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Há exatos 40 anos o mundo assistia
espantado, via satélite, uma série de manifestações acontecer em
diversas grandes cidades. E especialmente as ocorridas na capital
francesa seriam lembradas para sempre como símbolo daqueles
tempos. O auge do movimento. A juventude acadêmica se posicionava
contra uma série de imposições que acreditavam ser injustas,
descabidas, preconceituosas e reacionárias. Com um detalhe: tudo
em plena ‘era dourada do capitalismo’, quando a economia caminhava
muito bem, especialmente nos países desenvolvidos. Mas, isso não
bastava. Consumir não era o essencial. Era preciso mais, muito
mais. Aqueles fatos revelavam algo que ia bem além de uma mera
rebeldia sem causa.
Com a estabilidade do pós-II guerra uma
grande massa passou a freqüentar as universidades. Cresceu o
movimento estudantil de forma notável. O exercício crítico do
livre pensar começou a frutificar e pretendia ampliar seus espaços
de modo prático. Durante os anos 60 ao mesmo tempo em que a
tecnologia apresentava sucessivas inovações e o planeta estava
dividido geopoliticamente pela chamada “Guerra Fria”, conflito
entre capitalistas x socialistas, muitos valores tradicionalistas
passaram a ser questionados. Um terremoto cultural.
Nos EUA a luta pelos direitos civis
ganhava terreno. Desde 1964, em Berkeley, os alunos reivindicavam
‘liberdade de expressão’. Mulheres e negros aumentavam a
organização no país contra racismo e machismo. Em meio a esse
caldo, no mês de abril de 1968, o líder negro Martin Luther King
foi assassinado. Sua morte serviu para mobilizar ainda mais os
descontentes, unindo-os também contra os investimentos na guerra
do Vietnã que os norte-americanos envolveram-se desde 1964.
Hippismo e pacifismo floresciam com intensidade. Os valores do
chamado ‘american way of life’ eram revistos pelos jovens em suas
canções, em peças de teatro, no cinema, na poesia.
Em solo francês, os estudantes saíram
das salas de aula e fizeram passeatas para ‘saudar os novos
tempos’, mais leves e livres. Eles tomaram a Universidade de
Nanterre, nos arredores parisienses, no final de abril de 68. Em
seqüência, a Sorbonne foi fechada e os alunos enfrentaram as
autoridades. Ergueram-se barricadas nas ruas de Paris e confrontos
aconteceram entre 20 mil discentes e policiais no dia 10 de maio.
Dias depois os estudantes uniam forças com os sindicalistas que
reivindicavam melhores condições de salário e trabalho. Decretaram
greve geral em conjunto, para o tormento do herói nacional e
presidente gal. Charles De Gaulle. No dia 20 a capital sofria
paralisação dos transportes públicos entre outros serviços e os
trabalhadores ocupavam 300 fábricas no país. Os muros apareceram
pichados com as célebres frases como “Proibido Proibir”, “A
imaginação no poder”, “Sejamos realistas: queiramos o impossível”
ou “Abaixo a sociedade mercantil”.
No restante da Europa foram registrados
fatos semelhantes. Alemanha, Itália, Espanha, Iugoslávia entre
outros países assistiram levantes de jovens, intelectuais e
trabalhadores contra a estrutura existente. Na Tchecoslováquia
cogitou-se um regime mais arejado, dentro do bloco socialista,
tempo que ficou conhecido como a “Primavera de Praga”.
A América Latina também viveu suas
barricadas. Na Argentina e no Uruguai trabalhadores e estudantes
uniram forças. Na Venezuela, Colômbia e México os universitários
reivindicaram melhores condições de estudo. No Brasil, plena
ditadura militar, estudantes ocuparam a Universidade de Brasília e
a Federal de Minas foi fechada pelo governo em abril. No mês de
junho o Rio assistiu a passeata dos 100 mil onde participaram
estudantes, intelectuais, artistas e religiosos. Naquele ano,
ainda ocorreria a célebre batalha da rua Maria Antônia entre
alunos de esquerda da filosofia, ciências e letras da USP versus
mackenzistas pró-situacionistas. Então, dez dias depois, em 12/10,
1200 estudantes da UNE foram presos em Ibiúna ao realizarem o seu
30º Congresso. Mais que isso: em 13/12/1968 foi baixado o Ato
Institucional nº 5 – AI - 5 – que estabeleceu o pior momento de
repressão daquela ditadura no Brasil. O gal. Costa e Silva
decretou que todo o poder deveria ser usado contra os inimigos do
regime. Temia-se que a influência de líderes latino-americanos
como Che Guevara e Fidel Castro fizessem adeptos tupiniquins.
A força bruta baixou com firmeza sobre
os manifestantes por aqui. E assim também se deu pelo continente
afora. Como no caso do México, onde centenas de estudantes foram
massacrados pelo exército em plena capital asteca. E também por
outras partes do globo, como em Praga, quando a URSS reprimiu os
agitadores com seus tanques e baionetas. Ou na própria França,
onde a direita nacionalista conclamou os cidadãos a ajudarem o
estado gaullista a frear os ‘desordeiros’ em prol dos bons
costumes, afinal, as mulheres deveriam continuar a gostar de ser
donas de casa, pedir permissão a seus maridos para abrir uma conta
bancária, a homossexualidade devia ser tratada através da
psiquiatria etc. A inevitável reação contrária, portanto, não
deixou de se fazer sentir de maneira contundente.
Hoje, todavia, 4 décadas depois daqueles
episódios, podemos perceber que se os eventos lembrados não foram
conclusivos como foram a revolução de 1917 na Rússia ou 1959 em
Cuba também não deixaram de espalhar suas sementes para o futuro.
Nunca mais o mundo esqueceria aquela época e todos os recados
dados, todas as idéias tão generosas que ganharam as ruas das
cidades pelo planeta afora, visando uma sociedade menos
consumista, menos repressiva, menos desigual. Não foi hipocrisia
ou delírio. Foi o direito a sonhar se exprimindo. “Paz e amor”,
“igualdade entre gêneros e etnias”, “liberdade de expressão” e
“respeito à natureza” são ideais presentes como referência neste
instante. Aqui e agora.
Se a natureza se contorce em dores com a
crueldade que praticamos nela, se prolifera o caráter utilitário
nas nossas relações cada vez mais banalizadas, se a vida se
esvazia de significado, tudo isto revela o quanto 1968 ainda nos
têm a ensinar. Basta prestar atenção para ouvir os ecos das
‘barricadas do desejo’.
São Paulo, 28 de maio de 2008.
Prof. José de Almeida
Amaral Júnior
Professor universitário em Ciências
Sociais, Economista, pós-graduado em Sociologia e mestre em
Políticas de Educação, Colunista do Jornal Cantareira, Colunista
pela Pascom na Rádio 9 de Julho Am 1600 Khz e escreve semanalmente para o Mundo Lusíada
Online.
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