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Por Prof.José de Almeida Amaral Júnior*


Domingo | 06 JAN 08

Notas Quotidianas: Economia, Cultura e Sociedade | 200 Anos
José Maurício, Gênio mulato em Corte Escravocrata

D. João decidiu zarpar de Lisboa levando consigo cerca de 15 mil pessoas para salvar o governo - e, por conseguinte, sua pele e da família real - do ataque ordenado por Napoleão Bonaparte em meio ao difícil quadro geopolítico europeu em novembro de 1807. Após 54 dias de travessia chegou ao Brasil, domínio de exploração desde 1500, considerado então naquele momento um porto seguro contra as ofensivas francesas. Uma nova vida, assim, tomou conta da antiga colônia. Especialmente da cidade do Rio, que se tornou sede da Monarquia e do Império. Muitas riquezas, além das madeiras, minérios e impostos, havia por estes lados. E elas foram se revelando à corte. É o caso da história do magnífico José Maurício Nunes Garcia.

Quando da chegada da realeza à antiga Terra de Santa Cruz, vivia na capital José Mauricio. Desde 1798 ele era o Mestre da Capela da Sé. Talentoso como instrumentista e compositor foi logo apresentado ao então Príncipe-Regente D. João. Este, após conhecê-lo, não demorou a se tornar um admirador. Conta-se que ao ouvi-lo o soberano emocionado arrancou a comenda de um nobre que estava próximo e a pregou na batina do músico. Ele tornava-se a primeira figura historicamente de relevo da musica brasileira.

Filho de Vitória Maria da Cruz e do pardo forro Apolinário Nunes Garcia, José Maurício nasceu no Rio de Janeiro, em 22 de setembro de 1767. Órfão de pai aos seis anos, passou a ser criado pela mãe e uma tia, filhas de escravos com dificuldades. Desde pequeno demonstrou grande interesse pelo mundo da música. Brincava de criar instrumentos, com os quais tirava sons. Cantava modinhas ao som da viola e se tornou muito querido dos que viviam próximos a sua família. Ouvia o canto dos escravos e os coros da igreja falados em latim. Teve aulas com o músico mineiro Salvador José de Almeida Faria. Sua memória e ouvidos apurados eram impressionantes. Com 12 anos já estava ensinando. Freqüentava casas de famílias abastadas, onde podia tocar cravo e piano, instrumentos muito caros e que jamais possuiu. Em 1783 compôs sua primeira obra, a antífona “Tota Pulchra es Maria”. Aos 17 anos ingressou na Irmandade de Sta. Cecília sendo reconhecido oficialmente professor de música. Numa casa que lhe foi doada na Rua das Marrecas, ele durante 28 anos lecionou. Entre seus alunos estiveram d. Pedro I e Francisco Manuel da Silva, autor do Hino Nacional. Fortaleceu sua carreira, além de compositor e professor, também como regente. Porém, paralelo à vida musical, José Maurício igualmente estaria se dedicando ao ofício religioso. Embora, para isso, tivesse que receber de um vizinho, Tomás Gonçalves, uma casa de presente.

Na qualidade de dote, a moradia foi entregue à Igreja. Tornou-se padre em 1792. Como membro das camadas mais pobres, com muitas dificuldades, isto lhe possibilitou ampliar e consolidar uma base intelectual, estudando filosofia, línguas estrangeiras, além de música, podendo tomar contato com as obras de Haydn, Mozart e Beethoven. Escreveria o “Compêndio de Musica” e o “Método de Pianoforte”.

Assim conta o pesquisador Bruno Kiefer:

"Quando o regente D. João desembarcou no Rio, no dia 08 de março de 1808, e assistiu ao solene Te Deum na Catedral (na Irmandade N. S. do Rosário), teve uma surpresa: a realização musical excedia em muito o que se podia esperar numa colônia de Portugal. Era mestre-de-capela e compositor titular o Pe. José Maurício Nunes Garcia. A partir deste momento, o apreço e a amizade de D. João não mais abandonariam o compositor." (Kiefer, Bruno. História da Música Brasileira, Ed. Movimento).

D. João era um apaixonado por música. Adorava missas cantadas, solenes, com muitos cantores e instrumentistas. Logo organizou a Capela Real na Igreja do Carmo e José Maurício foi indicado para o cargo de Mestre de Capela, contrariando as intenções dos membros do clero que não aprovavam o mulato – ‘um defeito de nascença’ - em tal posição. Apesar disso, ele ali ficou por 3 anos, sofrendo muitas dificuldades devido aos preconceitos. Porém, ainda assim, o contato com musicistas de ofício ‘importados’ lhe permitiu conhecer as novidades que aconteciam em termos de composições no Velho Mundo. Produziu próximo a 70 obras e dirigiu as atividades da corte. Sigismund Neukomm, aluno de Haydn que viveu no Brasil entre 1816 e 1821, descreveu o pe. José Maurício como "o primeiro improvisador do mundo".

