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Nos primeiros dias deste mês de março a
imprensa trouxe à luz um fato, no mínimo, curioso. Na capital de
Goiás um garoto de 8 anos fez vestibular para o curso de direito
em uma universidade particular e, três dias depois, ficou sabendo
que estava aprovado. Apto para estar naquela faculdade rumo ao
diploma de nível superior.
Segundo a mãe, estudar direito é um
sonho do moleque, embora ele não seja diferente de nenhuma criança
de sua idade. Para o pai, não existe nenhum problema em seu filho
freqüentar os bancos acadêmicos, pois, se ele passou no teste,
mostrou ter competência como qualquer outro calouro. Inclusive,
seriam colegas de escola, já que o pai faz no mesmo local o 2º
ano. Assim, sem repetência, do alto de seus 13 anos, ele poderia
sagrar-se bacharel. Como se dizia outrora: ‘doutor em advocacia’.
Segundo a organização, o menino mostrou “especialmente na prova de
redação, boa capacidade de expressão e manejo eficiente da
língua”. Pois é.
Para dar um tom de necessária seriedade
a tal história, a OAB goiana pediu ao MEC que fiscalizasse com
maior rigor as escolas de ensino superior. De acordo com o
Ministério da Educação, a tal faculdade obteve no Enade - Exame
Nacional de Desempenho de Estudantes - 2006 conceito 2 num total
de 5 e na Ordem dos Advogados do Brasil – OAB seu desempenho foi
caracterizado como ‘pífio’, quando dos 124 recém-formados só
tiveram 25 aprovações para filiação.
Quanto mais o tempo passa, maior é a
sensação de que o ensino transformou-se num grande e lucrativo
negócio. O boom de cursos privados na última década fez uma grande
elevação no número de matriculados, porém a qualidade não foi
contemplada. Para ficarmos apenas tendo como exemplo o curso de
direito, de acordo com a OAB, entre as 33 instituições de ensino
brasileiras que registraram mais de 60% de aprovação na primeira
fase da última edição do Exame de Ordem unificado, 25 são
tradicionais universidades federais ou estaduais. A baiana de
Feira de Santana chegou a aprovar 91,6% de seus alunos.
Paralelamente a esse caso, a Folha de S.
Paulo publicou artigo de Roberto Nicolsky e André K. Oliveira,
prof. de física na UFRJ e engenheiro eletrônico, respectivamente,
sobre o declínio tecnológico no Brasil. Somos, hoje, em queda, o
29º lugar entre os países no ranking do escritório de patentes
norte-americano, USPTO, importante referencia internacional.
Tivemos ali apenas 90 patentes concedidas em 2007 contra 1121 para
a China, 545 para a Índia e 158 para os malásios. Uma análise dos
últimos 30 anos nos relatórios da entidade revela que outros
emergentes vêm nos ultrapassando. Segundo os pesquisadores, Taiwan
nos superou em 1975; os sul-coreanos em 83; os chineses em 86;
Cingapura em 96; Índia em 98 e a Malásia hoje. É o resultado do
esforço no desenvolvimento de tecnologias próprias “por meio da
agregação continuada de inovações em produtos lançados no mercado
pelos países desenvolvidos”. Há uma estreita relação entre o
número de patentes obtidas e a taxa de crescimento econômico: os
emergentes que crescem na coleção de direitos autorais são também
os lideres no aumento do PIB. Para a dupla, políticas públicas
devem ser avaliadas por resultados e não apenas pela oferta de
recursos.
De forma curta e grossa: educação é
tecnologia. Nossos governantes na última década e meia colocaram o
país na ‘globalização’ na base do embalo, sem prepará-lo
coerentemente para ser competitivo, inovador. Esqueceram de
resgatar a educação básica, sucateada desde que passou a
incorporar as camadas populares, enquanto as médias fugiam para a
esfera privada. E geraram cursos superiores sem profundidade,
demagógicos para ‘incorporar a massa’ semi-alfabetizada numa
intensa fantasia. Uma fraude. Falta fiscalização e honestidade.
Falta respeito com o conhecimento. Falta proposta pedagógica
coerente. Falta uma boa relação, trocas de estímulos, maior
intercâmbio entre universidades e setores produtivos. Está tudo
muito desconjuntado, sem integração. E os resultados vão se
sucedendo. Sintomáticos esses dois casos.
Perdemos fôlego nas inovações de ponta
internacionais, no domínio de tecnologias, lamentavelmente; mas em
compensação o guri de 8 anos passou na faculdade de direito
fazendo redação e teste de múltipla escolha. A propósito: não lhe
deram a vaga nesse escárnio todo. Sorte dele.
São Paulo, 10 de março de 2008.
Prof. José de Almeida
Amaral Júnior
Professor universitário em Ciências
Sociais, Economista, pós-graduado em Sociologia e mestre em
Políticas de Educação, Colunista do Jornal Cantareira, Colunista
pela Pascom na Rádio 9 de Julho Am 1600 Khz e escreve semanalmente para o Mundo Lusíada
Online.
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