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Por Prof.José de Almeida Amaral Júnior*


Quarta-feira | 28 MAI 08

Notas Quotidianas: Economia, Cultura e Sociedade
Maio, 1968

Há exatos 40 anos o mundo assistia espantado, via satélite, uma série de manifestações acontecer em diversas grandes cidades. E especialmente as ocorridas na capital francesa seriam lembradas para sempre como símbolo daqueles tempos. O auge do movimento. A juventude acadêmica se posicionava contra uma série de imposições que acreditavam ser injustas, descabidas, preconceituosas e reacionárias. Com um detalhe: tudo em plena ‘era dourada do capitalismo’, quando a economia caminhava muito bem, especialmente nos países desenvolvidos. Mas, isso não bastava. Consumir não era o essencial. Era preciso mais, muito mais. Aqueles fatos revelavam algo que ia bem além de uma mera rebeldia sem causa.

Com a estabilidade do pós-II guerra uma grande massa passou a freqüentar as universidades. Cresceu o movimento estudantil de forma notável. O exercício crítico do livre pensar começou a frutificar e pretendia ampliar seus espaços de modo prático. Durante os anos 60 ao mesmo tempo em que a tecnologia apresentava sucessivas inovações e o planeta estava dividido geopoliticamente pela chamada “Guerra Fria”, conflito entre capitalistas x socialistas, muitos valores tradicionalistas passaram a ser questionados. Um terremoto cultural.

Nos EUA a luta pelos direitos civis ganhava terreno. Desde 1964, em Berkeley, os alunos reivindicavam ‘liberdade de expressão’. Mulheres e negros aumentavam a organização no país contra racismo e machismo. Em meio a esse caldo, no mês de abril de 1968, o líder negro Martin Luther King foi assassinado. Sua morte serviu para mobilizar ainda mais os descontentes, unindo-os também contra os investimentos na guerra do Vietnã que os norte-americanos envolveram-se desde 1964. Hippismo e pacifismo floresciam com intensidade. Os valores do chamado ‘american way of life’ eram revistos pelos jovens em suas canções, em peças de teatro, no cinema, na poesia.

Em solo francês, os estudantes saíram das salas de aula e fizeram passeatas para ‘saudar os novos tempos’, mais leves e livres. Eles tomaram a Universidade de Nanterre, nos arredores parisienses, no final de abril de 68. Em seqüência, a Sorbonne foi fechada e os alunos enfrentaram as autoridades. Ergueram-se barricadas nas ruas de Paris e confrontos aconteceram entre 20 mil discentes e policiais no dia 10 de maio. Dias depois os estudantes uniam forças com os sindicalistas que reivindicavam melhores condições de salário e trabalho. Decretaram greve geral em conjunto, para o tormento do herói nacional e presidente gal. Charles De Gaulle. No dia 20 a capital sofria paralisação dos transportes públicos entre outros serviços e os trabalhadores ocupavam 300 fábricas no país. Os muros apareceram pichados com as célebres frases como “Proibido Proibir”, “A imaginação no poder”, “Sejamos realistas: queiramos o impossível” ou “Abaixo a sociedade mercantil”.

No restante da Europa foram registrados fatos semelhantes. Alemanha, Itália, Espanha, Iugoslávia entre outros países assistiram levantes de jovens, intelectuais e trabalhadores contra a estrutura existente. Na Tchecoslováquia cogitou-se um regime mais arejado, dentro do bloco socialista, tempo que ficou conhecido como a “Primavera de Praga”.

A América Latina também viveu suas barricadas. Na Argentina e no Uruguai trabalhadores e estudantes uniram forças. Na Venezuela, Colômbia e México os universitários reivindicaram melhores condições de estudo. No Brasil, plena ditadura militar, estudantes ocuparam a Universidade de Brasília e a Federal de Minas foi fechada pelo governo em abril. No mês de junho o Rio assistiu a passeata dos 100 mil onde participaram estudantes, intelectuais, artistas e religiosos. Naquele ano, ainda ocorreria a célebre batalha da rua Maria Antônia entre alunos de esquerda da filosofia, ciências e letras da USP versus mackenzistas pró-situacionistas. Então, dez dias depois, em 12/10, 1200 estudantes da UNE foram presos em Ibiúna ao realizarem o seu 30º Congresso. Mais que isso: em 13/12/1968 foi baixado o Ato Institucional nº 5 – AI - 5 – que estabeleceu o pior momento de repressão daquela ditadura no Brasil. O gal. Costa e Silva decretou que todo o poder deveria ser usado contra os inimigos do regime. Temia-se que a influência de líderes latino-americanos como Che Guevara e Fidel Castro fizessem adeptos tupiniquins.

A força bruta baixou com firmeza sobre os manifestantes por aqui. E assim também se deu pelo continente afora. Como no caso do México, onde centenas de estudantes foram massacrados pelo exército em plena capital asteca. E também por outras partes do globo, como em Praga, quando a URSS reprimiu os agitadores com seus tanques e baionetas. Ou na própria França, onde a direita nacionalista conclamou os cidadãos a ajudarem o estado gaullista a frear os ‘desordeiros’ em prol dos bons costumes, afinal, as mulheres deveriam continuar a gostar de ser donas de casa, pedir permissão a seus maridos para abrir uma conta bancária, a homossexualidade devia ser tratada através da psiquiatria etc. A inevitável reação contrária, portanto, não deixou de se fazer sentir de maneira contundente.

Hoje, todavia, 4 décadas depois daqueles episódios, podemos perceber que se os eventos lembrados não foram conclusivos como foram a revolução de 1917 na Rússia ou 1959 em Cuba também não deixaram de espalhar suas sementes para o futuro. Nunca mais o mundo esqueceria aquela época e todos os recados dados, todas as idéias tão generosas que ganharam as ruas das cidades pelo planeta afora, visando uma sociedade menos consumista, menos repressiva, menos desigual. Não foi hipocrisia ou delírio. Foi o direito a sonhar se exprimindo. “Paz e amor”, “igualdade entre gêneros e etnias”, “liberdade de expressão” e “respeito à natureza” são ideais presentes como referência neste instante. Aqui e agora.

Se a natureza se contorce em dores com a crueldade que praticamos nela, se prolifera o caráter utilitário nas nossas relações cada vez mais banalizadas, se a vida se esvazia de significado, tudo isto revela o quanto 1968 ainda nos têm a ensinar. Basta prestar atenção para ouvir os ecos das ‘barricadas do desejo’.

São Paulo, 28 de maio de 2008.

Prof. José de Almeida Amaral Júnior
Professor universitário em Ciências Sociais, Economista, pós-graduado em Sociologia e mestre em Políticas de Educação, Colunista do Jornal Cantareira, Colunista pela Pascom na Rádio 9 de Julho Am 1600 Khz e escreve semanalmente para o Mundo Lusíada Online.


 

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