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27/OUT/2007
Invasão Cultural
Viva o 31 de Outubro, Dia do Saci
Claro que nenhuma cultura está imune a
outras influências. Décadas atrás o canadense McLuhan, estudando
teorias da comunicação, escreveu que "a nova interdependência
eletrônica cria o mundo à imagem de uma aldeia global". E ele,
nesse momento em 1964, não tinha visto o aparecimento do
computador pessoal e muito menos a Internet com todas as suas
possibilidades. Assim, cultura, a expressão humana sobre a
natureza - seus hábitos, valores, atitudes, artes -, vai
efetivamente cada vez mais num mundo globalizado cruzando suas
diversas expressões e gerando novos fatos. Isolamentos no planeta
fazem-se improváveis com o decorrer do tempo. Dinâmicas
inevitáveis. Mas, mesmo levando em conta estas circunstâncias, a
questão da dominação cultural de uma sociedade mais poderosa sobre
outra e suas conseqüências preocupa muito.
O Brasil foi amalgamado pelo contato entre três culturas: índia,
branca e negra. O elemento luso fundiu-se aos outros povos no Novo
Mundo de forma pouco pacífica, envolvendo escravidão, imposição
religiosa, sangue e suor derramados. Como, no todo, o restante da
América Latina foi formada com a colonização espanhola pelo
continente. Nascemos assim e, aos trancos e barrancos, cá
chegamos. Então, sob o angulo da comunicação, como disse a
professora da UnB – Universidade de Brasília, Lucie Didio, a
língua portuguesa saiu vitoriosa sobre as nativas aqui existentes
antes do Descobrimento. Em 1757 o Marquês do Pombal proibiu o
ensino e difusão da ‘língua geral’ na colônia, ou seja, aquela
miscigenada entre tupi e português. Sabia o governante a
importância estratégica da preservação da língua como elemento de
identidade e soberania nacional. Desta forma, impôs-se. Tornou-se
hegemônica. Revelou como a cultura pode ser um instrumento
poderoso de dominação. Sobre isso, o saudoso antropólogo Darcy
Ribeiro, autor de “O Povo Brasileiro”, chamou de ‘Alienação
Cultural’ aquela que “consiste na introjeção espontânea ou
induzida em um povo da consciência e da ideologia de outrem,
correspondente a uma realidade que lhe é estranha e a interesses
opostos aos seus”.
Pois bem, durante o século XX os EUA como parte de sua hegemonia,
buscaram impor sua cultura, o “american way of life”, para o mundo
e, em especial, à América Latina. Tratou por isso de desenvolver
uma política de ‘boa vizinhança’ com seus próximos. Durante o
período da II Grande Guerra, para se ter uma idéia, fomos
presenteados pelos estúdios Disney com a criação de um ‘personagem
brasileiro’, o Zé Carioca. Qual a imagem? Simpático, vagabundo e
malandro. E nós, para lá, mandamos a talentosa Carmen Miranda
fantasiada de baiana, que deixou os executivos do Uncle Sam de
queixo caído com toda sua exótica figura e potencial para o show
business - do qual usou e foi intensamente explorada, diga-se, nos
anos seguintes. Fomos então entupidos de produtos ‘made in USA’ e
acabamos por lutar contra o Eixo ao lado dos EUA, apesar do Estado
Novo de Vargas ter fortes características fascistas. Roosevelt nos
‘presenteou’ com verbas para a construção da CSN, entre outros
argumentos convincentes.
Depois, desde os anos 50, com a entrada cada vez mais intensa do
capital multinacional no processo de industrialização brasileira,
os aspectos da cultura estadunidense foram intensificando-se por
aqui. Rock’n’roll, hot-dog, Coca-cola, blue jeans, astros
cinematográficos hollywoodianos etc. A veneração pelos aspectos de
sua civilização difundiram-se. É algo inquestionável. Nos meios
financeiro e de administração de empresas há um bombardeio de
jargões em seu idioma que fazem parte da rotina diária: ‘cases’, ‘brainstorm’,
‘overnight’, ‘just-in-time’, ‘delivery”, ‘cash’, ‘coach, ‘off-shore’,
‘stand by’, ‘sale’, ‘free shop’ etc. Para que isso? Faltam
palavras em nosso vocabulário sobre tais conceitos ou definições?
Pelo contrário, a nossa língua é riquíssima. Leiam Camões,
Fernando Pessoa, Machado de Assis, Guimarães Rosa entre outros
mestres que estão para provar esse vasto vernáculo. Esta
substituição apenas se dá porque supostamente empresta uma
impressão de estarmos mais próximos de uma experiência superior. É
altamente ideológico.
Então, e o esperanto? Este é o idioma internacional. Para esta
globalização, porque não o transformarmos na língua planetária, o
disseminarmos na informática, nos negócios? Qual o que! A rede
mundial potencializou ainda mais o uso do inglês. E vão-se
‘deletando’ nossas expressões com os ‘downloads’ difundidos. Nossa
cultura vai sendo submetida. Valores que se projetam e levam à
subserviência, à apatia, ao não confronto. Causa resignação e
induz à passividade política aos interesses econômicos dominantes.
E atingem nossa juventude, mal amparada pela educação sem
qualidade crítica. Se a CNN, a CBS ou a ABC não confirmaram, não é
verdade. Eles geram as notícias pelo mundo. Eles é que contam a
história. Eles é que fazem a história. Estamos muito mais próximos
dos astros da NBA, dos brothers do hip-hop ou da última mania em
New York do que da vida dos nossos irmãos da América Latina. Ou
dos demais povos de língua portuguesa. Que sabemos deles?
