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Com o final da II Grande Guerra em 1945,
muita gente que vivia neste planeta, especialmente os habitantes
dos países mais desenvolvidos, pode experimentar um período
bastante promissor. A julgar pelo cenário anterior, isto é, o
conjunto formado pela crise econômica dos anos 70 no século XIX, a
I Guerra, o crash da bolsa de Nova York e a depressão econômica
nos anos 1930 que provocou a ascensão do nazismo na humilhada
Alemanha, um período de razoável equilíbrio político e econômico
internacional já seria muito festejado. Mas, a coisa foi além
disso.
Com intensa participação estatal,
conduta já prenunciada anteriormente ao próprio conflito iniciado
em 1939 – o credo liberal do laissez faire, laissez passer perdia
naquela altura os seus fiéis -, não se mediram esforços para a
reconstrução da Europa e do Japão. Investimentos foram feitos com
intensidade. Muitos países, ao chegar 1950, retomavam seu
crescimento pré-guerra. Tanto no bloco capitalista como na
‘Cortina de Ferro’ socialista.
De acordo com o historiador Eric
Hobsbawn a ‘Era de Ouro’ foi um fenômeno mundial “embora [segundo
o intelectual] a riqueza geral jamais chegasse à vista da maioria
da população do mundo”, ou seja, países africanos, leste-asiáticos
e sul-asiáticos, ainda que não existisse fome endêmica,
excetuando-se por situações de conflito. Houve aumento da
expectativa de vida. A industrialização se expandiu por toda
parte, incluindo o então ‘Terceiro Mundo’. A economia mundial
cresceu consideravelmente. A produção de manufaturas foi
multiplicada por quatro entre 1950 e 1970 e o comércio
internacional no setor foi decuplicado. O keynesianismo ia de
vento em popa com seu propósito de pleno emprego e cooperação
entre estados, empresas e sindicatos. Ganhou força o chamado
Estado de Bem Estar Social: seguros desemprego, saúde, educação
etc. os ‘gastos sociais’.
No Brasil, as coisas não foram muito
diferentes. Desde a morte de Getúlio Vargas durante seu segundo
mandato em agosto de 1954, viu-se intensificar a entrada de
capital estrangeiro em sua economia, apoiada pela participação
governamental e das empresas brasileiras. Desta forma o país
procurava fugir de seu atraso tecnológico e industrial. Corria
atrás da ‘modernização’. Desejava fazer ’50 anos em 5’ como dizia
o lema do presidente Juscelino Kubitschek, cujo objetivo maior era
fundar Brasília no sertão de Goiás ao termino de seu mandato em
1960. Exatamente nessa época de grandes transformações, onde o
país caminhava de uma característica marcantemente rural para se
tornar cada vez mais urbano, ampliando as camadas médias, fora da
esfera produtiva, também no campo cultural desenhavam-se coisas.
Dentro da já muito rica música popular estava sendo gerada uma
nova vertente do tradicional samba, o gênero que para muitos era o
símbolo musical nacional. Sintonizada com essas mudanças, a ainda
capital federal, Rio de Janeiro, foi palco de uma fusão de
influências sonoras que fizeram brotar o fato: nascia a
Bossa-Nova. Estilo que projetou a música brasileira com maior
intensidade pelo planeta afora desde o fenômeno Carmen Miranda. O
termo ‘bossa’, não era propriamente neófito. O compositor Noel
Rosa, nos anos 30, o havia utilizado em seus sambas. Porém, aquilo
que surgia era diferente mesmo. E causou o maior frisson. Muita
gente - leia-se: os mais conservadores - torceu o nariz. Contudo,
um número maior ainda ficou admirado. Virou a trilha dos ‘Anos
Dourados’.
Em 1958, portanto há exatos 50 anos, a
divina Elizeth Cardoso lançava seu LP “Canção do Amor Demais” onde
reunia trabalhos do jovem maestro Tom Jobim e do poeta e cronista
Vinícius de Morais. Todavia, além dessa seleção musical, o álbum
também trazia o violão do baiano morador no Rio João Gilberto que
muito brevemente estaria sendo lançado para a imortalidade. Isto
porque, pouco depois, chegaria ao mercado seus dois compactos 78
rpm pela Odeon "Chega de Saudade"/"Bim Bom" e "Desafinado"/"Oba-la-lá"
que, em conjunto com a bolacha de Elizeth, marcariam o início do
movimento. Aliás, segundo o jornalista Paulo César de Araujo, a
Bossa Nova estourou inicialmente em São Paulo embora os
lançamentos tivessem ocorrido a princípio na praça carioca. Hoje,
aos 76 anos, João Gilberto é uma estrela internacional, uma figura
venerada por causa do seu cantar baixinho, detalhado, preciso e
seu jeito inimitável de tocar violão. Refinado, com apenas um
banquinho, instrumento e voz o baiano não dá show e sim recital.
