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Notas Quotidianas » José de Almeida Amaral Jr.

08/DEZ/2007

 

Papai Noel

O Saco cheio do Verdadeiro ‘Bom Velhinho’

 

Em 6 de Novembro comemora-se o dia de São Nicolau, bispo de Mira, região da Ásia Menor, mais especificamente Turquia atual. Veio ao mundo durante o séc. III em Patara e morreu em 342. Personagem de muita popularidade tornou-se o padroeiro da Noruega, Rússia, Grécia e da cidade de Amsterdã, capital da Holanda. Sua memória é venerada por marinheiros, comerciantes e pelas crianças. Tem fama de ser casamenteiro. Há inúmeras histórias sobre ele. Não se sabe muito bem quais são lendas e quais são verdadeiras. Mas, certamente suas ações em benefício dos pobres, dos excluídos é que lhe valeu tamanha devoção.


Conta-se que em certa ocasião, na sua cidade de origem, um velho comerciante teve imensos prejuízos com seus negócios e faliu. Desesperado, com os cobradores ao seu encalço, cogitou lançar mão de uma lamentável probabilidade: usar da beleza de suas filhas para poder sobreviver. De algum modo Nicolau ficou sabendo das pretensões do homem. Sendo pessoa com posses, decidiu ajudar. Porém, de modo muito especial: para evitar publicidade e bajulações agiria secretamente. Aproveitando-se então do escuro da noite, atirou pela janela da infeliz família um saquinho com moedas de ouro. Aquele apoio possibilitou mudar o destino da garota mais velha que pode organizar enxoval e arrumar seu casamento. Pouco tempo depois o jovem Nicolau repetiu o gesto anterior para o contentamento daquele lar e solução para a filha do meio. Todavia, como eram três meninas, deveria posteriormente retornar e auxiliar a mais nova. Contudo, desta feita, ao arremessar as moedas, o velho pai estava de prontidão. Correu para alcançar seu amigo oculto. Ao encontrá-lo chorou arrependido, envergonhado de suas aspirações quanto ao destino das filhas. Com o decorrer do tempo os negócios voltaram a prosperar. Aquele comerciante imitou a ação de Nicolau e também passou a ajudar os pobres daquela cidade.


Outra passagem interessante diz que Nicolau, após a morte de seus pais, doou suas riquezas aos desvalidos e tornou-se padre, aspirando pregar o cristianismo mundo afora. Numa ocasião, viajando num barco de Patara rumo à Terra Santa, foi avisado em sonho de que haveria tempestade. Ele comunicou aos demais passageiros para vigiarem. E rezou. Com intensidade. Assim, aplacou a fúria dos ventos e das águas. Entretanto, alguém foi jogado ao mar e resgatado morto. Firme em sua fé fez reviver a pessoa através de nova intercessão divina.
Nicolau desejava distância dos homens, queria viver sua ascese no deserto. Mas, Deus lhe revelou que deveria voltar para sua região e continuar ajudando a coletividade. Sempre avesso às adulações ele retornou para uma cidade vizinha a sua, Mira, evitando maiores comentários sobre sua presença. Naqueles dias o cargo de bispo local vagou. As autoridades eclesiásticas não chegavam à conclusão sobre o sucessor. Ao mais velho do grupo, Deus se manifestou dizendo que deveria ser escolhido o primeiro homem que entrasse na igreja antes da missa matinal. Alertando aos demais do fato, ficaram todos esperando.

Na manhã seguinte, ao abrir as portas, o primeiro a pisar no recinto foi Nicolau. Embora não se sentisse apto para tão importante cargo, o assumiu e, então, abriu sua casa para os mendigos e órfãos. Segundo conta a tradição, vestia-se com simplicidade e alimentava-se apenas uma vez ao dia com o estritamente necessário. Participou dos debates do primeiro Concílio na cidade de Nicéia, em 325, convocado por Constantino, a respeito da duvida sobre a divindade de Cristo levantada pelo arianismo, atacando com veemência essa hipótese herege. Morreu idoso e cercado de reverência. Sua memória e eventos dos quais foi protagonista correu mundo com as narrativas dos marinheiros.


Muito tempo depois, já considerado santo e responsável por inúmeros milagres, São Nicolau acabou por inspirar a figura de Papai Noel e ganhou aspecto bonachão, corado, meio ‘arredondado’ desde 1822, devido a um poema do norte-americano Clement Clarke Moore publicado no “Jornal Sentinela”, de Nova York. Do mesmo texto saíram as 8 renas puxando o trenó e o saco cheio de presentes. Por volta de 1881 a revista “Harper’s Weekly” passou a publicar desenhos em preto e branco do cartunista alemão Thomas Nast que deu forma à descrição de Moore e sua poesia, acrescentando o cinturão e seu esforço em passar pelas chaminés das casas. Porém, em 1931, com uma empreitada publicitária para a marca Coca-Cola, Handdon Sundblom definiu a cor vermelha – que já havia sido vista em cartões – e adequou contorno branco ao personagem retratado por Nast. Sundblom pintou entre 1931 e 1966 as campanhas da empresa. E oficializou-se, assim, internacionalmente, a rubra imagem de Pai Natal, Santa Klaus ou Sinter Klaas em holandês. Tornou-se morador do Pólo Norte e a cada ano deixa lembranças para as crianças bem comportadas na passagem de 24 para 25 de Dezembro. Data, aliás, criada pelo Imperador Constantino em 353, aproveitando as festividades do “dia do nascimento do deus Sol” pagão.


Mais de 1500 anos depois de sua passagem por esta Terra o Bispo de Mira, irado, deve estar perguntando o que fizeram com sua opinião, com seu legado? Ele, que desejava tranqüilidade, meditação, desprendimento e pregou permanente apoio aos miseráveis, virou estímulo para o consumo, para os prazeres de possuir.

Metamorfosearam o sério Nicolau em garoto propaganda de mercadorias. Numa data que ele sequer chegou a conhecer! É um escárnio, uma desmoralização total. E, a propósito, afinal, por que mesmo é que as pessoas reunidas se empanturram e enchem a cara no jantar em plena Noite de Natal?


São Paulo, 8 de dezembro de 2007.

 

José de Almeida Amaral Jr.
Professor universitário em Ciências Sociais
Economista, pós-graduado em Sociologia e mestre em Políticas de Educação
Colunista do Jornal Cantareira
Colunista pela Pascom na Rádio 9 de Julho Am 1600 Khz
Colaborador do Jornal Mundo Lusíada

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