A questão racial, todavia, foi ainda mais escancarada com a chegada em 1811 do músico Marcos Antonio Portugal, a convite de da. Carlota Joaquina, para irritar seu marido, protetor do carioca José Mauricio. Talentoso, Marcos Portugal era o músico luso mais reconhecido dentro e fora de seu país. Conta sobre o encontro de ambos o historiador Luiz Heitor Azevedo:

“Segundo Visconde de Taunay: "É marcada para o dia seguinte a entrevista dos dois músicos. Portugal traz uma das sonatas de Haydn com a qual pretende embaraçar nosso compositor. Convidado a executá-la, José Maurício senta-se ao piano. O outro lhe pergunta se já ouvira falar em tal autor e muito se admira quando José Maurício declara que conhece quase todas as obras de Haydn, que era um de seus autores predileto; ignorava ainda aquela sonata. Dona Carlota intervém, e o padre, inseguro a princípio e trêmulo, começa a decifrar a página aberta na estante. Era assombrosa a sua facilidade de leitura à primeira vista, assim como seus dons de improvisador. Com toda a vivacidade e riqueza de colorido, cada vez mais senhor de si, ele termina, afinal, a sonata, arrebatando o pequeno auditório e o próprio Marcos Portugal, que o abraça declarando-o seu irmão na arte e dizendo-lhe que espera ter nele um amigo".”  (Azevedo, Luiz Heitor C. de. 150 anos de Música no Brasil 1800-1950. Rio de Janeiro: José Olympio, 1956. Coleção Documentos Brasileiros, v. 87, p.37)

A convivência de José Mauricio com os músicos da Corte foi difícil. Logo Marcos Portugal foi nomeado Mestre da Capela Real. Aos poucos o brasileiro perdia seu status junto à nobreza e ao alto clero que conseguiam, assim, afasta-lo diminuindo também as execuções de suas composições nas cerimônias oficiais. Criticavam a sua falta de experiência no exterior e sua formação sem conservatórios. Escreveu Vasco Mariz:
 

“Pe. José Maurício tinha uma vida pessoal um tanto complicada: "Enquanto D. João precisou de José Maurício para dirigir a Capela Real, ele teria tolerado esta situação embaraçosa, mas ao chegar Marcos Portugal de Lisboa em 1811, é possível que o relativo ostracismo do compositor não tenha sido motivado apenas pela campanha contra ele movida pelo músico português, mas também pelo fato de que o padre mestre da Capela Real, além de brasileiro e mulato, já tinha então três filhos. O rival pode ter usado este argumento junto ao monarca tão religioso, na corte tão lusófila." ” (Mariz, Vasco. História da Música no Brasil. Rio de Janeiro : Civilização Brasileira; Brasília: INL, 1981)

Para o compositor Ernani Aguiar, professor de regência da Escola de Música da UFRJ e membro da Academia Brasileira de Música, o padre José Maurício foi o maior compositor das Américas em sua época. Sempre muito laborioso começou, entretanto, a sentir problemas de saúde com o abandono que passou a sofrer. Tendo dificuldades em receber em dia seus direitos, no entanto, pagava com correção aos músicos que contratava, o que piorava suas finanças, provocando dívidas. Chegou a hipotecar sua casa por causa delas.

Com a partida de d. João VI, a Independência e, depois, o falecimento do antigo protetor, caiu sobre o sempre humilde pe. José Maurício uma grande melancolia. Em 1826 escreveu sua última peça: “Missa para Sta. Cecília”. Sua criatividade se esgotou após, estima-se, cerca de 400 trabalhos, muitos desaparecidos. Perdeu sua pensão e fecharam seu curso. Teve que lavar, costurar e cozinhar para sobreviver. Em 18 de abril de 1830 na sua cidade natal, Rio de Janeiro, de onde nunca saiu, deitou-se cantando o hino de Nossa Senhora, conforme relatou José Maurício Nunes Garcia Filho, para nunca mais se levantar.

A obra de José Maurício Nunes Garcia estimulou Carlos Gomes, que tocou fundo Villa-Lobos e este influenciou Tom Jobim entre outros. São sementes que o mestre mulato semeou e o tempo faz colher. Genialidade não escolhe berço ou cor de pele. É preciso reverenciar seu trabalho. A propósito: quantos José Maurício não estarão neste exato momento, pleno século XXI, sendo desperdiçados pela vida afora por falta de amparo, de oportunidades, de dignidade?

S. Paulo, 6 de janeiro de 08. Dia de Reis.

Saiba mais em http://www.bn.br/fbn/musica/pdejosemauricio/pdejosemauricio.htm.
Há obras disponíveis no site http://www.acmerj.com.br.
Para ouvir, por exemplo, procurar os CDs do Acervo Funarte; pela Paulus o “Officium 1816”, com a Camerata Novo Horizonte de São Paulo e pela Eldorado dois volumes da “História da Música Brasileira” com o coro Vox Brasiliensis contendo algumas peças sacras e outras seculares do músico carioca.

Prof. José de Almeida Amaral Júnior
Professor universitário em Ciências Sociais, Economista, pós-graduado em Sociologia e mestre em Políticas de Educação, Colunista do Jornal Cantareira, Colunista pela Pascom na Rádio 9 de Julho Am 1600 Khz e escreve semanalmente para o Mundo Lusíada Online.


 

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