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Por Prof.José de Almeida Amaral Júnior*


Segunda-feira | 05 ABR 08

Notas Quotidianas: Economia, Cultura e Sociedade
Anos Dourados: Algumas memórias do Keynesianismo e da Bossa Nova

Com o final da II Grande Guerra em 1945, muita gente que vivia neste planeta, especialmente os habitantes dos países mais desenvolvidos, pode experimentar um período bastante promissor. A julgar pelo cenário anterior, isto é, o conjunto formado pela crise econômica dos anos 70 no século XIX, a I Guerra, o crash da bolsa de Nova York e a depressão econômica nos anos 1930 que provocou a ascensão do nazismo na humilhada Alemanha, um período de razoável equilíbrio político e econômico internacional já seria muito festejado. Mas, a coisa foi além disso.

Com intensa participação estatal, conduta já prenunciada anteriormente ao próprio conflito iniciado em 1939 – o credo liberal do laissez faire, laissez passer perdia naquela altura os seus fiéis -, não se mediram esforços para a reconstrução da Europa e do Japão. Investimentos foram feitos com intensidade. Muitos países, ao chegar 1950, retomavam seu crescimento pré-guerra. Tanto no bloco capitalista como na ‘Cortina de Ferro’ socialista.

De acordo com o historiador Eric Hobsbawn a ‘Era de Ouro’ foi um fenômeno mundial “embora [segundo o intelectual] a riqueza geral jamais chegasse à vista da maioria da população do mundo”, ou seja, países africanos, leste-asiáticos e sul-asiáticos, ainda que não existisse fome endêmica, excetuando-se por situações de conflito. Houve aumento da expectativa de vida. A industrialização se expandiu por toda parte, incluindo o então ‘Terceiro Mundo’. A economia mundial cresceu consideravelmente. A produção de manufaturas foi multiplicada por quatro entre 1950 e 1970 e o comércio internacional no setor foi decuplicado. O keynesianismo ia de vento em popa com seu propósito de pleno emprego e cooperação entre estados, empresas e sindicatos. Ganhou força o chamado Estado de Bem Estar Social: seguros desemprego, saúde, educação etc. os ‘gastos sociais’.

No Brasil, as coisas não foram muito diferentes. Desde a morte de Getúlio Vargas durante seu segundo mandato em agosto de 1954, viu-se intensificar a entrada de capital estrangeiro em sua economia, apoiada pela participação governamental e das empresas brasileiras. Desta forma o país procurava fugir de seu atraso tecnológico e industrial. Corria atrás da ‘modernização’. Desejava fazer ’50 anos em 5’ como dizia o lema do presidente Juscelino Kubitschek, cujo objetivo maior era fundar Brasília no sertão de Goiás ao termino de seu mandato em 1960. Exatamente nessa época de grandes transformações, onde o país caminhava de uma característica marcantemente rural para se tornar cada vez mais urbano, ampliando as camadas médias, fora da esfera produtiva, também no campo cultural desenhavam-se coisas. Dentro da já muito rica música popular estava sendo gerada uma nova vertente do tradicional samba, o gênero que para muitos era o símbolo musical nacional. Sintonizada com essas mudanças, a ainda capital federal, Rio de Janeiro, foi palco de uma fusão de influências sonoras que fizeram brotar o fato: nascia a Bossa-Nova. Estilo que projetou a música brasileira com maior intensidade pelo planeta afora desde o fenômeno Carmen Miranda. O termo ‘bossa’, não era propriamente neófito. O compositor Noel Rosa, nos anos 30, o havia utilizado em seus sambas. Porém, aquilo que surgia era diferente mesmo. E causou o maior frisson. Muita gente - leia-se: os mais conservadores - torceu o nariz. Contudo, um número maior ainda ficou admirado. Virou a trilha dos ‘Anos Dourados’.

Em 1958, portanto há exatos 50 anos, a divina Elizeth Cardoso lançava seu LP “Canção do Amor Demais” onde reunia trabalhos do jovem maestro Tom Jobim e do poeta e cronista Vinícius de Morais. Todavia, além dessa seleção musical, o álbum também trazia o violão do baiano morador no Rio João Gilberto que muito brevemente estaria sendo lançado para a imortalidade. Isto porque, pouco depois, chegaria ao mercado seus dois compactos 78 rpm pela Odeon "Chega de Saudade"/"Bim Bom" e "Desafinado"/"Oba-la-lá" que, em conjunto com a bolacha de Elizeth, marcariam o início do movimento. Aliás, segundo o jornalista Paulo César de Araujo, a Bossa Nova estourou inicialmente em São Paulo embora os lançamentos tivessem ocorrido a princípio na praça carioca. Hoje, aos 76 anos, João Gilberto é uma estrela internacional, uma figura venerada por causa do seu cantar baixinho, detalhado, preciso e seu jeito inimitável de tocar violão. Refinado, com apenas um banquinho, instrumento e voz o baiano não dá show e sim recital. Não dá entrevistas e nem frequenta badalações. O que tem a dizer realiza - com raridade - nos palcos brasileiros, de Nova York ou no Japão, onde tem fãs fidelissimos.

