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Notas Quotidianas » José de Almeida Amaral Jr.

03/NOV/2007

 

Copa 2014

O Retorno do Mundial de Futebol ao Brasil

 

A FIFA, entidade que congrega as organizações de futebol pelo planeta, ratificou em Zurique o Brasil como sede da Copa do Mundo em 2014. Não havia outros candidatos. A decisão teve uma grande repercussão, não apenas no país, mas também fora dele. E por vários aspectos.


Do ponto de vista esportivo, muitos apontaram que será uma celebração inigualável. O mais prestigiado torneio futebolístico sendo disputado no lugar que lhe tem devoção quase sagrada e onde, provavelmente, se pratica mais belamente. Onde as crianças ‘nascem chutando uma bola’. Está na alma do povo. Além disso, particularmente inevitável, é a chance de vingar a frustração de 16/07/1950, o domingo trágico em que a Celeste Olímpica bateu o eufórico time da casa de virada por 2X1, gols de Friaça para o Brasil logo aos 2 minutos, dando ainda mais a impressão de que tudo seria ‘sopa’, contra Schiaffino, 21’ e Ghiggia, 34’ no segundo tempo. O Uruguai tornava-se bi-campeão no recém inaugurado estádio do Maracanã, com mais de 174 mil assistentes oficiais, embora nas contas paralelas calcula-se ter chegado aos 200 mil espectadores. Era a quarta copa do mundo, a primeira do pós II Guerra. E os anfitriões desabaram. Muito se falou e escreveu sobre a derrota. Pintou um sentimento de inferioridade, de incompetência. Somente 8 anos depois é que a seleção, a ‘Pátria de chuteiras’, como diria Nélson Rodrigues, se redimia e conquistaria em seqüência dois títulos: 1958 na Suécia e 1962 no Chile. Momentos para a revelação de Pelé e Garrincha, dois gênios do esporte. Assim, 2014 é também a chance da ‘revanche’, de vencer a competição em casa. Somos o 5º país a reeditar uma edição.
Nas palavras do ídolo alemão Franz Beckembauer, o ‘Kaiser’, hoje membro do Comitê Executivo da FIFA, “é uma decisão perfeita. Nenhum outro país gerou tantas estrelas do futebol como o Brasil”. Também concorda o presidente da União Européia de Futebol (UEFA), Michel Platini: "o Brasil é o berço do futebol. É uma peregrinação à Meca do futebol. Eu gostaria de ainda jogar para poder atuar lá. Todo amigo do futebol tem de se alegrar com o fato que a Copa será no Brasil". E o próprio presidente da FIFA, Joseph Blatter, destaca que “as exigências talvez tenham sido maiores do que com outros concorrentes.” E complementa da seguinte maneira: “A Copa terá uma enorme influência social sobre o país". Será mesmo? Podemos fazer um evento dessa magnitude legando ao povo não apenas o custo, mas bons frutos posteriores? Tudo é muito suspeito, infelizmente.


A questão, sob o ângulo dos benefícios à sociedade, é que gera mais polêmicas. Não poderíamos ter deixado a Copa para outra hora? Partindo do próprio mundo futebolístico, a coisa já se torna complicada. Os jogadores, artistas da referida festa, ultimamente mal são revelados nas categorias de base de seus clubes e já aprontam as malas com vistas a ir faturar no exterior. As disputas vivem aqui de jogadores com baixa categoria técnica, outros decadentes e aqueles alguns que estão despontando com alguma esperança diferencial logo almejam levantar vôo para alguma outra localidade na temporada seguinte. Cada vez mais se torna difícil poder manter algum craque. Corremos o risco de assistirmos uma seleção de ‘estrangeiros’ em 2014. Os campeonatos não têm organização, há um nº excessivo de jogos, os clubes estão falidos, inexiste estrutura decente etc. As mulheres, vice-campeões mundiais, estão largadas sem o mínimo apoio. Pelé, o Rei do Futebol, o Atleta do Século, não apareceu no evento da Suíça bem como a CBF pouco mostrou seus mágicos lances nos filmes promocionais porque há desavenças entre ele e o presidente da entidade, Ricardo Teixeira - prestes a iniciar o 6º mandato consecutivo - quanto aos rumos do esporte. Muitos afirmam que é um déspota. O presidente do comitê organizador da Copa do Mundo foi indiciado em uma CPI do Senado Federal sete anos atrás e ainda responde na Justiça. Dinheiro demais rolando e pouco resultado prático. A sorte desses ‘cartolas’ é que brota do chão, ininterruptamente, bons boleiros e sempre temos como renovar nossos quadros. Se fossemos depender desses administradores para gerar e desenvolver, estaríamos despencando pelas tabelas. Recentemente o Corinthians, 2ª maior torcida da nação, viu seu presidente e assessores envolvidos com lavagem de dinheiro e enriquecimento em detrimento do clube, à beira da 2ª divisão. E há outros casos que só não vem à tona por conveniência entre os interessados. Isso em se tratando de futebol, nosso produto mais conhecido pelos quatro cantos e de grande interesse popular. E, saindo do campo? E todas as outras coisas do dia a dia?


