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Por Prof.José de Almeida Amaral Júnior*


Quinta-feira | 10 ABR 08

Notas Quotidianas: Economia, Cultura e Sociedade
Conteúdo Clássico Humanista supera viés Tecnicista no ENEM

Há cerca de 2500 anos os gregos inventaram a filosofia. Os sofistas e outros pensadores como Sócrates, Platão e Aristóteles defendiam a importância da educação na formação da cidadania, na participação dos indivíduos nos destinos de sua comunidade, de sua gente. A democracia nasceu nesse caldo político. Então, desde os ensinamentos desses velhos mestres, algumas matérias ganharam contornos mais claros até que chegada a Idade Média o sujeito que estudava, de forma elementar, deveria dominar o chamado Trivium e o Quadrivium, isto é, gramática, lógica e retórica e também aritmética, geometria, astronomia e música. Elas davam o apoio para a pessoa compreender o seu mundo e a si próprio. Daí para frente muita coisa aconteceu. Entre tantas o Renascimento, o Iluminismo, as grandes revoluções sociais e tecnológicas. Os campos do conhecimento se multiplicaram e cada vez mais se tornaram complexos, ampliando as necessidades de mais pesquisas e dedicação aos estudos. Ou seja, demandando cada vez mais uma base sólida nos conhecimentos gerais para que sustente os fundamentos de uma especialização, que por sua vez não torne o indivíduo um cérebro puramente técnico, frio. O ser humano vai além do número, embora precise muito dele. A vida exige mais que cálculos.

Nestes dias os resultados do Enem - Exame Nacional do Ensino Médio voltaram a alarmar pela baixa qualidade de educação que a maioria de nossas crianças e jovens vem recebendo. Em São Paulo, das 572 escolas mantidas pelo governo estadual, apenas 157 ficaram acima da média 50,8. Vai de 0 a 100 a escala. São 63 questões mais uma redação como instrumentos avaliativos. O pífio desempenho confirma a também fraca contribuição da escola pública para o ingresso à USP: apenas 19% dos calouros tiveram formação nessa rede. É vexatório: no ranking do Enem, a pior escola privada supera 75% das estaduais paulistanas. E as percepções do sindicato dos professores permanecem inalteradas quanto ao fato: baixos salários, alta rotatividade e longas jornadas de trabalho sem recursos condizentes nos aparelhos escolares explicam muito do cenário. Entre vários comentários sobre as fórmulas do sucesso, um a meu ver é perigoso e merece destaque: a declaração da direção do colégio Etapa, 6º colocado entre os particulares paulistas, que entre outras coisas oferece coreano e dá ênfase às disciplinas de exatas. Segundo a coordenação, “português só aqui no Brasil é importante”. Isto me fez lembrar as reformas durante o regime militar onde matérias como história e geografia, para não ocuparem muito espaço na grade curricular, foram transformadas em ‘Estudos Sociais’. Desenho, geometria e música tornaram-se ‘Educação Artística’. Um imenso reducionismo. Mas, era um período de ditadura e compreende-se que disciplinas do gênero pudessem estimular a liberdade, a criatividade, a análise e, por conseguinte, a revolta. Não queriam correr perigo. Hoje, sem uma boa formação em língua portuguesa, como entender um enunciado de álgebra que, diga-se, é uma linguagem também? A vida vai além da multiplicação de engenheiros, precisa também de poetas e pensadores.

Aliás, embora tenha passado quase despercebido pela grande mídia, há também uma reação contrária, um desejo de estimular exatamente esses conhecimentos ‘desprezados’ pela visão tecnicista. O Projeto de Lei nº 2.732/08, que prevê a obrigatoriedade do ensino musical nas escolas públicas, tramita pelo congresso, e, neste início de abril, levou um grupo de artistas - Daniela Mercury, Francis Hime, Olívia Hime, Roberto Frejat e Gabriel, o pensador – a ser recebido pelo ministro da educação. Este prometeu apoiar a causa, lembrando, contudo, que o governo federal apenas traça diretrizes às escolas de educação básica, cuja competência fica a cargo de estados e municípios. É preciso, então, fazer as comunidades participarem e apoiarem tais idéias. Tomara que dê certo. Uma das boas memórias que tenho dos meus tempos de ensino fundamental e médio era a performance da banda da escola que tocava dobrados, valsas e até temas das paradas de sucesso na época. Os alunos cuidavam dos instrumentos da escola, dos bonitos uniformes e, mais que isso, quando tocavam atraiam as pessoas para ver ensaios e apresentações nas festividades do bairro. Um elemento agregador, que aproximava a população da escola pela arte, disciplina e confraternização estimulando cultura e imaginação. Que se fortaleça também o ensino de filosofia e sociologia para toda essa meninada aprender a abrir os olhos, aprofundar a crítica, a reflexão. As artes e as disciplinas sociais não podem ser deixadas para um segundo plano. É direito de todos terem acesso a seus conteúdos de forma estimulante.

Sim, para concluir, não poderia esquecer: o primeiro lugar entre as escolas foi o tradicional colégio S. Bento, do Rio de Janeiro, com média de 82,9. Qual a dica deles? Prestem bem atenção: “valorização da cultura clássica e da formação humanista, com aulas de história da arte, apreciação musical, filosofia e ciências sociais que ajudam ao aluno a ter acesso a um conhecimento mais amplo”, segundo as palavras de sua coordenação. Rigorosos em seus objetivos remuneram bem seus professores e tem estrutura para viabilizar sua proposta que se dá em tempo integral. Uma elite esclarecida cujo biscoito fino que degusta precisa adequadamente ser levado às massas.

São Paulo, 10 de abril de 2008.

Prof. José de Almeida Amaral Júnior
Professor universitário em Ciências Sociais, Economista, pós-graduado em Sociologia e mestre em Políticas de Educação, Colunista do Jornal Cantareira, Colunista pela Pascom na Rádio 9 de Julho Am 1600 Khz e escreve semanalmente para o Mundo Lusíada Online.


 

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