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Este artigo não é saudosista. Em todos
os tempos, o poder e a corrupção andaram de mãos dadas. Um
verdadeiro e indissolúvel casamento. E em todos os espaços
geográficos.
Ocorre, todavia, que nem todo o detentor
do poder é corrupto. Seja político ou burocrata, tenha feito o
teste das urnas, prestado concurso público ou se enquistado no
governo por ser amigo do rei. Que há corruptos em todas as esferas
públicas e em todos os poderes é uma realidade que as
corregedorias e os Tribunais de Contas não conseguem extirpar,
quando entre eles também o mal não vem a vicejar.
É que quem deseja o poder o quer, em
primeiro lugar, para mandar, para ser o que comanda e isto ocorre
em todas as áreas, públicas e privadas.
O servir a sociedade é uma decorrência,
quando possível. Se não sobram tempo ou recursos para fazê-lo -
por terem, os recursos, destino menos louvável e o tempo estar
dedicado apenas a conservar o comando, a demagogia e a perseguição
aos inimigos -, procuram, os detentores do poder, camuflar o “não
serviço público”, ficando em último plano a mais sublime das
funções laicas, que é a de servir à pátria e à sociedade.
Sou obrigado, todavia, a considerar
–repito, sem ser saudosista- que o nível de corrupção e do cinismo
das autoridades públicas em justificá-la, era incomensuravelmente
menor, na distante década de 50, quando comecei a escrever
artigos. Quando se descobria a corrupção, o corrupto se sentia
humilhado e - como nos países sérios - pedia desculpas à nação,
chegando, muitas vezes, ao suicídio, ao ver toda a sua família
atingida pela conduta anti-social praticada.
Tal comportamento tornava os corruptos
párias da sociedade, na linha do que acontece na obra de ficção,
criada por Gene Roddenberry (“Startrek”), em que, entre os
Klingons, a corrupção de um político, no poder, contaminava todas
as gerações futuras.
Por outro lado, naqueles tempos de minha
juventude, os homens de bem entravam mais ricos no governo do que
saíam, ao contrário de hoje, em que o poder enriquece quase todos.
Campos Salles, por exemplo, entrou rico e saiu pobre da
presidência da República. E que dizer de Prestes Maia! Laudo Natel,
até hoje, vive na mesma casa e dirige um simples carro popular,
depois de ter governado o maior Estado do Brasil.
Políbio, ao analisar a decadência dos tempos romanos, mostrava
que, entre os fatos que a provocaram, estavam, precisamente, a
corrupção e a falta de espírito cívico das autoridades.
O que, entretanto, mais surpreende, nos
dias atuais, é que aqueles que são apanhados fazendo falcatruas,
são exatamente os que mais ostentam poder, cinismo e riqueza,
fazendo alarde da forma como agem. E o pior é que consideram – e
querem convencer a nação – de que nada fizeram de mal.
Parafraseando ocupante de cargo ministerial: afinal o poder é para
“gozar e relaxar”.
É possível que eu esteja sendo
saudosista, mas que havia mais compostura e responsabilidade
públicas, no passado, lá isso havia.
Dr.Ives Gandra Martins
Professor Emérito das Universidades
Mackenzie, UNIFMU, UNIFIEO, UNIP e das Escolas de Comando e Estado
Maior do Exército-ECEME e Superior de Serra-ESG, Presidente do
Conselho Superior de Direito da Fecomercio e do Centro de Extensão
Universitária - CEU - ceu@ceu.org.br e escreve quinzenalmente para
o Jornal Mundo Lusíada.
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