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Notas Quotidianas » José de Almeida Amaral Jr.

12/OUT/2007

 

Família/Educação

Dia da Criança: O Outro e Assustador lado dos Fatos

 

O 12 de Outubro marca a comemoração do Dia das Crianças no país. Durante toda a semana, as lojas de brinquedos fizeram festa: receberam milhares de consumidores, pais, tios, padrinhos, amigos, que foram comprar lembranças para a meninada. Muita alegria e agitação. Os comerciantes puderam, assim, vislumbrar o que lhes reservará o final de ano, com Natal e Reveillon. Porém, mais do que as estatísticas e probabilidades sobre a venda de presentes, as campanhas publicitárias e suas seduções de consumo, a data deveria servir especialmente para uma outra reflexão: o que a sociedade está proporcionando para a infância e seu futuro?


Pesquisas indicam que um grande número de casais que tem filhos, não atua pessoalmente em seu desenvolvimento como deveria. Ou seja, a prole fica nas mãos de babás ou, principalmente, boa parte do tempo, na companhia de aparelhos eletrônicos. Um estudo da multinacional Unilever revelou que, no Brasil, apenas 14% dos pais defendem que estar ao lado do filho brincando auxilia em seu desenvolvimento. Como prioridade dos adultos, há na frente das atividades lúdicas com os herdeiros ações como encontrar os amigos (17%), ir ao culto religioso (19%), passear (22%), ficar com a família (25%), ouvir música (27%) e, o campeão, assistir televisão (48%). No item ‘brincadeira’ a atividade mais freqüente para as crianças, de acordo com a análise, também é a TV, com 97%. Atrás, vem desenhar (81%), brincar de pega-pega (65%) e ler histórias (59%) entre outros.


Os pais não dispõem de tempo devido ao trabalho, porque estão cansados ou mesmo por não terem ‘jeito’ de brincar com crianças. E muitos não enxergam a necessidade disso. São as explicações. Largam, então, a gurizada em frente da tv ou do videogame. Então, seriam estes os melhores companheiros para seu crescimento? Será que estarão aprendendo a encontrar os seus limites e lidar com os dos outros com quem coexistem? Desenvolverão plenamente seu imaginário? Como fica o referencial dos adultos, das brincadeiras de imitação? Enchê-los de presentes lhes dará a noção de mérito? Ou para eles tudo vem fácil, é só espernear que aparece o doce desejo? Que adultos serão eles sem noções básicas de convivência?


Lidar com as frustrações equilibradamente e saborear conquistas não podem jamais ser deixados de lado. Essas ausências e suas compensações não são nada saudáveis física e mentalmente. Não podemos compensar com a matéria, com bens, a nossa ausência e a culpa – ou preguiça - por ela. É um ledo engano esperar que somente a educação formal escolar seja quem estruturará a criançada. Mais ainda acumular nas mãos dos professores funções que não são deles: serem pais, psicólogos, nutricionistas e babás, por exemplo. Aliás, a escola é a 3ª lugar onde as crianças mais brincam. Perdem apenas para o quarto e o quintal de casa. A rua está na 4ª posição. Contudo, entre as crianças das classes menos favorecidas, quase metade delas (48%) utilizam desse espaço para brincar, contra apenas 19% das camadas mais abastadas.


Embora não substitua a família e o papel exercido por pais, mães e responsáveis - atentem para este substantivo: responsabilidade -, a escola tem também função fundamental para a formação da criança, intelectual e moralmente. O que temos visto então nesse caso? Outra situação preocupante. Pouco a comemorar e muito a consertar.
A coisa é assustadora. Levando-se em conta a experiência nos últimos tempos dentro do mais rico Estado da República, revela o exame federal de avaliação de aprendizagem, o Saeb, que quase a metade dos estudantes paulistas (43%) termina o ensino médio – o antigo colegial - com conhecimentos em escrita e leitura esperados para um aluno de oitava série – o antigo ginásio. Alunos do terceiro ano tiveram notas inferiores a 250, o mínimo tolerável para a oitava série pela secretária de Educação. E essa situação seria ainda mais deteriorada se fosse retirada da estatística a participação das escolas privadas. A escola pública, onde estuda a massa, tem média dos seus estudantes 21,2% inferior à dos alunos das particulares. Uma vergonha.


Dados do Saresp, sistema de avaliação da rede estadual de ensino, confirmam a crise. Levantamento com base no ano de 2005 aponta que 36,6% dos alunos que encerram a primeira série fundamental na capital paulista não sabem ler e escrever. Na segunda série o percentual chega ainda a 18%. No interior do Estado a qualidade é um pouco superior, com 23,4% e 11% respectivamente aos dados anteriores. É um grande escândalo. O que nossos governantes, eleitos para defender os interesses da população, andaram fazendo que não obstruíram esse processo de corrosão? 72% das escolas na Grande S. Paulo estão naquilo que os técnicos chamam de ‘estado de atenção’. São 483 mil pessoas que terão um futuro bastante dificultado pela frente, sem as mesmas condições daqueles que puderam ter um estudo melhor. É uma escola que não estimula, que não atrai atenções. Que perde seus alunos para outras exigências da dura sobrevivência. É, portanto, a reprodução da pobreza que ajuda a perpetuar a desigualdade. Aponta a Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios/IBGE) que em 2006 existiam 5,1 milhões de crianças e adolescentes de 5 a 17 anos trabalhando no Brasil. São 5,7% da população ocupada com cinco anos ou mais de idade. Mais de 235 mil menores, entre 10 e 17 anos, trabalham em vias públicas. E por ai vai.


Filhos são complicados. Fácil fazê-los. O duro é cuidar deles, criá-los. Ajudá-los a se formarem como gente de bem, como cidadãos de respeito. Isto também dá muito trabalho. Requerem dedicação, investimentos vários. O futuro está nas mãos deles, todavia, somos nós aqui e agora que os ajudarão a fazê-lo menos cruel e desequilibrado. É o verdadeiro presente que lhes entregamos todos os dias.

 

São Paulo, 12 de outubro de 2007.

 

José de Almeida Amaral Jr.
Professor universitário em Ciências Sociais
Economista, pós-graduado em Sociologia e mestre em Políticas de Educação
Colunista do Jornal Cantareira
Colunista pela Pascom na Rádio 9 de Julho Am 1600 Khz
Colaborador do Jornal Mundo Lusíada

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