero musical autenticamente brasileiro vinha à luz. E, destaque-se, está mais vivo do que nunca, com praticantes além fronteiras, na Europa, nos EUA e até no Japão. Como disse Villa-Lobos, é ‘a essência musical da alma brasileira’.

Que tal agora, então, lermos e ouvirmos mais sobre esses grandes talentos?

São Paulo, 27 de junho de 2008.

Prof. José de Almeida Amaral Júnior
Professor universitário em Ciências Sociais, Economista, pós-graduado em Sociologia e mestre em Políticas de Educação, Colunista do Jornal Cantareira, Colunista pela Pascom na Rádio 9 de Julho Am 1600 Khz e escreve semanalmente para o Mundo Lusíada Online.


 

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