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07/NOV/2007
ONU/Cuba
Cuba Libre!
Desde que o famigerado Muro de Berlim
separando por 28 anos a referida cidade entre lado capitalista e
outro comunista dentro da Alemanha Oriental, de forma
surpreendente, caiu em 9 de novembro de 1989, simbolicamente
morreu com ele a Guerra Fria. Findava-se o confronto envolvendo
partidários dos EUA e da URSS, vencedores da II Guerra Mundial.
Uma tensão que deixou o planeta desde o pós 1945 em estado
permanente de alerta devido ao alto poder destrutivo apresentado
por ambos os lados, aparelhados com armas químicas e nucleares.
Uma diária ameaça entre as partes. O equilíbrio do terror. Com seu
encerramento, a URSS se esfacelou e o bloco pró-América do Norte
foi declarado vencedor. A esquerda, enquanto seus rivais
festejavam, entrou em grande crise existencial pelos quatro
cantos. Muitos abandonaram antigas convicções. Outros permaneceram
perplexos. Livros de pensadores socialistas foram vendidos em
liquidações. Um período bastante difícil que serviu para muita
reflexão. No entanto, houve quem não arredasse o pé um só
instante, mesmo com todas as pressões. Entre os poucos baluartes
da resistência há um país latino americano que, até hoje, se
mantém atento. Uma ilha caribenha, localizada a poucos km das
terras de Tio Sam. A ensolarada Cuba de Fidel Castro.
É comum vermos analistas se dirigirem ao governo daquele país como
‘dinossauro’, ‘retrógrado’, ‘mente atrasada’, ‘caquético’ entre
outras adjetivações sarcásticas que acompanham o termo ‘ditadura
castrista’. Com a atual hegemonia capitalista tem-se a impressão
que a humanidade está destinada a permanecer assim para o restante
de seus dias. Nada mudará. Aliás, é como se os fatos tivessem
caminhado numa espécie de ‘evolução’ e atingíssemos no fim do
século XX o ápice de imutável destino. O ‘fim da História’, como
escreveu Francis Fukuyama, intelectual nascido em Chicago. Bom
para os seus beneficiários. Ruim para quem está excluído de suas
possibilidades. Só para lembrar aos ainda eufóricos, neste ano,
fevereiro, a ONU em sua 45ª sessão da Comissão de Desenvolvimento
Social publicou texto apontando que a globalização capitalista não
reduziu as desigualdades e a pobreza entre 1980 e 2000. De acordo
com o relatório ONU das Metas para o Milênio-2007 cerca de 19% da
população mundial ainda vive com menos de US$ 1 por dia. Mais de 1
bilhão de pessoas está abaixo da linha da pobreza em todo o mundo.
Só nos países em desenvolvimento, 980 milhões de pessoas viviam
com menos de US$ 1 por dia em 2004. No mesmo ano, na América
Latina e no Caribe, 8,7% da população vivia com menos de US$ 1 por
dia.
No início deste novembro a ONU pediu pela 16ª vez consecutiva o
fim do bloqueio comandado pelos EUA a Cuba. Há 40 anos ocorre um
embargo contra a nação caribenha que dificulta negociações
comerciais, financeiras e econômicas com as autoridades daquele
Estado. Conforme Jean Ziegler, representante da ONU pelo Direito à
Alimentação, o embargo é uma ‘arrogância unilateral’ e um evidente
ataque à ordem internacional. Por que não libertar o povo cubano
dessa violenta coação? Quando o embargo foi iniciado, corria o ano
de 1962. Gerou-se um sufocante cenário. Já no ano anterior os EUA
cortaram relações comerciais com as lideranças que haviam
conquistado o poder em 1959. Em 1962 a OEA expulsou Cuba. Assim, a
ilha cada vez mais se aproximou dos soviéticos para evitar
isolamento. Porém, a Guerra Fria há tempos é página virada. E os
recursos pararam de chegar. Mas, os EUA, orgulhosamente não cedem.
Mesmo a cada ano que passa ficando mais solitários nessa posição.
