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21/OUT/2007
Meio Ambiente
Risco de Conflito Mundial pode surgir por
Disputas Ambientais
Seria cômico, se não fosse dramático.
Abrirmos jornais, revistas ou internet e vermos os sucessivos
anúncios de construtoras oferecendo paraísos particulares com
piscina, quadras, churrasqueira, salão de jogos etc. e,
especialmente, ‘área verde’ para os indivíduos comporem seus
mundos privados. Isto com bela foto, feita por ângulo muito
propício ou sob efeito de computador. Tudo para fisgar o
consumidor endinheirado com promessas rumo a uma vida mais
saudável, junto à natureza. Ar puro e passarinhos. Obtenção de um
refúgio. Uma ‘reserva particular’ em meio ao caos quotidiano da
metrópole. ‘A cidade está uma loucura? Não tem problemas: fuja
para um lote ou apartamento da construtora W. E esqueça o resto do
lado de fora do portão!’.
Sempre me vem à mente quando deparo com tais coisas os estudos do
geógrafo prof. Carlos Walter Porto-Gonçalves, da UFRJ. A certa
altura do livro O Desafio Ambiental, de 2004, ele escreve “a
extrema gravidade dos riscos que o planeta enfrenta contrasta com
as pífias e tímidas propostas do gênero ‘plante uma árvore’,
promova a ‘coleta seletiva de lixo’ ou ‘desenvolva o ecoturismo’”.
Podemos agregar aqui a referida especulação imobiliária com seus
bosques de meia dúzia de arvores.
O ser humano, soberbo, imodesto, prepotente, brande seu dinheiro,
seu conhecimento, sua tecnologia como se pudesse resolver com
estes ingredientes, quando bem entendesse, suas ações destrutivas
desenfreadas. Num estalar de dedos, ao bel prazer, consertar as
irresponsabilidades feitas. Novamente lembro prof. Porto-Gonçalves.
Diz assim: “essa crença ingênua no papel redentor da técnica é uma
invenção muito recente – da Revolução Industrial para cá – [...]
Esses últimos duzentos anos culminam, hoje, com a necessidade de
se repensar a relação da humanidade com o planeta. Vivemos a
sociedade de risco”. Mas, muitos teimosos não acreditam. Não
querem ver isso.
Em meio a tamanho bombardeio publicitário, escondeu-se entre as
páginas de ofertas neste final de semana passado a notícia de que
o IPCC - Painel Intergovernamental sobre a Mudança Climática,
vencedor do Nobel da Paz deste ano - nascido em 1988 e contando
com a presença de 130 países -, acaba de publicar o resumo de suas
pesquisas/2007. E as informações não são nada alvissareiras.
Frisam os cientistas o seguinte: “a mudança climática antrópica -
causada pela atividade do homem - e suas conseqüências podem ser
repentinas e irreversíveis". Eles concluem que haverá um aumento
da temperatura mundial de 1,1ºC a 6,4ºC em relação ao período
1980-1999 antes de 2100, com um valor médio compreendido entre
1,8ºC e 4ºC. O aumento das temperaturas, a alta dos oceanos, a
multiplicação das ondas de calor e derretimento da camada de gelo
são resultados das emissões de gases que ampliam o chamado efeito
estufa. Como resultado, uma alta de dois graus da temperatura
média do planeta marcará a extinção de 30% das espécies e uma
grande queda da oferta agrícola. O derretimento das camadas
polares pode fazer com que os oceanos se elevem entre 18 cm e 58
cm até 2100. Com isto, inúmeras ilhas e populações litorâneas
correm riscos. Aumentariam as migrações devido às fugas. Entre
outras coisas. Há várias implicações.
No entanto, para diminuir os efeitos
previstos, sugerem um investimento na ordem de 3% do PIB mundial
objetivando conter as emissões de carbono nos próximos 23 anos.
