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Há mais de 200 anos, nas ilhas da
Grã-Bretanha, iniciou-se o processo de industrialização. A
revolução marcava nova etapa para o capitalismo que se fortalecia.
Nessa época, grandes quantidades de trabalhadores, expulsos do
campo, rumaram para as cidades a fim de venderem sua força de
trabalho como meio último de sobrevivência. A opressão era intensa
sobre mulheres, homens e crianças em jornadas de 16 horas por dia
sob condições insalubres, sem proteção legal, em absoluta falta de
dignidade.
Uma imensa crueldade. Ao longo do tempo,
enquanto a indústria se espalhava por outros cantos do mundo, essa
classe operária passou a se defender, a organizar cada vez mais
sindicatos e partidos políticos para unirem-se e mudarem as
péssimas condições vivenciadas. O 1º de Maio surgiu como homenagem
a essas lutas depois da greve dos trabalhadores de Chicago, em
1886, objetivando a redução para 8 horas diárias entre outras
coisas. E foram duramente reprimidos. Mas, desde lá, com bastante
tenacidade, muitas conquistas vieram e amenizaram a brutal
situação a favor dos trabalhadores. E, nem por isso o capitalismo
faliu. Continua vivo e explorador como sempre, gerando enormes
riquezas, concentradas nas mãos de poucos.
De acordo com a revista Forbes, março de
2007, o patrimônio dos bilionários saltou de US$ 2,6 trilhões em
2005 para US$ 3,5 trilhões em 2006, ou seja, 35% de aumento para
uma economia mundial que cresceu 5 vezes menos. Paralelamente, há
um ano a OIT registrou que em 2006 existiam 195,2 milhões de
pessoas sem ocupação e, na faixa acima dos 15 anos, estimou-se que
86,3 milhões de jovens queriam, poderiam trabalhar e não
encontravam emprego, representando cerca de 44% de todos os
desempregados do globo. E mais: cerca de 1,37 bilhão de
trabalhadores viviam com menos de US$ 2 por dia no mundo, onde a
produtividade aumentou 26% na última década, enquanto a criação de
empregos cresceu só 16,6% (OIT).
No Brasil, a realidade também não é
muito diferente. Apresenta, na citada lista da Forbes, 20
bilionários. Do outro lado, em 2005 o Brasil tinha 36,3% de sua
população em situação de pobreza e 10,6% em situação de indigência
(CEPAL). A massa continua em sua maioria na base do pão e água.
Embora a taxa de desemprego em 2007
tenha sido por aqui a menor desde 1998 - ficou em 15,5% (DIEESE) -
contudo, o nosso estoque de mão de obra na informalidade ou no
desalento é muito grande. Da população economicamente ativa, 46,5
milhões, isto é, 57%, são trabalhadores que não contam com
proteção trabalhista nem previdenciária. Por isso as centrais
sindicais decidiram enfrentar no Congresso Federal o patronato
pela redução da atual jornada de 44 para 40 hs.
Cálculos do DIEESE estão sendo usados
como referência. Eles mostram que a taxa de lucro das empresas
aqui - 29% em 2005 - é muito superior à de outros países. Assim,
uma redução de 4 horas abriria as portas para mais de 2 milhões de
empregos e o fim das horas-extras outro 1,2 milhão. Isso daria
chances para uma melhor condição de vida do trabalhador – estudos,
menor estresse etc – bem como fortaleceria a Previdência Social,
elevando o nº de contribuintes. E não sufocaria o lucro das
empresas.
Afinal, segundo estudo do Depto. do
Trabalho dos EUA, o Brasil em 2005 era um dos países com a mão de
obra mais barata. Os ganhos de produtividade vêm beneficiando
apenas os empresários. Aliás, esta idéia ganha força no momento
também em que o país interessa-se em assinar a Convenção 158 da
OIT onde fica impedida a demissão imotivada de trabalhadores, não
devendo alterar os direitos já existentes como indenização, FGTS e
multa de 40%.
Pensar na proposta da redução da jornada
de trabalho com manutenção salarial é uma discussão muito bem
vinda. Deve ajudar a estimular o debate sobre outras questões
contemporâneas, incluindo a redução da carga tributária sobre o
trabalho. A sociedade brasileira precisa se aperfeiçoar. Ouvir as
reivindicações dos setores mais carentes e buscar soluções mais
democráticas, ou seja, em direção ao interesse da grande maioria
da população. Precisamos dividir para equilibrar mais. Uma
valorização do trabalho em relação ao capital é um passo muito
interessante num país com tantos contrastes sociais.
São Paulo, 17 de fevereiro de 2008.
Prof. José de Almeida
Amaral Júnior
Professor universitário em Ciências
Sociais, Economista, pós-graduado em Sociologia e mestre em
Políticas de Educação, Colunista do Jornal Cantareira, Colunista
pela Pascom na Rádio 9 de Julho Am 1600 Khz e escreve semanalmente para o Mundo Lusíada
Online.
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