Os antropólogos de linha funcionalista ainda na alvorada do séc.
XX confrontaram as visões eurocentricas, evolucionistas,
preconceituosas, racistas, existentes no colonialismo imperialista
e no positivismo do séc. XIX mostrando que não há culturas
melhores, somente distintas, diferentes entre si. Mesmo assim,
muita gente os acha perfeitos, modelares. Lojas, prédios,
produtos, coisas e mais coisas são batizadas com nomes em inglês
para dar um aspecto presumidamente mais sofisticado ao seu
empreendimento. Time is money. Há também em francês e italiano,
outras referências chiques, todavia sem a mesma influência dos EUA
a quem, aliás, chamam de ‘os americanos’, sugerindo algo como se
só eles fossem e nós não pertencentes a este pedaço de terra. Por
acaso somos de onde? Da África? Da Ásia? Se minha pátria é minha
língua, estamos fritos. Como diria a espantada top model
brasileira: Oh, my god...
Desço no estacionamento terceirizado pela faculdade. Anoitece em
S. Paulo, bairro da Barra Funda, plena quinta feira. Ao meu lado
chega um auto com duas pessoas dentro. Logo após outro e mais
outro. Deles saem figuras que pareciam chegar do Texas - antiga
região mexicana tomada em guerra pelos EUA. Iam à casa noturna bem
próxima dali, para curtir um show country. Rapazes estão de
camisas quadriculadas, calças de brim, botinhas de bico fino e
chapéu de cowboy. As moças, bem maquiadas, idem. Com tudo o que
tem direito: fivelas nos cintos, botões prateados nos calçados,
tiras penduradas nas mangas das jaquetas. É o pessoal do
‘sertanejo’ brasileiro. O povo que tem na Festa do Peão da cidade
de Barretos a sua capital. Modernos, eliminaram Mazzaropi e
assumiram John Wayne de berrante em punho. Emudeceram Inezita
Barroso e idolatram Dolly Parton. Let’s go, crazy people, que mal
sabe falar o português.
Nesta semana as escolas preparam-se para o Halloween, isto é, o
Dia das Bruxas. Enquanto eu estava no primário não havia nada
disso. Lembro que acontecia o Dia de Todos os Santos e, depois,
Finados, quando é feriado. Só havia música lenta nas rádios. Pois
é. O fato é que esse evento de ingleses e, depois, de
norte-americanos e canadenses que se dá em 31 de Outubro vem
tomando espaço e sendo incorporado ao calendário das grandes
metrópoles nacionais. Ao menos uma semana antes já há propaganda
nos jornais para noitadas temáticas. Por que não exploramos o dia
nacional do Folclore com a mesma intensidade? Nós também temos
nossos entes, nossas figuras míticas, lendárias, tão simpáticas: o
Curupira, o Caipora, a Mula-sem-cabeça entre outros tantos. Não é
preciso importar e pagar royalties pelos capetas alienígenas.
Temos os nossos próprios. Para todo canto que se olha, há invasão
cultural. É uma esquizofrenia. Definitivamente, não é uma troca
equilibrada com o estrangeiro, especialmente o governado pela
White House.
Como diz a Ata de Fundação e a Carta de Princípios da SOSACI -
Sociedade dos Observadores de Saci em http://www.sosaci.org/oi-nois-aqui.htm:
“A cultura popular é um elemento essencial à identidade de um
povo. As tentativas insidiosas de apagar do imaginário do povo
brasileiro sua cultura, seus mitos, suas lendas, representam a
tentativa de destruir a identidade do nosso país. [...] O Saci não
se reivindica como símbolo único e incontestável da cultura
popular brasileira. O Saci trabalha pela união e pelo entendimento
das várias iniciativas culturais que devolvam ao nosso povo a
valorização de sua identidade cultural. O Saci não dissimula suas
opiniões e seus objetivos e proclama, abertamente, que estes só
podem ser alcançados por um amplo movimento de resistência
cultural, denunciando os malefícios da indústria cultural
imperialista. Que ela trema à idéia de uma resistência cultural
popular. Nesta, o Saci nada tem a perder a não ser seus grilhões.
E tem um mundo a ganhar.”
Se quisermos ser verdadeiramente soberanos, autônomos, precisamos
nos conhecer e reconhecer melhor. Respeitar-nos. Estudar nossas
qualidades e defeitos. Criar nossos caminhos a partir daí.
Valorizar-nos para poder intercambiar. Não iremos longe pensando
como a cabeça alheia deseja que pensemos e fazendo aquilo que
querem que façamos. Sem xenofobia, abraço aqui a causa do “Dia do
Saci” para substituir o importado ‘Ralouim’. Com ela saúdo todas
as verdadeiras tradições nascidas com o povo brasileiro e sua
imensa cultura material e imaterial. Salvemos nosso Sítio do Pica
Pau Amarelo. Quem não estiver satisfeito que se mude para a
Disneylândia. E podem ir feito o Saci, que não precisa de airbus e
ainda por cima é ecológico: desaparece num corrupio de vento...
Obs.: aproveitem para ler nestes dias O Saci, de Monteiro Lobato.
São Paulo: Editora Brasiliense S.A. Ilustrações originais em preto
e branco de Manoel Victor Filho.
São Paulo, 27 de outubro de 2007.
José de Almeida
Amaral Jr.
Professor universitário em Ciências Sociais
Economista, pós-graduado em Sociologia e mestre em Políticas de
Educação
Colunista do Jornal Cantareira
Colunista pela Pascom na Rádio 9 de Julho Am 1600 Khz
Colaborador do Jornal Mundo Lusíada
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