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Quando entrei na faculdade, cursando o
bacharelado em Ciências Econômicas, na PUCSP, era muito comum
haver movimentação dos estudantes para organizar manifestações
contra a questão da dívida externa, chamada de ‘divida eterna’
pelos seus críticos, tamanha a dimensão dos valores que o país
tinha para quitar com os poderosos credores em moeda estrangeira.
Cobrança na qual girávamos num permanente círculo vicioso:
fazíamos dívidas para pagar dívidas. A moçada ia para a rua e
bradava gritos de guerra contra o imperialismo yankee e a
exploração dos banqueiros internacionais, com seus juros
escorchantes e a cobiça por nossas riquezas.
Dava, para quem ali experimentava a
situação, com tanta gente ao redor, carro de som, faixas,
bandeiras de entidades estudantis e sindicais, a nítida impressão
que aquilo seria uma luta muito longa, uma contenda contra um
inimigo imenso: a elite entreguista e pelega existente no país
mais sua vassalagem aos senhores do capital estrangeiro. Era
também momento de crise e agonia da ditadura militar, quando a
população pedia eleições diretas para presidente. Início dos anos
1980.
Pois bem, hoje, cerca de duas e meia
décadas adiante destas memórias, alguns presidentes eleitos pelo
voto popular e até mesmo um impeachment no início dos anos 1990,
passado o fim da ‘Guerra Fria’ e o advento da globalização, em 21
de fevereiro de 2008 o governo federal anunciou surpreendentemente
que a famigerada e odiada dívida externa está superada. Ela foi
vencida. Não deve mais assustar ninguém neste país porque ‘nos
tornamos credores’ dela. O anuncio foi destaque até no francês Le
Monde. Em duas décadas aquele monstro morreu? Foi derrotado pela
perícia de nossos administradores? Éramos tão pessimistas naqueles
tempos com algo que vem nos atormentando desde quando o Brasil se
tornou independente? Parece mentira. E, se formos procurar bem
para saber o que aconteceu, de fato, não é uma verdade plena,
inquestionável. Pelo menos não com essa aura de ‘alforria’ dos
credores que se passa ao ler o anúncio do governo.
Nos últimos anos o Estado brasileiro vem
fazendo a ‘lição de casa’ em relação a suas metas de corte de
gastos após o complicado segundo mandato tucano, com o fim da
euforia do Real e a imposição da Lei de Responsabilidade Fiscal e
do cambio flutuante para sairmos do atoleiro. Com essa maior
rigidez chegou a quitar sua divida com o tutor FMI em 2005 e em
2006 com o Clube de Paris. Conforme tabela publicada pelo
jornalista Paulo Henrique Amorim, assim marchou recentemente a
divida:
Dívida externa em 1995 – posse de FHC =>
US$ 159,2 bilhões
Relação dívida externa X PIB em 1995 => 19,9%
Dívida externa em 2002 – quando FHC deixou o Governo => US$ 210,7
bilhões
Relação dívida externa X PIB em 2002 => 41,8%
Dívida interna em janeiro de 1995 => R$ 108,6 milhões
Relação dívida interna X PIB em janeiro de 1995 => 20,7%
Dívida interna em dezembro de 2002 => R$ 654,3 milhões
Relação dívida interna X PIB em dezembro de 2002 => 37,4%.
Atualmente, janeiro/2008, a dívida
externa – incluindo a dívida de curto prazo – chegou aos US$ 196,2
bilhões. Paralelamente as reservas internacionais situavam-se em
US$ 187,5 bilhões, os haveres de bancos comerciais em US$ 12,9
bilhões e os créditos brasileiros no exterior em US$ 2,8 bilhões.
Assim, os ativos superavam a dívida em US$ 7 bilhões. Neste
contexto, 70% da dívida é de médio e longo prazos com os demais
30% sendo dívidas de curto prazo ou dívidas de longo prazo com
vencimentos de principal nos próximos 360 dias.
Com base nesses dados o sociólogo Gilson
Caroni Filho, da Carta Maior, acredita que o país está se vendo
livre de uma “vulnerabilidade deixada por um padrão acumulativo
assentado no endividamento externo”. Ele crê que a economia
brasileira esta mostrando vitalidade em meio ao envelhecimento de
padrões tecnológicos e de produção, na decadência da “divisão
prevalecente dos mercados e, mais importante de tudo, do
crepúsculo da ordenação comercial amparada na hegemonia do dólar”.
Em meio a este cenário vê o momento, de forma otimista, como o
‘sol de nossa emergência’. No entanto, chama a atenção para a
necessidade de se caminhar para o resgate da imensa dívida social.
Puxando exatamente deste fio, o impacto
sobre a população, vejamos outros aspectos dessa performance
histórica e o que existe a partir dele.