Não dá entrevistas e nem frequenta badalações. O que tem a dizer
realiza - com raridade - nos palcos brasileiros, de Nova York ou
no Japão, onde tem fãs fidelissimos.
A bossa nova é uma espécie de síntese
entre o samba e as hamonias de jazz que músicos como Dick Farney,
Lucio Alves e Johnny Alf já incluiam em seus trabalhos. A partir
de 1958 foi aberto o espaço para a manifestação de uma nova
geração de músicos e intérpretes que acabariam se colocando numa
posição diferente do que existia até então, a predominância da voz
forte, bem postada, como de Chico Alves ou mesmo Vicente
Celestino, além dos boleros e sambas dor de cotovelo. O canto pode
ser mais intimista e dia de luz, festa de sol com o barquinho
deslizando no macio azul do mar passaram a dar as cores da época.
Roberto Menescal, Carlos Lyra, Luis Bonfá, Luis Eça, Silvia
Telles, Milton Banana. Oscar Castro Neves, Sérgio Mendes, Chico
Feitosa, Nara Leão, Marcos Valle, Dory Caymmi e Edu Lobo. Nomes
que, entre outros, foram participantes diretos ou profundamente
tocados por aquele momento tão intenso, jamais esquecido pelos
brasileiros e aplaudido pelo estrangeiro. Que tinha mais delícias,
mais sorrisos e mais proezas ainda. Uma pequena amostra do cenário
geral da época para refrescar a memória: passou a circular o
DKW-Vemag, o primeiro carro com 50% de suas peças produzidas aqui;
Adalgisa Colombo sagrou-se Miss Brasil e só não ganhou o Miss
Universo porque houve ‘marmelada’; Maria Ester Bueno venceu em
Wimbledon; Zé Celso Martinez Corrêa estreou o Grupo Oficina;
Augusto Boal e o Teatro de Arena montaram “Eles não usam
black-tie”, de Guarnieri; Cacilda Becker saía do Teatro Brasileiro
de Comédia para montar a própria companhia; a companhia Maria Dela
Costa estreava Brecht no Brasil; o rinoceronte Cacareco elegeu-se
vereador em São Paulo; foi lançado o rádio de pilha; as primeiras
sessões do Cinema Novo aconteceram; o Vasco foi supercampeão
carioca e o bambolê era uma diversão geral. Sim, claro, a seleção
de Garrincha e Pelé venceu na Suécia, espantando seu complexo de
‘vira-lata’ desde o desastre do ‘Maracanazo’. A Pátria de
Chuteiras estava impossível e como a Taça do Mundo era nossa,
ninguém podia com o brasieiro. Como escreveu o jornalista Joaquim
Ferreira dos Santos, 1958 era ‘o ano que não devia terminar’.
Entretanto, acabou.
JK, o presidente bossa-nova, não fez seu
sucessor. O rock britânico logo chegaria com a ‘Beatlemania’ e em
1964 o golpe militar deixou cinza a paisagem por longos anos. Do
ponto de vista internacional, o keynesianismo após os choques de
petróleo em 1973 e 79 também perdeu o viço e proporcionou o
retorno do liberalismo político e econômico.
Neste 2008, no entanto, 50 anos após o ápice dos ‘anos dourados’,
alguns intelectuais escrevem que o neoliberalismo morreu em meio à
crise das bolsas e do mercado financeiro internacional. Precisaram
pedir aos governos para socorrê-los de uma tragédia maior
proporcionada pela ganância dos lucros fáceis da especulação. Qual
o próximo ato? É fato que globalização e liberalização, como
motores do crescimento econômico e o desenvolvimento dos países,
não reduziram as desigualdades e a pobreza nas últimas décadas,
segundo atestou a publicação "Flat World, Big Gaps" da Comissão
sobre Desenvolvimento Social da ONU/2007. A desigualdade na renda
per capita aumentou em vários países da Organização para a
Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), assim como na
maioria dos países em desenvolvimento. É possivel rumarmos então
para uma nova ‘era keynesiana’, de regulação de mercado pelo
Estado? Qual a saída para controlar o poder especialmente do setor
financeiro? O debate está aberto e as exigências de um melhor
equilíbrio de desenvolvimento econômico entre os países permanecem
óbvias. É triste ver tanta riqueza e tecnologia concentrada cada
vez mais nas mãos de tão poucos. Um sem número de trabalhadores
informais. Jovens sem educação e ocupações produtivas. É preciso
corrigir isso. Como diria o Papa da Bossa Nova, Tom Jobim, o
negócio é o seguinte: “fundamental é mesmo o amor/ é impossível
ser feliz sozinho”.
São Paulo, 05 de maio de 2008.
Prof. José de Almeida
Amaral Júnior
Professor universitário em Ciências
Sociais, Economista, pós-graduado em Sociologia e mestre em
Políticas de Educação, Colunista do Jornal Cantareira, Colunista
pela Pascom na Rádio 9 de Julho Am 1600 Khz e escreve semanalmente para o Mundo Lusíada
Online.
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