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Há cerca de 2500 anos os gregos
inventaram a filosofia. Os sofistas e outros pensadores como
Sócrates, Platão e Aristóteles defendiam a importância da educação
na formação da cidadania, na participação dos indivíduos nos
destinos de sua comunidade, de sua gente. A democracia nasceu
nesse caldo político. Então, desde os ensinamentos desses velhos
mestres, algumas matérias ganharam contornos mais claros até que
chegada a Idade Média o sujeito que estudava, de forma elementar,
deveria dominar o chamado Trivium e o Quadrivium, isto é,
gramática, lógica e retórica e também aritmética, geometria,
astronomia e música. Elas davam o apoio para a pessoa compreender
o seu mundo e a si próprio. Daí para frente muita coisa aconteceu.
Entre tantas o Renascimento, o Iluminismo, as grandes revoluções
sociais e tecnológicas. Os campos do conhecimento se multiplicaram
e cada vez mais se tornaram complexos, ampliando as necessidades
de mais pesquisas e dedicação aos estudos. Ou seja, demandando
cada vez mais uma base sólida nos conhecimentos gerais para que
sustente os fundamentos de uma especialização, que por sua vez não
torne o indivíduo um cérebro puramente técnico, frio. O ser humano
vai além do número, embora precise muito dele. A vida exige mais
que cálculos.
Nestes dias os resultados do Enem -
Exame Nacional do Ensino Médio voltaram a alarmar pela baixa
qualidade de educação que a maioria de nossas crianças e jovens
vem recebendo. Em São Paulo, das 572 escolas mantidas pelo governo
estadual, apenas 157 ficaram acima da média 50,8. Vai de 0 a 100 a
escala. São 63 questões mais uma redação como instrumentos
avaliativos. O pífio desempenho confirma a também fraca
contribuição da escola pública para o ingresso à USP: apenas 19%
dos calouros tiveram formação nessa rede. É vexatório: no ranking
do Enem, a pior escola privada supera 75% das estaduais
paulistanas. E as percepções do sindicato dos professores
permanecem inalteradas quanto ao fato: baixos salários, alta
rotatividade e longas jornadas de trabalho sem recursos
condizentes nos aparelhos escolares explicam muito do cenário.
Entre vários comentários sobre as fórmulas do sucesso, um a meu
ver é perigoso e merece destaque: a declaração da direção do
colégio Etapa, 6º colocado entre os particulares paulistas, que
entre outras coisas oferece coreano e dá ênfase às disciplinas de
exatas. Segundo a coordenação, “português só aqui no Brasil é
importante”. Isto me fez lembrar as reformas durante o regime
militar onde matérias como história e geografia, para não ocuparem
muito espaço na grade curricular, foram transformadas em ‘Estudos
Sociais’. Desenho, geometria e música tornaram-se ‘Educação
Artística’. Um imenso reducionismo. Mas, era um período de
ditadura e compreende-se que disciplinas do gênero pudessem
estimular a liberdade, a criatividade, a análise e, por
conseguinte, a revolta. Não queriam correr perigo. Hoje, sem uma
boa formação em língua portuguesa, como entender um enunciado de
álgebra que, diga-se, é uma linguagem também? A vida vai além da
multiplicação de engenheiros, precisa também de poetas e
pensadores.
Aliás, embora tenha passado quase
despercebido pela grande mídia, há também uma reação contrária, um
desejo de estimular exatamente esses conhecimentos ‘desprezados’
pela visão tecnicista. O Projeto de Lei nº 2.732/08, que prevê a
obrigatoriedade do ensino musical nas escolas públicas, tramita
pelo congresso, e, neste início de abril, levou um grupo de
artistas - Daniela Mercury, Francis Hime, Olívia Hime, Roberto
Frejat e Gabriel, o pensador – a ser recebido pelo ministro da
educação. Este prometeu apoiar a causa, lembrando, contudo, que o
governo federal apenas traça diretrizes às escolas de educação
básica, cuja competência fica a cargo de estados e municípios. É
preciso, então, fazer as comunidades participarem e apoiarem tais
idéias. Tomara que dê certo. Uma das boas memórias que tenho dos
meus tempos de ensino fundamental e médio era a performance da
banda da escola que tocava dobrados, valsas e até temas das
paradas de sucesso na época. Os alunos cuidavam dos instrumentos
da escola, dos bonitos uniformes e, mais que isso, quando tocavam
atraiam as pessoas para ver ensaios e apresentações nas
festividades do bairro. Um elemento agregador, que aproximava a
população da escola pela arte, disciplina e confraternização
estimulando cultura e imaginação. Que se fortaleça também o ensino
de filosofia e sociologia para toda essa meninada aprender a abrir
os olhos, aprofundar a crítica, a reflexão. As artes e as
disciplinas sociais não podem ser deixadas para um segundo plano.
É direito de todos terem acesso a seus conteúdos de forma
estimulante.
Sim, para concluir, não poderia
esquecer: o primeiro lugar entre as escolas foi o tradicional
colégio S. Bento, do Rio de Janeiro, com média de 82,9. Qual a
dica deles? Prestem bem atenção: “valorização da cultura clássica
e da formação humanista, com aulas de história da arte, apreciação
musical, filosofia e ciências sociais que ajudam ao aluno a ter
acesso a um conhecimento mais amplo”, segundo as palavras de sua
coordenação. Rigorosos em seus objetivos remuneram bem seus
professores e tem estrutura para viabilizar sua proposta que se dá
em tempo integral. Uma elite esclarecida cujo biscoito fino que
degusta precisa adequadamente ser levado às massas.
São Paulo, 10 de abril de 2008.
Prof. José de Almeida
Amaral Júnior
Professor universitário em Ciências
Sociais, Economista, pós-graduado em Sociologia e mestre em
Políticas de Educação, Colunista do Jornal Cantareira, Colunista
pela Pascom na Rádio 9 de Julho Am 1600 Khz e escreve semanalmente para o Mundo Lusíada
Online.
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