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Justamente agora, neste ano de 2008,
quando os apreciadores da MPB comemoram os 100 anos de nascimento
do ilustre e muito inspirado compositor carioca Cartola, falecido
em 1980, o destino subitamente também carrega destas para outras o
mais importante intérprete das escolas de samba do país, o
incomparável Jamelão, grande vascaíno e igualmente mangueirense
como o secular autor de "As rosas não falam".
Agenor de Oliveira - Angenor, segundo o
erro na Certidão de Nascimento - nasceu no Catete, teve sete
irmãos e, filho de família pobre, mal conseguiu estudar o curso
primário. Perdendo a mãe na infância, logo teve que trabalhar para
ajudar a casa. Mudou-se pequeno para o bairro de Laranjeiras, onde
conheceu os ranchos Arrepiados e União da Aliança. Nesse período
aprendeu a tocar cavaquinho, presente do pai. Aos onze anos
mudou-se novamente de residência, deslocando-se então para o Morro
da Mangueira. O trabalho duro e a vida boêmia estariam sempre
presentes desde a mocidade.
Quando adolescente, fazendo o serviço de
pedreiro, para evitar que caísse sujeira sobre o cabelo
protegia-se com um chapéu-coco, que os colegas diziam parecer uma
cartolinha. E o apelido surgiu então, acompanhando-o para sempre.
Junto com o amigo e também parceiro Carlos Cachaça fundou em 1925
o Bloco dos Arengueiros. Este grupo unindo-se com outros da região
fundaram em associação poucos anos depois a Escola de Samba
Estação Primeira de Mangueira, a Verde-Rosa, cores do Arrepiados
de sua infância e também de um antigo grupo local, o Caçadores da
Floresta.
Em 1929 teve seu primeiro samba gravado
por ninguém menos que o 'Rei da Voz', Francisco Alves.
Intitulava-se "Que Infeliz Sorte". Três anos depois novamente
Chico Alves em duo com Mário Reis levou ao disco outro samba de
Cartola: "Perdão, meu bem". E aos poucos seus temas iam sendo
registrados, embora nem sempre com crédito a ele, pois, naquele
tempo era muito comum, triste realidade, para levantar alguns
trocados, os compositores venderem às grandes estrelas suas
canções. Segundo o pesquisador Ricardo Cravo Albin o samba "Não
faz mal, amor" gravado também por Alves era uma parceria de
Cartola e Noel Rosa, o 'Poeta da Vila Isabel', mas não revelado no
selo do disco. Aliás, Noel gostava muito do refinado Agenor.
Muitas vezes pernoitou no barraco do mangueirense para evitar
dormir ao relento enquanto o orvalho ia caindo... Porém, embora
suas composições fossem requisitadas para compra dos direitos ou
gravação - Villa-Lobos indicou Cartola em 1940 para atuar numa
apresentação com o maestro Leopold Stokowski que ia fazer
registros da música brasileira para os EUA atuando com
Pixinguinha, Luis Americano, Donga, João da Baiana, Jararaca e
Ratinho entre outros bambas -, isto não melhorou suas condições de
sobrevivência. Em 1946, para piorar, contraiu meningite e, pouco
depois, ficou viúvo de um casamento iniciado aos 18 anos. Saiu da
Mangueira e afastou-se do samba. Sumiu. Desapareceu. Muitos
acharam que havia morrido. Nada incomum num país que desperdiça
talentos, especialmente os vindos de camadas menos favorecidas.
Entretanto, cerca de dez anos depois,
numa noite de 1956, o escritor Sérgio Porto reconheceu Cartola num
boteco de Ipanema, vestido de macacão, molhado, trabalhando como
lavador de automóveis. Esse fortuito encontro trouxe, assim, o
sambista de volta aos palcos de onde nunca deveria ter saído.
Contudo, somente em 1974 foi que ele conseguiu, finalmente, gravar
um LP próprio, cantado e escrito por ele. Estava, naquela altura,
com 65 anos de idade. Nesse ressurgimento também protagonizou a
criação de um bar/restaurante na Rua da Carioca, centro do Rio, o
Zicartola, em sociedade com sua esposa Eusébia, a dona Zica, no
início dos anos 60. Naquele espaço culinário e cultural reuniam-se
jornalistas, estudantes, poetas, músicos, boêmios. Não teve uma
grande longevidade, mas fez história.
Agenor de Oliveira, entretanto, embora
tardiamente, pode ser homenageado em vida, sentir-se querido e
respeitado. Foi tema do Projeto Minerva em rede nacional, teve uma
revista teatral intitulada "O Sol Nascerá" contando sua história,
bem como um "Brasil Especial" na Rede Globo sobre sua biografia.
Foi ovacionado por diversas capitais através do "Projeto
Pixinguinha" atuando ao lado do também já saudoso João Nogueira
entre outros fatos. O mais lamentável nisso tudo é que tenha
ficado no ostracismo e passado por inúmeras dificuldades
financeiras podendo ter dado tanta graça, sensibilidade e poesia a
seu público. Apesar de todas as durezas da sobrevivência que teve
de suportar manteve permanente a elegância e a alta categoria nas
suas obras. Uma frase de Nélson Sargento resume essa figura
singular: "Cartola não existiu; foi um sonho que a gente teve".