Em primeiro lugar, o economista Paulo
Nogueira Batista Jr., diretor executivo do FMI, explica que
excluíram do cálculo da dívida externa as dívidas de filiais de
multinacionais no Brasil com suas matrizes no exterior. Também não
estão no pacote os títulos públicos emitidos no Brasil e
adquiridos por não-residentes. Respectivamente os valores
equivalem a US$ 48,6 bi e US$ 42 bi no mês de janeiro. Ele
pondera: “a dívida externa "stricto sensu" é apenas parte do
passivo externo total, pois este inclui, além da dívida, o estoque
de investimentos diretos e de portfólio no país. Da mesma forma, o
ativo externo total do país inclui não só as reservas e os outros
dois componentes acima mencionados mas também os investimentos
diretos e de portfólio e outras aplicações de brasileiros no
exterior. Por esses conceitos mais amplos de passivo e ativo, o
Brasil registrava um passivo externo líquido de US$ 463 bilhões em
junho de 2007, segundo os dados mais recentes do BC.” Ou seja,
estamos bem melhores que anos atrás, porém, ainda falta muito para
sermos efetivamente ‘credores internacionais’. E mais: segundo a
Campanha Auditoria Cidadã da Dívida, mantida pela Rede Jubileu Sul
Brasil, tudo não passa na prática de uma manipulação estatística,
vide as jogadas técnicas como a iniciada em 2001, governo de FHC,
que foi mantida no governo Lula a partir de 2003, comentada acima,
referente às multinacionais. Água fria na euforia.
Conforme o economista da Auditoria
Cidadã, Rodrigo Vieira de Ávila, a dívida externa foi permutada
pela divida interna. Esta chegou a 1,4 tri em 2007, crescendo 40%
em apenas 2 anos. Como temos reservas crescentes, para os
investidores é mais vantajoso ter títulos da dívida interna que
pagam juros de mais de 30% ao ano, enquanto os da dívida externa
paga somente 8%. Somos, em sua estimativa, os vice-campeões em
oferta de juros no mundo, o que atrai a atenção dos especuladores.
Pela lei da oferta x procura, com a entrada em massa de dólares o
valor da moeda norte-americana cai. Quando os investidores vão
então resgatar seus títulos compram dólar barato, levando a grande
lucratividade com o Real valorizado. De acordo com a Auditoria
Cidadã, em 2007, torrou-se R$ 237 bilhões com juros e amortizações
da dívida interna e externa. Fora o dinheiro colocado na rolagem
da dívida. E em contrapartida, com a debilitada área da saúde, por
exemplo, foram gastos apenas R$ 40 bilhões. Com a educação
investiram apenas R$ 20 bilhões e meros R$ 3,5 bilhões com a
Reforma Agrária.
A Auditoria Cidadã aponta para o perigo
da oferta do alto juro, que nos mantém reféns dos especuladores
financeiros e, ao mesmo tempo, não possibilita canalizar recursos
para áreas fundamentais, além de prejudicar os investimentos
produtivos. E destaca que, dessa forma, o governo Lula
posiciona-se como legitimando uma dívida que precisa ser auditada
com seriedade, porque é imoral, tendo em vista que, por exemplo,
naqueles idos dos anos 80, as taxas de juros flutuantes foram
elevadas substancialmente pelos financistas dos EUA. Seus efeitos
prejudicaram barbaramente nossos recursos, descontrolando a
economia nacional, provocando recessão e, claro, desemprego e mais
penúria para um povo que é historicamente desamparado. Juros altos
e dólar muito em baixa podem também prejudicar as exportações, que
atingem nossas reservas.
Em resumo: as manifestações décadas
atrás denunciando a sangria desatada da perda de recursos não eram
irrelevantes. Tão pouco nossas preocupações com os impactos
sociais com esses desvios. Tantos anos sem crescimento, vendo
falir o Estado, a educação, a saúde, a segurança pública. De fato,
há agora indícios de melhoras. Tomara que fortaleçamos nosso
mercado interno, melhorando salários e distribuindo renda. Claro,
que também façamos uma auditoria séria e criteriosa sobre as
contas de nossos credores como é o desejo de vários setores dos
movimentos sociais. Temos ainda muito chão pela frente para,
concretamente, festejarmos. Para abandonarmos esta experiência
subdesenvolvida e dependente do capital estrangeiro. Assim,
através dessas prestidigitações todas do sistema contábil concluo
que somos, no frigir dos ovos, efetivamente, credores endividados.
É menos propagandístico sim, mas é mais honesto.
São Paulo, 29 de fevereiro de 2008.
Prof. José de Almeida
Amaral Júnior
Professor universitário em Ciências
Sociais, Economista, pós-graduado em Sociologia e mestre em
Políticas de Educação, Colunista do Jornal Cantareira, Colunista
pela Pascom na Rádio 9 de Julho Am 1600 Khz e escreve semanalmente para o Mundo Lusíada
Online.
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