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A inflação está de volta. Após anos
controlada ela ameaça novamente. Interna e externamente. E com
alguns motivos muito perigosos: alta de alimentos e crise
energética.
De acordo com o IBGE os alimentos no
Brasil tiveram em maio o maior aumento desde 1994. Exemplos: o
arroz subiu 19,75%, a cenoura 24,84%, a batata-inglesa 19,39%, o
tomate 13,56%, farinha de trigo 10,11% e a carne seca 5,70%. Em 12
meses o feijão carioca já aumentou 123%! Segundo os técnicos, há
um consumo maior do mercado externo e menores estoques
internacionais, especialmente de cereais. Isso repercute no valor
do alimento aqui dentro, onde o consumo também subiu, mesmo o
Brasil sendo um grande exportador agrícola. Então, ao menos será
que o pequeno proprietário é beneficiado em seus lucros? Não. Em
verdade, eles padecem com o aumento do preço dos fertilizantes,
das sementes etc. Quem fatura realmente são os grandes produtores
e as corporações que dominam a oferta dos insumos essenciais para
quem planta. Os pequenos agricultores ficam nas mãos desses
gigantes. Há dificuldades com novas tecnologias e financiamentos
para produção. Vida nada fácil.
A crise energética é outro caso. O
petróleo chegou aos US$ 142,00 o barril, fazendo despencar as
bolsas nos EUA, Europa e Ásia, com analistas prevendo subida
atingindo US$ 170,00 até o final do ano. Tudo provocado pelos
atritos entre Israel e União Européia x Irã. E na corrida para
encontrar outras fontes de energia o biocombustível apareceu como
alternativa energética. Só que há o risco de maior ocupação do
solo para esse uso ao invés do plantio de alimentos e, obviamente,
também encarece o valor da terra. Somando-se tudo, motivos não
faltam para estimular a inflação. E muitos agentes aproveitam para
faturar a mais. São os interesses do mercado prevalecendo sobre o
social.
Curiosamente nesse cenário de custos
subindo não é difícil insinuar-se a 'culpa' recaindo sobre os
pobres. Afinal, eles estão 'comendo mais' e por isso não está
sobrando tanto alimento como antes. No entanto, cabe lembrar o
seguinte: na África a fome continua matando. Na Indonésia há mais
de 230 milhões de habitantes vivendo em estado de pobreza.
Calcula-se que existam pelo menos 850 milhões de pessoas
subnutridas pelo planeta afora. Então, façamos algumas perguntas
básicas: alguém se lembra que há 20 e poucos anos os EUA
desestimulavam a produção de diversos países para que suas
próprias exportações agrícolas fossem dinamizadas? A revista Veja,
de passagem, lembrou do caso semanas atrás. Para se ter uma idéia,
o Banco Mundial emprestava US$ 8 bilhões para crédito agrícola em
1980 e este segmento contabilizou apenas US$ 2 bi em 2004. Esses
'projetos modernizantes' made in USA caracterizavam de
'anacrônicas' as iniciativas dos países pobres decidirem produzir
seus alimentos com tudo o que o Tio Sam poderia lhes oferecer de
bom e barato. E agora? Como ficam? Por exemplo, o México, que
optou por tal idéia, importa hoje 40% de sua comida. E sua
população sofre com a escalada de preços. O milho, base de sua
alimentação, também é insumo elementar para o álcool combustível
consumido nos EUA. Para colocar os carangos para rodar em terras
ianques os mexicanos deixam de produzir para si próprios atraídos
pelos dólares. Em meados de 2007 as tortillas mexicanas haviam
sido inflacionadas em 60% em um ano. E isso reflete na produção de
carne bovina, de frango e suínos porque estes animais também
consomem derivados do milho. E, já que citamos os EUA, vamos a um
dado interessante: quanto essa nação desperdiça em sua demanda?
Estudo de 1995 revelou que eles jogam no lixo 27% de comida
consumível. Isto equivale, conforme Veja, que uma família de 4
membros despreza mensalmente 4,7 Kg de carne bovina e peixe.
Atentem para o seguinte: 25% disso daria para satisfazer a
necessidade de simplesmente 20 milhões de pessoas por dia!
Resultado: 66% da população estadunidense estão acima do peso. A
propósito: o pesquisador norte-americano Paul Roberts, autor do
recém lançado "The End of Food" em entrevista à Folha de S. Paulo
dia 23/06 afirmou que a substituição do petróleo pelo
biocombustível é trocar um grande problema por outro. Ambos são
escassos, pois, a terra, sendo utilizada para combustível onde
produzirá alimento? As fontes naturais não agüentam tanto consumo
desenfreado. Para que é preciso ter 2,5 carros como demonstra a
média dos EUA? Ou casas com 3 andares e 10 cômodos mesmo
diminuindo o tamanho das famílias? Várias Tvs de plasma na
residência? Tudo para exibição, para demonstração de status. Não
dá para manter essa lógica, pondera.
Apesar dos neomalthusianos vibrarem, a
questão da fome ainda é um problema de concentração de renda e
conseqüente distribuição e consumo alimentar. Segundo a ONU, em 25
de fevereiro de 2006, a demografia mundial atingia a marca de 6,5
bilhões de terráqueos - 6 vezes o que era no raiar do séc. XIX.
Todavia, o planeta produz hoje comida para 11 bilhões de pessoas.
Não nos contrapondo, evidentemente, a um controle educativo de
natalidade, a produção mundial é, portanto, suficiente para
alimentar todos. Como já havia afirmado 50 anos atrás o brasileiro
Josué de Castro, a desnutrição é um crime humanitário, um
escândalo, que tenta ser disfarçado.
A injustiça da fome e o fenômeno da
inflação são reflexos da ganância especulativa dos oligopólios que
dominam o jogo da globalização capitalista. Pela saúde da natureza
e do ser humano o modo produtivo existente precisa ser
urgentemente transformado.
São Paulo, 27 de junho de 2008.
Prof. José de Almeida
Amaral Júnior
Professor universitário em Ciências
Sociais, Economista, pós-graduado em Sociologia e mestre em
Políticas de Educação, Colunista do Jornal Cantareira, Colunista
pela Pascom na Rádio 9 de Julho Am 1600 Khz e escreve semanalmente para o Mundo Lusíada
Online.
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