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D. João decidiu zarpar de Lisboa levando
consigo cerca de 15 mil pessoas para salvar o governo - e, por
conseguinte, sua pele e da família real - do ataque ordenado por
Napoleão Bonaparte em meio ao difícil quadro geopolítico europeu
em novembro de 1807. Após 54 dias de travessia chegou ao Brasil,
domínio de exploração desde 1500, considerado então naquele
momento um porto seguro contra as ofensivas francesas. Uma nova
vida, assim, tomou conta da antiga colônia. Especialmente da
cidade do Rio, que se tornou sede da Monarquia e do Império.
Muitas riquezas, além das madeiras, minérios e impostos, havia por
estes lados. E elas foram se revelando à corte. É o caso da
história do magnífico José Maurício Nunes Garcia.
Quando da chegada da realeza à antiga
Terra de Santa Cruz, vivia na capital José Mauricio. Desde 1798
ele era o Mestre da Capela da Sé. Talentoso como instrumentista e
compositor foi logo apresentado ao então Príncipe-Regente D. João.
Este, após conhecê-lo, não demorou a se tornar um admirador.
Conta-se que ao ouvi-lo o soberano emocionado arrancou a comenda
de um nobre que estava próximo e a pregou na batina do músico. Ele
tornava-se a primeira figura historicamente de relevo da musica
brasileira.
Filho de Vitória Maria da Cruz e do
pardo forro Apolinário Nunes Garcia, José Maurício nasceu no Rio
de Janeiro, em 22 de setembro de 1767. Órfão de pai aos seis anos,
passou a ser criado pela mãe e uma tia, filhas de escravos com
dificuldades. Desde pequeno demonstrou grande interesse pelo mundo
da música. Brincava de criar instrumentos, com os quais tirava
sons. Cantava modinhas ao som da viola e se tornou muito querido
dos que viviam próximos a sua família. Ouvia o canto dos escravos
e os coros da igreja falados em latim. Teve aulas com o músico
mineiro Salvador José de Almeida Faria. Sua memória e ouvidos
apurados eram impressionantes. Com 12 anos já estava ensinando.
Freqüentava casas de famílias abastadas, onde podia tocar cravo e
piano, instrumentos muito caros e que jamais possuiu. Em 1783
compôs sua primeira obra, a antífona “Tota Pulchra es Maria”. Aos
17 anos ingressou na Irmandade de Sta. Cecília sendo reconhecido
oficialmente professor de música. Numa casa que lhe foi doada na
Rua das Marrecas, ele durante 28 anos lecionou. Entre seus alunos
estiveram d. Pedro I e Francisco Manuel da Silva, autor do Hino
Nacional. Fortaleceu sua carreira, além de compositor e professor,
também como regente. Porém, paralelo à vida musical, José Maurício
igualmente estaria se dedicando ao ofício religioso. Embora, para
isso, tivesse que receber de um vizinho, Tomás Gonçalves, uma casa
de presente.
Na qualidade de dote, a moradia foi
entregue à Igreja. Tornou-se padre em 1792. Como membro das
camadas mais pobres, com muitas dificuldades, isto lhe
possibilitou ampliar e consolidar uma base intelectual, estudando
filosofia, línguas estrangeiras, além de música, podendo tomar
contato com as obras de Haydn, Mozart e Beethoven. Escreveria o
“Compêndio de Musica” e o “Método de Pianoforte”.
Assim conta o pesquisador Bruno Kiefer:
"Quando o regente D. João desembarcou
no Rio, no dia 08 de março de 1808, e assistiu ao solene Te Deum
na Catedral (na Irmandade N. S. do Rosário), teve uma surpresa: a
realização musical excedia em muito o que se podia esperar numa
colônia de Portugal. Era mestre-de-capela e compositor titular o
Pe. José Maurício Nunes Garcia. A partir deste momento, o apreço e
a amizade de D. João não mais abandonariam o compositor." (Kiefer,
Bruno. História da Música Brasileira, Ed. Movimento).
D. João era um apaixonado por música.
Adorava missas cantadas, solenes, com muitos cantores e
instrumentistas. Logo organizou a Capela Real na Igreja do Carmo e
José Maurício foi indicado para o cargo de Mestre de Capela,
contrariando as intenções dos membros do clero que não aprovavam o
mulato – ‘um defeito de nascença’ - em tal posição. Apesar disso,
ele ali ficou por 3 anos, sofrendo muitas dificuldades devido aos
preconceitos. Porém, ainda assim, o contato com musicistas de
ofício ‘importados’ lhe permitiu conhecer as novidades que
aconteciam em termos de composições no Velho Mundo. Produziu
próximo a 70 obras e dirigiu as atividades da corte. Sigismund
Neukomm, aluno de Haydn que viveu no Brasil entre 1816 e 1821,
descreveu o pe. José Maurício como "o primeiro improvisador do
mundo".
A questão racial, todavia, foi ainda
mais escancarada com a chegada em 1811 do músico Marcos Antonio
Portugal, a convite de da. Carlota Joaquina, para irritar seu
marido, protetor do carioca José Mauricio. Talentoso, Marcos
Portugal era o músico luso mais reconhecido dentro e fora de seu
país. Conta sobre o encontro de ambos o historiador Luiz Heitor
Azevedo:
“Segundo Visconde de Taunay: "É
marcada para o dia seguinte a entrevista dos dois músicos.