Em 1992 a primeira resolução contra o embargo teve só 59 votos a
favor. Hoje tem 184, 4 contra e uma abstenção. Os paladinos
yankees da justiça querem à força derrubar o governo cubano, num
evidente revanchismo que jamais deixou de existir, desde que a
revolução se deu a tão pouca distância da fronteira da grande
potência. Nunca engoliram isso. Vai daí acontece o batido discurso
contra ‘o tirano’ Castro e sua cambada de barbudos terroristas nos
grandes eventos dos exilados em Miami, ao som de Gloria Stefan &
co transmitidos via satélite pela ABC, CNN, CBS and others
channels.
Por outro lado, é interessante destacar alguns dados que a
imprensa insiste em não dar muito espaço sobre o cruel mando de
Fidel Castro. Sem tv de plasma, sem automóveis com GPS, sem
vídeo-games em terceira dimensão entre outras maravilhas do
consumismo eles são, com todas as dificuldades existentes, o 50º
colocado no Índice de Desenvolvimento Humano-ONU/2006. O Brasil é
o 69º. A média de vida é de 77, 6 anos, superando a dos EUA que
cravam 77,5 anos. De cada 1000 nascidos, morrem 7 antes dos 5
anos. Nos EUA, morrem 8. No Brasil, 34. Saneamento básico atinge a
98% da população. No Brasil, oficialmente é 61%. Com relação aos
gastos com saúde pública, dá 6,3% do PIB em 2003. O Brasil está em
torno de 3,4%. Eles têm o maior nº de médicos per capita entre
todos os 177 países da ONU. Mais que o dobro dos norte-americanos.
Conforme afirma a edição de agosto, nº 33, da revista Caros Amigos
Especial, em 2003 pela 1ª vez os EUA fizeram um acordo com os
cubanos para obter a vacina desenvolvida por eles contra o câncer
de pulmão. Há um sistema envolvendo 445 policlínicas. Mais de
13000 consultórios de médicos e enfermeiras da família. Eles
convivem com um quadro epidemiológico de Primeiro Mundo. Com a
ausência de enfermidades, precisam sair do país para desenvolver
pesquisa! Há 29 mil profissionais atuando fora da ilha. Um povo
que tem, valoriza e desenvolve cultura. Havia mais de 23% de
analfabetos antes de 1959. Hoje, há apenas 0,2% acima dos 15 anos.
Estão à frente dos EUA, Canadá, Japão, Suíça, França e, claro, do
Brasil. Nós, que não perdemos tempo em condenar o governo deles.
Lá há 10 alunos por professor, contra 14 dos EUA e 20 no Brasil.
Investe-se quase 10% do PIB em educação. No bicentenário de nossa
independência chegaremos, se não desviarem verba para pagar juros
ou outros fins menos nobres, a 6% do PIB. Enfim, como disse um
brasileiro que vive por aquelas bandas desde o golpe de 1964: “no
Brasil são 200 milhões de técnicos de futebol; em Cuba, 11 milhões
de cientistas sociais, políticos e economistas.”
Por que os EUA, o ‘farol da liberdade e da democracia’, ‘xerife
global’, não têm a mesma preocupação com os governos da Arábia
Saudita ou do Paquistão? Porque apoiaram ditadores por toda a
América Latina nos ‘anos de chumbo’ das décadas de 1960 e 70? Por
que mentiram para caçar seu ex-aliado Sadam Houssem no Iraque,
transformando o milenar país num inferno de destruição? Será que o
Império teme a pequena ilha que, mesmo asfixiada, realiza esse
prodígio social?
Que o povo cubano resolva suas pendengas internas sozinho. Pela
autodeterminação dos povos. Todo apoio à resolução da ONU. Cuba
libre já!
São Paulo, 07 de novembro de 07.
José de Almeida
Amaral Jr.
Professor universitário em Ciências Sociais
Economista, pós-graduado em Sociologia e mestre em Políticas de
Educação
Colunista do Jornal Cantareira
Colunista pela Pascom na Rádio 9 de Julho Am 1600 Khz
Colaborador do Jornal Mundo Lusíada
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