José Bispo Clementino dos Santos não
teve uma origem melhor que a de Agenor de Oliveira. Também nascido
no Rio de Janeiro, no bairro de S. Cristóvão em 1913, José Bispo
era filho de um pintor de paredes. Após aprender o básico na
escola primária foi à luta ajudar a família fazendo o serviço de
engraxate e vendedor de jornais pelas ruas da então capital
federal por volta dos 9 anos de idade. Era apelidado de Saruê. E,
nas horas vagas, além de bater um futebolzinho, gostava de tocar
tamborim e cavaquinho desde moleque. Gostava de acompanhar sua mãe
na Escola Deixa Malhar, no Engenho Novo.
Certa ocasião, no meio de uma roda de
samba, comum nos subúrbios cariocas, conheceu Gradim, o sambista
Lauro Santos, que lhe convidou a visitar a Escola de Samba Estação
Primeira de Mangueira. Aos 15 anos ele entrou na bateria da Verde
e Rosa para jamais abandonar a entidade. E, junto com seus
colegas, passou a freqüentar as batucadas da Praça Onze. Com esse
envolvimento progressivo com a música, resolveu arriscar um
concurso como cantor. E foi gongado. Mas, não desistiu. Confiava
na qualidade de sua voz. E não queria ser apenas um operário.
Ainda bem. Nossos ouvidos e corações agradecem.
Rodou como 'crooner' em várias gafieiras
e dancings. Tentou outros concursos. E conseguiu vencer o da
extinta Rádio Clube do Brasil que o contratou por um ano. Ia
ficando cada vez mais conhecido. Não mais como José Bispo ou Saruê
e sim como Jamelão, fruto negro e doce, apelido dado não se sabe
ao certo onde, por um apresentador de salão de bailes ou programa
de calouros no dial. Mas, o fato é que em 1949 conseguiu
registrar, enfim, seu talento em disco. Foi na Gravadora Odeon. E
o feito não passou despercebido. Em 1952 foi para a Gravadora
Sinter e tornou-se crooner da Orquestra Tabajara de Severino
Araújo com quem viajou à Europa. Em 1954, pela Continental,
emplacaria o clássico tema "Exaltação à Mangueira" (Enéas Brittes
/Aloísio Augusto da Costa). Em 1956 imortalizou o samba-canção
"Folhas mortas" de Ary Barroso, confirmando as possibilidades de
seu canto, tanto esfuziante e rítmico no samba quanto no
sentimental romântico. Personificou nos discos a dor de cotovelo
do gaúcho Lupicínio Rodrigues. Foi cada vez mais sendo respeitado
entre os amantes da música popular nacional. Tornou-se a voz da
Mangueira e 'o intérprete do século dos sambas-enredo'.
Para o estudioso das origens afro e
sambista Nei Lopes, Jamelão não foi só o maior gogó das escolas de
samba como igualmente "um dos maiores cantores populares do Brasil
em todos os tempos, formando no mesmo time de Francisco Alves,
Sílvio Caldas, Orlando Silva, Nelson Gonçalves etc". O Ministério
da Cultura lhe concedeu com muita justiça a medalha da Ordem do
Mérito Cultural em 2001. Nesse mesmo ano tornou-se 'Presidente de
Honra da Mangueira', a escola fundada pelo seu amigo, mestre
Cartola, de quem gravou o primeiro samba em 1958, "Grande Deus".
Recentemente, ao completar 90 anos, o cantor foi alvo de muitos
outros tributos.
Agenor e José Bispo são dois exemplos de
talentos que o destino acabou reservando uma dose de sorte por
terem sido, apesar das dificuldades vividas, reconhecidos.
Entretanto, isto pouco ocorre. Negligente com os mais pobres, o
país desperdiça potenciais ao largar suas crianças nas ruas das
grandes cidades e mesmo no meio rural, arriscando-as sem proteção
à violência ou ao trabalho forçado. "Ouça-me bem, amor/ Preste
atenção/ O mundo é um moinho". Triturador de sonhos ele poupou
para nossa felicidade os dois mestres.
Neste centenário do nascimento de
Cartola o Morro da Mangueira ficou desfalcado na batucada em sua
honra. Jamelão não poderá comparecer como pretendiam os
organizadores da comemoração. Teve que partir: foi chamado para
soltar seu inconfundível vozeirão na versão celestial da festa.
São Paulo, 18 de junho de 2008.
Prof. José de Almeida
Amaral Júnior
Professor universitário em Ciências
Sociais, Economista, pós-graduado em Sociologia e mestre em
Políticas de Educação, Colunista do Jornal Cantareira, Colunista
pela Pascom na Rádio 9 de Julho Am 1600 Khz e escreve semanalmente para o Mundo Lusíada
Online.
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