Portugal traz uma das sonatas de Haydn com a qual pretende
embaraçar nosso compositor. Convidado a executá-la, José Maurício
senta-se ao piano. O outro lhe pergunta se já ouvira falar em tal
autor e muito se admira quando José Maurício declara que conhece
quase todas as obras de Haydn, que era um de seus autores
predileto; ignorava ainda aquela sonata. Dona Carlota intervém, e
o padre, inseguro a princípio e trêmulo, começa a decifrar a
página aberta na estante. Era assombrosa a sua facilidade de
leitura à primeira vista, assim como seus dons de improvisador.
Com toda a vivacidade e riqueza de colorido, cada vez mais senhor
de si, ele termina, afinal, a sonata, arrebatando o pequeno
auditório e o próprio Marcos Portugal, que o abraça declarando-o
seu irmão na arte e dizendo-lhe que espera ter nele um amigo".”
(Azevedo, Luiz Heitor C. de. 150 anos de Música no Brasil
1800-1950. Rio de Janeiro: José Olympio, 1956. Coleção Documentos
Brasileiros, v. 87, p.37)
A convivência de José Mauricio com os
músicos da Corte foi difícil. Logo Marcos Portugal foi nomeado
Mestre da Capela Real. Aos poucos o brasileiro perdia seu status
junto à nobreza e ao alto clero que conseguiam, assim, afasta-lo
diminuindo também as execuções de suas composições nas cerimônias
oficiais. Criticavam a sua falta de experiência no exterior e sua
formação sem conservatórios. Escreveu Vasco Mariz:
“Pe. José Maurício tinha uma vida
pessoal um tanto complicada: "Enquanto D. João precisou de José
Maurício para dirigir a Capela Real, ele teria tolerado esta
situação embaraçosa, mas ao chegar Marcos Portugal de Lisboa em
1811, é possível que o relativo ostracismo do compositor não tenha
sido motivado apenas pela campanha contra ele movida pelo músico
português, mas também pelo fato de que o padre mestre da Capela
Real, além de brasileiro e mulato, já tinha então três filhos. O
rival pode ter usado este argumento junto ao monarca tão
religioso, na corte tão lusófila." ” (Mariz, Vasco. História
da Música no Brasil. Rio de Janeiro : Civilização Brasileira;
Brasília: INL, 1981)
Para o compositor Ernani Aguiar,
professor de regência da Escola de Música da UFRJ e membro da
Academia Brasileira de Música, o padre José Maurício foi o maior
compositor das Américas em sua época. Sempre muito laborioso
começou, entretanto, a sentir problemas de saúde com o abandono
que passou a sofrer. Tendo dificuldades em receber em dia seus
direitos, no entanto, pagava com correção aos músicos que
contratava, o que piorava suas finanças, provocando dívidas.
Chegou a hipotecar sua casa por causa delas.
Com a partida de d. João VI, a
Independência e, depois, o falecimento do antigo protetor, caiu
sobre o sempre humilde pe. José Maurício uma grande melancolia. Em
1826 escreveu sua última peça: “Missa para Sta. Cecília”. Sua
criatividade se esgotou após, estima-se, cerca de 400 trabalhos,
muitos desaparecidos. Perdeu sua pensão e fecharam seu curso. Teve
que lavar, costurar e cozinhar para sobreviver. Em 18 de abril de
1830 na sua cidade natal, Rio de Janeiro, de onde nunca saiu,
deitou-se cantando o hino de Nossa Senhora, conforme relatou José
Maurício Nunes Garcia Filho, para nunca mais se levantar.
A obra de José Maurício Nunes Garcia
estimulou Carlos Gomes, que tocou fundo Villa-Lobos e este
influenciou Tom Jobim entre outros. São sementes que o mestre
mulato semeou e o tempo faz colher. Genialidade não escolhe berço
ou cor de pele. É preciso reverenciar seu trabalho. A propósito:
quantos José Maurício não estarão neste exato momento, pleno
século XXI, sendo desperdiçados pela vida afora por falta de
amparo, de oportunidades, de dignidade?
S. Paulo, 6 de janeiro de 08. Dia de
Reis.
Saiba mais em http://www.bn.br/fbn/musica/pdejosemauricio/pdejosemauricio.htm.
Há obras disponíveis no site http://www.acmerj.com.br.
Para ouvir, por exemplo, procurar os CDs do Acervo Funarte; pela
Paulus o “Officium 1816”, com a Camerata Novo Horizonte de São
Paulo e pela Eldorado dois volumes da “História da Música
Brasileira” com o coro Vox Brasiliensis contendo algumas peças
sacras e outras seculares do músico carioca.
Prof. José de Almeida
Amaral Júnior
Professor universitário em Ciências
Sociais, Economista, pós-graduado em Sociologia e mestre em
Políticas de Educação, Colunista do Jornal Cantareira, Colunista
pela Pascom na Rádio 9 de Julho Am 1600 Khz e escreve semanalmente para o Mundo Lusíada
Online.
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