A bossa nova é uma espécie de síntese entre o samba e as hamonias de jazz que músicos como Dick Farney, Lucio Alves e Johnny Alf já incluiam em seus trabalhos. A partir de 1958 foi aberto o espaço para a manifestação de uma nova geração de músicos e intérpretes que acabariam se colocando numa posição diferente do que existia até então, a predominância da voz forte, bem postada, como de Chico Alves ou mesmo Vicente Celestino, além dos boleros e sambas dor de cotovelo. O canto pode ser mais intimista e dia de luz, festa de sol com o barquinho deslizando no macio azul do mar passaram a dar as cores da época. Roberto Menescal, Carlos Lyra, Luis Bonfá, Luis Eça, Silvia Telles, Milton Banana. Oscar Castro Neves, Sérgio Mendes, Chico Feitosa, Nara Leão, Marcos Valle, Dory Caymmi e Edu Lobo. Nomes que, entre outros, foram participantes diretos ou profundamente tocados por aquele momento tão intenso, jamais esquecido pelos brasileiros e aplaudido pelo estrangeiro. Que tinha mais delícias, mais sorrisos e mais proezas ainda. Uma pequena amostra do cenário geral da época para refrescar a memória: passou a circular o DKW-Vemag, o primeiro carro com 50% de suas peças produzidas aqui; Adalgisa Colombo sagrou-se Miss Brasil e só não ganhou o Miss Universo porque houve ‘marmelada’; Maria Ester Bueno venceu em Wimbledon; Zé Celso Martinez Corrêa estreou o Grupo Oficina; Augusto Boal e o Teatro de Arena montaram “Eles não usam black-tie”, de Guarnieri; Cacilda Becker saía do Teatro Brasileiro de Comédia para montar a própria companhia; a companhia Maria Dela Costa estreava Brecht no Brasil; o rinoceronte Cacareco elegeu-se vereador em São Paulo; foi lançado o rádio de pilha; as primeiras sessões do Cinema Novo aconteceram; o Vasco foi supercampeão carioca e o bambolê era uma diversão geral. Sim, claro, a seleção de Garrincha e Pelé venceu na Suécia, espantando seu complexo de ‘vira-lata’ desde o desastre do ‘Maracanazo’. A Pátria de Chuteiras estava impossível e como a Taça do Mundo era nossa, ninguém podia com o brasieiro. Como escreveu o jornalista Joaquim Ferreira dos Santos, 1958 era ‘o ano que não devia terminar’. Entretanto, acabou.

JK, o presidente bossa-nova, não fez seu sucessor. O rock britânico logo chegaria com a ‘Beatlemania’ e em 1964 o golpe militar deixou cinza a paisagem por longos anos. Do ponto de vista internacional, o keynesianismo após os choques de petróleo em 1973 e 79 também perdeu o viço e proporcionou o retorno do liberalismo político e econômico.
Neste 2008, no entanto, 50 anos após o ápice dos ‘anos dourados’, alguns intelectuais escrevem que o neoliberalismo morreu em meio à crise das bolsas e do mercado financeiro internacional. Precisaram pedir aos governos para socorrê-los de uma tragédia maior proporcionada pela ganância dos lucros fáceis da especulação. Qual o próximo ato? É fato que globalização e liberalização, como motores do crescimento econômico e o desenvolvimento dos países, não reduziram as desigualdades e a pobreza nas últimas décadas, segundo atestou a publicação "Flat World, Big Gaps" da Comissão sobre Desenvolvimento Social da ONU/2007. A desigualdade na renda per capita aumentou em vários países da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), assim como na maioria dos países em desenvolvimento. É possivel rumarmos então para uma nova ‘era keynesiana’, de regulação de mercado pelo Estado? Qual a saída para controlar o poder especialmente do setor financeiro? O debate está aberto e as exigências de um melhor equilíbrio de desenvolvimento econômico entre os países permanecem óbvias. É triste ver tanta riqueza e tecnologia concentrada cada vez mais nas mãos de tão poucos. Um sem número de trabalhadores informais. Jovens sem educação e ocupações produtivas. É preciso corrigir isso. Como diria o Papa da Bossa Nova, Tom Jobim, o negócio é o seguinte: “fundamental é mesmo o amor/ é impossível ser feliz sozinho”.

São Paulo, 05 de maio de 2008.

Prof. José de Almeida Amaral Júnior
Professor universitário em Ciências Sociais, Economista, pós-graduado em Sociologia e mestre em Políticas de Educação, Colunista do Jornal Cantareira, Colunista pela Pascom na Rádio 9 de Julho Am 1600 Khz e escreve semanalmente para o Mundo Lusíada Online.


 

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