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Por Prof.José de Almeida Amaral Júnior*


Sexta-feira | 27 JUN 08

Notas Quotidianas: Economia, Cultura e Sociedade
Insegurança Alimentar e Inflação

A inflação está de volta. Após anos controlada ela ameaça novamente. Interna e externamente. E com alguns motivos muito perigosos: alta de alimentos e crise energética.

De acordo com o IBGE os alimentos no Brasil tiveram em maio o maior aumento desde 1994. Exemplos: o arroz subiu 19,75%, a cenoura 24,84%, a batata-inglesa 19,39%, o tomate 13,56%, farinha de trigo 10,11% e a carne seca 5,70%. Em 12 meses o feijão carioca já aumentou 123%! Segundo os técnicos, há um consumo maior do mercado externo e menores estoques internacionais, especialmente de cereais. Isso repercute no valor do alimento aqui dentro, onde o consumo também subiu, mesmo o Brasil sendo um grande exportador agrícola. Então, ao menos será que o pequeno proprietário é beneficiado em seus lucros? Não. Em verdade, eles padecem com o aumento do preço dos fertilizantes, das sementes etc. Quem fatura realmente são os grandes produtores e as corporações que dominam a oferta dos insumos essenciais para quem planta. Os pequenos agricultores ficam nas mãos desses gigantes. Há dificuldades com novas tecnologias e financiamentos para produção. Vida nada fácil.

A crise energética é outro caso. O petróleo chegou aos US$ 142,00 o barril, fazendo despencar as bolsas nos EUA, Europa e Ásia, com analistas prevendo subida atingindo US$ 170,00 até o final do ano. Tudo provocado pelos atritos entre Israel e União Européia x Irã. E na corrida para encontrar outras fontes de energia o biocombustível apareceu como alternativa energética. Só que há o risco de maior ocupação do solo para esse uso ao invés do plantio de alimentos e, obviamente, também encarece o valor da terra. Somando-se tudo, motivos não faltam para estimular a inflação. E muitos agentes aproveitam para faturar a mais. São os interesses do mercado prevalecendo sobre o social.

Curiosamente nesse cenário de custos subindo não é difícil insinuar-se a 'culpa' recaindo sobre os pobres. Afinal, eles estão 'comendo mais' e por isso não está sobrando tanto alimento como antes. No entanto, cabe lembrar o seguinte: na África a fome continua matando. Na Indonésia há mais de 230 milhões de habitantes vivendo em estado de pobreza. Calcula-se que existam pelo menos 850 milhões de pessoas subnutridas pelo planeta afora. Então, façamos algumas perguntas básicas: alguém se lembra que há 20 e poucos anos os EUA desestimulavam a produção de diversos países para que suas próprias exportações agrícolas fossem dinamizadas? A revista Veja, de passagem, lembrou do caso semanas atrás. Para se ter uma idéia, o Banco Mundial emprestava US$ 8 bilhões para crédito agrícola em 1980 e este segmento contabilizou apenas US$ 2 bi em 2004. Esses 'projetos modernizantes' made in USA caracterizavam de 'anacrônicas' as iniciativas dos países pobres decidirem produzir seus alimentos com tudo o que o Tio Sam poderia lhes oferecer de bom e barato. E agora? Como ficam? Por exemplo, o México, que optou por tal idéia, importa hoje 40% de sua comida. E sua população sofre com a escalada de preços. O milho, base de sua alimentação, também é insumo elementar para o álcool combustível consumido nos EUA. Para colocar os carangos para rodar em terras ianques os mexicanos deixam de produzir para si próprios atraídos pelos dólares. Em meados de 2007 as tortillas mexicanas haviam sido inflacionadas em 60% em um ano. E isso reflete na produção de carne bovina, de frango e suínos porque estes animais também consomem derivados do milho. E, já que citamos os EUA, vamos a um dado interessante: quanto essa nação desperdiça em sua demanda? Estudo de 1995 revelou que eles jogam no lixo 27% de comida consumível. Isto equivale, conforme Veja, que uma família de 4 membros despreza mensalmente 4,7 Kg de carne bovina e peixe. Atentem para o seguinte: 25% disso daria para satisfazer a necessidade de simplesmente 20 milhões de pessoas por dia! Resultado: 66% da população estadunidense estão acima do peso. A propósito: o pesquisador norte-americano Paul Roberts, autor do recém lançado "The End of Food" em entrevista à Folha de S. Paulo dia 23/06 afirmou que a substituição do petróleo pelo biocombustível é trocar um grande problema por outro. Ambos são escassos, pois, a terra, sendo utilizada para combustível onde produzirá alimento? As fontes naturais não agüentam tanto consumo desenfreado. Para que é preciso ter 2,5 carros como demonstra a média dos EUA? Ou casas com 3 andares e 10 cômodos mesmo diminuindo o tamanho das famílias? Várias Tvs de plasma na residência? Tudo para exibição, para demonstração de status. Não dá para manter essa lógica, pondera.

Apesar dos neomalthusianos vibrarem, a questão da fome ainda é um problema de concentração de renda e conseqüente distribuição e consumo alimentar. Segundo a ONU, em 25 de fevereiro de 2006, a demografia mundial atingia a marca de 6,5 bilhões de terráqueos - 6 vezes o que era no raiar do séc. XIX. Todavia, o planeta produz hoje comida para 11 bilhões de pessoas. Não nos contrapondo, evidentemente, a um controle educativo de natalidade, a produção mundial é, portanto, suficiente para alimentar todos. Como já havia afirmado 50 anos atrás o brasileiro Josué de Castro, a desnutrição é um crime humanitário, um escândalo, que tenta ser disfarçado.

A injustiça da fome e o fenômeno da inflação são reflexos da ganância especulativa dos oligopólios que dominam o jogo da globalização capitalista. Pela saúde da natureza e do ser humano o modo produtivo existente precisa ser urgentemente transformado.

São Paulo, 27 de junho de 2008.

Prof. José de Almeida Amaral Júnior
Professor universitário em Ciências Sociais, Economista, pós-graduado em Sociologia e mestre em Políticas de Educação, Colunista do Jornal Cantareira, Colunista pela Pascom na Rádio 9 de Julho Am 1600 Khz e escreve semanalmente para o Mundo Lusíada Online.


 

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