Para início imediato. Urgente. Mesmo assim, com todo esse quadro
de ameaças, muitos torcem o nariz para ‘tamanho dispêndio’. Aliás,
de acordo com o secretário-executivo da Convenção da ONU para a
Mudança Climática, Yvo de Bôer, indústrias no mundo estão emitindo
carbono na atmosfera em níveis nunca antes registrados. Os Estados
Unidos, que não ratificaram o Protocolo de Kyoto, aumentaram mais
de 16% as emissões entre 1990 e 2005.
Nós, brasileiros, embora tenhamos a bem pouco tempo nos tornado
industrializados, isto em relação aos pioneiros como Inglaterra,
França, Alemanha entre outras potências, contribuímos bastante com
a degradação por conta do desmatamento e das queimadas em nossas
matas. A primeira causa apontada é a queima de combustíveis
fósseis (56,6%). O desflorestamento é a segunda causa de emissões
de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera, respondendo por 17,3%
das emissões, segundo o IPCC. O volume de carbono emitido no
Brasil por indústrias, veículos, usinas de eletricidade e outros
cinco setores cresceu entre 1994 e 2005 em uma média de 3,4%. As
fronteiras agrícolas e pastagens auxiliam nessa crise.
Permanecendo essa deterioração, as regiões mais quentes teriam
fortes impactos. Até 2080 a Amazônia pode perder entre 10 e 25% da
floresta e o nordeste acentuar sua aridez, rareando até 75% de
suas fontes de água. E, a propósito, esse líquido, tão precioso e
escasso, tem 45% de seu uso desperdiçado nas capitais brasileiras
a partir de sua saída dos mananciais. São Paulo, a maior cidade do
país, perde hoje cerca de 30%. E há tanta sede existindo pela
Terra: 1,2bilhão de pessoas sem água potável (ONU/2007).
Toda essa brincadeira causa preocupação entre estudiosos. Nos EUA
o Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS, na
sigla em inglês) e o Centro para uma Nova Segurança nos Estados
Unidos (CNAS, em inglês) publicaram relatório onde consta que a
mudança climática não é somente um risco para o meio ambiente. É
também para a paz no planeta. No Reino Unido as questões
ambientais igualmente já são apontadas como causadoras de um
possível conflito internacional. Temores de invasões de refugiados
e lutas por recursos hídricos, alimentares ou de matéria prima
para produção podem ser os detonadores dessas disputas. Apenas
para lembrar, o Brasil é o grande reservatório de água potável do
mundo (11,6% de toda a água doce e o maior reservatório de água
subterrânea do globo, o Sistema Aqüífero Guarani). São necessárias
1.000 toneladas de água para produzir 1 tonelada de grãos. Qual
será a atitude das grandes potências para conosco quando estiverem
com seus reservatórios vazios? E assim caminha a humanidade...
Não jogar lixo pelas ruas, plantar árvores, manter espaços com
terra a céu aberto e coisas afins são atitudes obrigatórias,
contudo não bastam. É preciso uma ação geral para mudar a visão de
mundo exploratória, sem noção, inconseqüente, que temos. Não somos
Deus. Falhamos e muito. Falta-nos humildade para nos encontrar
dentro da natureza, como parte integrante dela, dependentes dela.
Ações isoladas não funcionam. É preciso mobilizações gerais,
coletivas. Pressão sobre os governos. E um novo modo de produção,
mais solidário e sustentável.
Quando se esgotarem os recursos do ambiente, o calor for infernal
e o ar irrespirável, de que adiantarão os altos muros? Os
bairros-feudos? As vigilâncias eletrônicas? O que inventarão os
negociantes para os privilegiados? Estações orbitais?
São Paulo, 21 de novembro de 07.
José de Almeida
Amaral Jr.
Professor universitário em Ciências Sociais
Economista, pós-graduado em Sociologia e mestre em Políticas de
Educação
Colunista do Jornal Cantareira
Colunista pela Pascom na Rádio 9 de Julho Am 1600 Khz
Colaborador do Jornal Mundo Lusíada
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