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Notas Quotidianas » José de Almeida Amaral Jr.

23/OUT/2007

 

Preconceito Racial

Democracia nos EUA custa a funcionar para seus Cidadãos Negros

 

Vários fatos em evidência. Havia a notícia do bate-boca entre o presidente Hugo Chávez da Venezuela e o rei Juan Carlos da Espanha. Envolvia a figura – ausente no local - do ex-premiê José Maria Aznar. Foi chamado pelo mandatário sul-americano de fascista e acusado de apoiar a tentativa de Golpe de Estado sobre seu governo em 2002. O monarca não gostou das considerações pouco elogiosas sobre seu compatriota e disparou: “por que você não se cala?” Tudo em meio ao encerramento da 17ª Cúpula Ibero-Americana, em Santiago do Chile. Rendeu muitos comentários, inevitavelmente. Também as descobertas de gás natural e petróleo nas profundezas marítimas da nossa plataforma continental ocupavam espaço na mídia – e permanecem – por debater como serão feitas as explorações, seus custos e potenciais para a autonomia do país. Questões energéticas estão na pauta do dia. Ou ainda a denúncia do esquema de corrupção do ‘valerioduto’ que, enfim, chega às suas origens tão escamoteadas. E envolve o tucanato de Minas Gerais, na época da presidência de FHC, beneficiando o atual senador Eduardo Azeredo que desejava se reeleger para o executivo estadual naqueles idos de 1998. As raízes do famoso ‘mensalão’ que saiu das sombras apenas no governo Lula. Uma vergonha atingindo ainda mais nossos representantes políticos que vão perdendo sucessivamente o pouco do respeito público que lhes resta. Nada positivo para um sistema democrático. E por aí adiante. Talvez por conta destes entre outros fatos uma notícia que me parece muito relevante foi praticamente ignorada: um estudo publicado pelo Projeto Mobilidade Econômica, envolvendo 4 organizações não governamentais dos EUA, aponta que existe naquele país um processo de abismo social que se amplifica. E trata-se aqui da mais poderosa nação do mundo, com um PIB de US$ 12,4 tri em 2005.


Segundo o relato feito pela correspondente da Folha em Nova York a referida pesquisa revela que 69% das famílias negras de classe média despencam na escala social contra apenas 32% das brancas. E esta denuncia se agrava pelo seguinte dado: dois terços das pessoas nascidas no início dos anos 60 ganham mais, atualmente, que seus pais naquele período. Ou seja: chances de subida existem. Se não acontecem para os não brancos é porque há distorções. Paira no ar a dúvida: é racismo?


Entre crianças pobres, a perspectiva de ascensão fica assim dividida: 69% para as brancas e 46% para as negras. Por outro lado, a possibilidade de cair é 10% para as brancas contra 27% para as negras.


Famílias de classe média negras têm maior dificuldade em manter seu padrão de consumo. Crianças negras têm chance de recuar nas faixas de renda numa proporção de 69% dos casos. Para a mesma faixa entre as famílias brancas a probabilidade é de 32%. Já a chance de elevação de renda ao longo do tempo fica apenas 17% entre os negros e 37% para as famílias brancas. A matéria aponta que no topo da escala sócio-econômica não há um número mínimo satisfatório de famílias negras para avaliação.


As taxas de desemprego e a média dos salários pagos denunciam as dificuldades por que passam os afro-descendentes naquela nação, propalada como ‘a maior democracia do mundo’. Embora a economia norte-americana não esteja brilhante, como décadas atrás, o impacto sobre a renda revela que para a média da população branca houve estagnação. Para os negros, queda. E a compensação se deu com a entrada da mão de obra feminina no mercado de trabalho.


Nos últimos anos o governo dos EUA tem feito ações afirmativas para tentar minimizar o cenário. Porém, por enquanto, não há como avaliar o quanto isto tem beneficiado a população negra no país. De qualquer maneira, o investimento na educação da população mais carente é um instrumento precioso, avaliam os especialistas.


A Folha noticia que levantamento de opinião feito pelo Instituto Pew aponta que a maioria dos negros sente terem pioradas as relações raciais nos últimos 5 anos. E também não vêem perspectivas de melhoras imediatas. Esta sensação, pasmem, é pior agora que durante o governo neoliberal de Reagan, quando se ‘enxugavam’ verbas para políticas sociais. Um quinto dos entrevistados vislumbra melhora. Naquele momento eram 57%. O Censo 2000 entre os estadunidenses indica que a população negra cresceu quase três vezes mais do que a branca nos dez anos anteriores. Os americanos que se descreveram como negros somaram cerca de 13% dos habitantes dos EUA.


Apenas para lembrar, inclusive porque estamos há apenas 3 dias passados da data comemorativa da Consciência Negra no Brasil, por aqui, conforme pesquisas da UFRJ, entre 1999 e 2005, a situação também é desagradável. As principais causas de mortalidade de homens negros são externas como, por exemplo, homicídios. Já os brancos morrem mais por doenças. A Fundação SEADE, referente ao período outubro 2006/setembro 2007, mostra que o desemprego também é maior entre os negros (18,1%) na comparação com os não-negros (13,2%). Os negros correspondem a algo em torno de 36% da população em idade ativa na Grande São Paulo. Entre os empregados domésticos, 54,9% são negros e pardos e 45,1% são não-negros. Na construção civil os negros representam 49,4% e os não-negros são 50,6%. Entre os empregados em geral, 65,1% são brancos e 34,9% são negros. Dados do DIEESE mostram que negros podem receber no Brasil até 52,9% menos do que o dos não-negros. A maior diferença foi localizada em Salvador onde o rendimento médio mensal dos negros é de R$ 715, contra R$ 1.350 dos brancos.


Todas as ações afirmativas possíveis devem ser, portanto, empregadas para retirar a população afro-descendente desse drama que se arrasta há séculos, desde quando foram arrancados de suas terras ancestrais para servirem de mão de obra violentada e sem um mínimo de dignidade humana num ambiente estranho ao seu. No caso dos EUA, esta aberração que é imensa por si só, ainda é mais estarrecedora, afinal, riquíssimos, não resolveram internamente seus próprios problemas históricos. E ainda, prepotentes, desejam ensinar à comunidade planetária sua visão de mundo, ‘democrática, de respeito aos direitos humanos’. Pois sim.... Que falem os cubanos, os afegãos, os iraquianos, os seus afro-descendentes ou mesmo os índios restantes da colonização naquelas áreas ao norte do México.
Quando o racismo se extinguir, quando não houver mais a imbecil crença em superioridade de uma raça sobre outra (conceito desmontado pela genética, inclusive), certamente esta Terra se verá livre de uma das suas mais lamentáveis chagas. Por isso, é preciso denunciar e lembrar a todo o tempo a necessidade de mudança. Notícias como essas não podem ficar escondidas. É preciso escandalizar sempre.


São Paulo, 23 de novembro de 2007.

 

José de Almeida Amaral Jr.
Professor universitário em Ciências Sociais
Economista, pós-graduado em Sociologia e mestre em Políticas de Educação
Colunista do Jornal Cantareira
Colunista pela Pascom na Rádio 9 de Julho Am 1600 Khz
Colaborador do Jornal Mundo Lusíada

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