O jornal britânico Financial Times, por exemplo, escreveu “dezoito cidades em todo o Brasil se esforçam para estar entre as 12 que sediarão os jogos. Nenhuma delas tem um estádio que faça jus à tarefa”. Incluem entre os problemas essenciais a serem resolvidos infra-estrutura precária e corrupção. O Pan-Americano, disputado neste ano no Rio de Janeiro, foi um evento importante. Porém, com dimensões bem menores à Copa. Muito se fala sobre superfaturamento e desvios de verbas. Calcula-se que custou entre 4 a 9 vezes mais do que deveria. E, se não bastasse, ainda há o seguinte: passada a competição, não se percebeu a prometida melhoria no quotidiano das pessoas. Acabou, como escreveu o ex-jogador Sócrates, sendo “uma imensidão de recursos públicos investidos de forma nada transparente, usados em sua maioria para maquiar ações sociais provisórias e, portanto, ineficientes, melhorias urbanas não prioritárias e para construir praças esportivas que servem aos mesmos [...], seja em forma de concessões à exploração privada a preços ridículos, seja para um efêmero ‘circo sem pão’ esportivo que sustenta esse podereco.” A Olimpíada de 2004 na Grécia custou US$12 bi. Estão até agora pagando a conta e muitas construções não tem uso e justificativa posterior, conforme dados apresentados pelo jornalista Jânio de Freitas. A mais recente edição da Copa, na Alemanha, 2006, teve um custo acima de R$20 bi. E nós não somos do G7... Começa a pairar a dúvida: quanto é que as máfias do colarinho branco abocanharão numa situação como a que se apresenta a partir de agora? Quantos já não estarão esfregando as mãos e salivando para abocanhar graúdas quantias? Não existe dinheiro que baste. Há muitos interesses particulares se sobrepondo à causa pública. Há muita vista grossa, impunidade e, óbvio, conivência.


No mesmo momento em que se pega o jornal e lê-se na manchete a festejada candidatura vencedora o cenário geral vem na seqüência das páginas. Nossa fiscalização e tributação sobre o leite consumido chegam a apenas 1/3 da produção. Daí empresário aproveita para misturar água oxigenada ou soda cáustica para ‘conservar o produto’ e vender a preços mais baixos para a vítima, digo, o consumidor. Segundo o Ministério da Saúde, entre janeiro e setembro deste ano, a cada 100 mil brasileiros, 254,2 tiveram Dengue. No mesmo período do ano passado, foram 172,1 habitantes a cada 100 mil. Vivemos uma epidemia. A Saúde está na UTI. O país tem uma educação capenga e investe menos de 3% do PIB nela. Em 2022, no Bicentenário da Independência, atingiremos 6%. Somente em 2010 todos os municípios brasileiros deverão ter uma biblioteca. Somos sempre o ‘país do futuro’... E temos ainda um ‘velho oeste’ particular e permanente. Um bang-bang não apenas nos morros cariocas ou nos subúrbios metropolitanos. O fenômeno da pistolagem no Brasil está muito vivo e presente, nos rincões mais distantes e também em grandes cidades. O repórter Klester Cavalcanti, em seu livro “O Nome da Morte”, conta as aventuras de Júlio Santana, pistoleiro que começou sua trajetória com 17 anos e em 35 anos matou exatamente 492 pessoas por todo o país. Conta o autor, em entrevista a RadioagênciaNP, que Júlio Santana “matou um sindicalista chamado Nativo a mando do prefeito em uma cidade de Carmo do Rio Verde (GO) [...] mas [o executivo] foi absolvido por falta de provas. E agora a gente tem um livro com um cara que diz que foi ele que matou o Nativo, a mando do prefeito, sim senhor! Então tudo está confirmado e a polícia e a justiça não fazem nada!”. Ele afirma “Todos os estados têm registros de trabalhadores rurais sendo assassinados e para a vergonha maior, a impunidade do mandante é de 100%, nenhum mandante até hoje foi preso”. E por aí afora.


Mas, enfim, está decidido. Recebemos a incumbência de realizar esse grandioso evento internacional onde bilhões por todo o planeta estarão conectados, de olhos postos em nós. Mais que levantar novo caneco para colocar outra estrelinha na camisa verde-amarela precisamos vencer velhos adversários que se mantêm imbatíveis. Nada a ver com o ‘Maracanazo’ de 1950. Os brasileiros têm a chance de dar ao mundo exemplo de força, determinação e competência. Oportunidade de provar à coletividade internacional – e a nós mesmos - que somos, de fato, um país sério. Esta é a verdadeira ‘revanche’. E o temor de um imenso fiasco.

 

São Paulo, 3 de novembro de 07.

 

José de Almeida Amaral Jr.
Professor universitário em Ciências Sociais
Economista, pós-graduado em Sociologia e mestre em Políticas de Educação
Colunista do Jornal Cantareira
Colunista pela Pascom na Rádio 9 de Julho Am 1600 Khz
Colaborador do Jornal Mundo Lusíada

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