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24/OUT/2007
Corrupção
Lucrando com a Soda Cáustica misturada ao
Leite
Há poucos dias, perambulando pelos
corredores da faculdade em horário de intervalo, pude ver
estampada com letras bem visíveis na camiseta de um aluno a
seguinte idéia: “Não roube. O governo detesta concorrência”. Seria
mesmo engraçado se não fosse dramático. E não só: também é
parcial. O problema, a meu ver, é bem mais amplo.
Faz tempo que sinto uma grande descrença da população sobre o
setor público. Não existe novidade nenhuma em os políticos viverem
envolvidos em suspeitas de corrupção, de mau uso de verbas. Há,
contudo, muita acusação e pouca condenação concreta. Sente-se uma
forte sensação de impunidade no ar. Além disso, como resultados de
gestão, a saúde é precária, a educação idem, as estradas estão
cheias de buracos, sem conservação e por aí afora. Em conjunto,
temos uma carga tributária bastante grande para resultados tão
pífios mais a referida percepção desagradável do enriquecimento
ilícito de alguns eleitos e seus pares. Não é de se estranhar,
portanto, a baixa confiança que o cidadão comum acaba tendo com a
esfera governamental. E, para agravar, somos um país com imenso
abismo social. Desta forma, o papel do estado é muito importante
para amparar essa massa de excluídos. Para ajudar a arrancá-los de
sua difícil situação. Se a verba existente é mal administrada,
isto dificulta mais ainda ampliar o duro combate a miséria. Coisa
feia.
Mas, enquanto as insinuações ao governo e aos políticos
profissionais se multiplicam de maneira corriqueira, não se
percebe, da mesma forma, contundência crítica aos graves fatos do
setor privado. Talvez por estar amparado pela concepção de mercado
concorrencial, das várias possibilidades de escolha, de velha e
justa ‘mão invisível’ liberal que harmoniza interesses e premia os
competentes etc. Podem ser tais motivos. Porém, o fato é que esse
lado da questão não tem o mesmo peso que é dado ao setor público,
facilmente ‘demonizado’. E há muita irresponsabilidade nele
também. É só querer achar.
A multinacional da área de informática Cisco System, segundo a
revista “Business Week” a 18ª marca mais valiosa do globo, foi
pega pela Polícia Federal por sonegar impostos, subfaturar valores
de produtos e simular descontos enormes nas negociações. Assim, o
grupo chegava a uma redução de até 70% no preço dos produtos que
comercializava no país. O esquema importou US$ 362 milhões entre
2004 e maio de 2007, segundo dados do relatório da PF em conjunto
com a Receita Federal. O valor corresponde a R$ 724 milhões
considerando o dólar cotado a R$ 2. Como as multas da Receita
podem chegar a 100%, o valor das infrações deve ultrapassar R$ 1,5
bilhão. E a matriz, nos EUA, rapidamente alegou não ter nada a ver
com o caso. Afirma que são seus vários parceiros e revendedores
locais que importam, não a ela própria. Destacam que a sua filial
no país marca mero 1% no faturamento total da corporação. A
despeito disso, Receita e Polícia Federal mais o Ministério
Público relatam que os principais gestores da Cisco recebiam a
maior parte de seus salários por meio de empresas que só existiam
no papel, burlando o fisco seriamente. Crime de colarinho branco.
Um estudo recente da consultoria de empresas Price Waterhouse
Coopers constatou que nos últimos dois anos 25% das companhias de
Hong Kong e 33% das firmas que investem na China sofreram perdas
derivadas de fraude ou de outros delitos financeiros. A corrupção
é uma grande preocupação, assim como o roubo de propriedade
intelectual, de ativos e a fraude contábil. São os principais
crimes de que as empresas vivenciam. Para 24% dos executivos, suas
perdas se devem a subornos pagos pelos seus rivais, mostra o
estudo. Grandes corporações, imagens bem sucedidas e um obscuro
lado de sua pratica para turbinar os negócios.
Sonegar imposto e burlar o fisco são elementos que fazem parte do
desejo de lucrar a qualquer preço e que atingem grandes e pequenas
empresas. Contudo, não é apenas a escapatória da obrigação dos
tributos a forma de baixar custos e elevar ganhos. Há outras e
mais assustadoras que beiram a insanidade.
A Polícia Federal, agora agindo na região da mineira Uberaba,
conseguiu prender 27 suspeitos em adulteração de leite longa vida
integral para aumento de prazo de validade e de volume de seus
produtos. No depoimento do responsável pela Copervale -
Cooperativa dos Produtores de Leite do Vale do Rio Grande, se
confirmou que a empresa usava soda cáustica para compor o leite.
Também a Casmil - Cooperativa Agropecuária do Sudoeste Mineiro, de
Passos, estaria envolvida. Juntas produziriam 400 mil litros de
leite/dia. Além da soda, água oxigenada era adicionada também. A
soda cáustica pode até perfurar a mucosa intestinal. A água
oxigenada pode causar esofagite e gastrite. Dependendo das
concentrações podem ser fatais. Os funcionários ouvidos das
cooperativas disseram que não tomavam daquilo que produziam porque
poderia fazer mal. Puro veneno.
Não adianta culpar apenas os governantes. Afinal, nesta
democracia, somos nós quem os elegemos. A sociedade precisa
assumir como um todo sua responsabilidade. Tanto dentro da esfera
pública quanto na esfera privada. Os habitantes de Bogotá, na
Colômbia, podem servir de exemplo. Eles têm sido muito elogiados
pela recuperação que conseguiram em sua qualidade de vida, após
longo tempo sofrendo com o medo da violência e do tráfico. Com
seus 8 milhões de moradores, apresenta melhoras em seu transporte
público, educação e habitação. A taxa de homicídios, que era de 80
por 100 mil habitantes em 1993, baixou para 18 em 2006. A
cidadania é o centro dos investimentos. Governo e sociedade civil
se uniram para melhorar a existência de todos. Desenvolveram um
pacto. Impostos são pagos, os recursos são usados com
transparência e as camadas mais pobres são prioridade. O espírito
público é que domina as iniciativas. A valorização da vida em
comunidade afirma-se assim como a grande resposta para todos os
males relatados onde o individualismo e os privilégios de grupos
mais abastados não podem se sobrepor ao conjunto dos interesses da
sociedade. Esperança em meio a tanta barbaridade.
São Paulo, 24 de outubro de 2007.
José de Almeida
Amaral Jr.
Professor universitário em Ciências Sociais
Economista, pós-graduado em Sociologia e mestre em Políticas de
Educação
Colunista do Jornal Cantareira
Colunista pela Pascom na Rádio 9 de Julho Am 1600 Khz
Colaborador do Jornal Mundo Lusíada
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