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12/DEZ/2007
IDH/ONU
As Estatísticas Enganam
Podemos considerar o Brasil um país
onde sua população em geral vive bem? De acordo com o ranking do
Índice de Desenvolvimento Humano – IDH criado pela ONU há 25 anos
e que mede a qualidade das condições com base em indicadores de
educação (alfabetização e taxa de matrícula), longevidade
(expectativa de vida ao nascer) e renda (PIB per capita), a partir
de 2005 os brasileiros passaram a fazer parte das nações com
situações satisfatórias de existência. A fina flor internacional.
Foi a primeira vez que isso aconteceu e, basicamente, deu-se por
conta do aumento na expectativa de vida da população. Em 2004, ela
era de 71,5 anos e foi para 71,7 anos em 2005. A renda per capita
do brasileiro também ajudou. Em 2004, o PIB (Produto Interno
Bruto) per capita era de US$ 8,325, passou para US$ 8,402 no ano
seguinte. E a taxa brasileira de matrículas (pessoas de 6 a 22
anos do fundamental ao superior) foi de 87,5% enquanto a de
alfabetização dos adultos (acima de 15 anos) ficou em 88,6%. Isto
reflete, sem dúvida, as políticas públicas praticadas pelo governo
como o Bolsa Família e a estabilidade econômica. Mas, antes de
muita euforia, para se ter uma idéia, nossos vizinhos como a
Argentina (38ª), Chile (40ª) e Uruguai (46ª) estão melhores do que
nós, agora na 70ª colocação no IDH. Portugal, nossa ‘Pátria Mãe’,
ocupa a 29ª posição. Os melhores são Islândia em primeiro lugar,
seguida por Noruega, Austrália e Canadá. É uma estatística. Porém,
não dá para crer que nosso povo, de fato, esteja sendo
privilegiado de tempos para cá. E é só prestarmos um pouquinho
mais de atenção em nossas ruas. Ou observarmos outros estudos.
Por exemplo, o Banco Mundial publicou relatório mostrando que
entre 1985 e 2004 o número de pobres no país caiu: foi de 33% para
29%. Um desempenho qualificado por eles como ‘medíocre’. Como
assim? Mesmo com o fim da ditadura militar que durou mais de duas
décadas a redemocratização iniciada nos anos 80 não conseguiu
equilibrar até hoje as diferenças violentas de renda no país.
Fortes processos inflacionários, dívidas externa e interna e o
período do ‘neoliberalismo’ nos anos 90 resultaram em baixo
crescimento, prejudicando as possibilidades. Além disso, outro
caso, a Unesco, órgão da ONU para a Educação, Ciência e Cultura,
acaba de nos rebaixar na sua avaliação de qualidade. Estávamos na
72ª colocação e passamos para a 76ª entre 129 países pesquisados.
Os estudos se referem à meta de ‘Educação para Todos até 2015’
onde se pretende levar as crianças em massa ao ensino público,
aumentar os níveis de alfabetização, diminuir as desigualdades
educacionais entre os sexos e melhorar a qualidade da educação em
geral. Para se ter uma idéia, há por aqui 40% dos analfabetos
adultos da Am. Latina. E, de acordo com o Programa de Avaliação
Internacional de Estudantes, realizado pela Organização para a
Cooperação e o Desenvolvimento Econômico – OCDE, a nota média de
nossa elite, que está nas escolas particulares, é menor que a
média dos mais pobres dos países ricos. Um vexame. Na educação
fundamental, cerca de 20% dos 30 milhões de alunos estão em
escolas particulares. Já no ensino superior, a situação é inversa,
são 70% cursando universidades pagas, de um total de 4 milhões de
alunos. Ou seja, se nossa pequena parcela de abastados fica para
trás em relação aos países mais desenvolvidos, que dizer de nossos
milhões sem eira e nem beira?
Então, essa história de ‘fazermos parte do grupo em melhores
condições de vida’ não se traduz na prática. E, notem que nem
tocamos em outros campos como o caos da saúde, a violência urbana,
o déficit habitacional da população de baixa renda etc. As coisas
estão ainda e muito por serem feitas. Óbvio que há um progresso:
em 1980 o IDH era 0,68 e em 2005 chegamos a 0,80. Contudo, é tudo
muito lento.
Os 180 milhões de brasileiros ainda
apresentam uma imensa maioria que padece demais. Assim, para
permanecer apenas no campo da educação, é preciso arregaçar as
mangas e repensar o ensino, investir na formação dos professores,
pagar decentes salários, aparelhar melhor as unidades, criar
projetos pedagógicos estimulantes aos alunos para que eles se
sintam parte integrante e participativa da escola. Não há futuro
sem a qualidade de estudo. Não há equilíbrio social sem qualidade
de estudo ampla a toda sociedade. Oxalá 2008 estes textos
analíticos sejam menos desconfiados e mais exultantes.
São Paulo, 12 de dezembro de 2007.
José de Almeida
Amaral Jr.
Professor universitário em Ciências Sociais
Economista, pós-graduado em Sociologia e mestre em Políticas de
Educação
Colunista do Jornal Cantareira
Colunista pela Pascom na Rádio 9 de Julho Am 1600 Khz
Colaborador do Jornal Mundo Lusíada
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