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Notas Quotidianas » José de Almeida Amaral Jr.

13/OUT/2007

 

Desigualdade

Fome Persistente

 

16 de Outubro é o Dia Mundial da Alimentação. E a Organização das Nações Unidas - ONU acaba de anunciar um novo relato sobre a fome no mundo. Permanecemos com nosso alto grau de insensibilidade em relação aos menos favorecidos. Há um profundo descaso existente. Muita ganância e crueldade.


Existem hoje, vítimas desse flagelo no mundo, 854 milhões de pessoas sem o básico para se alimentar diariamente. E, conforme Jean Ziegler, relator sobre o direito a alimentação, mesmo com o combinado através do projeto Objetivos do Milênio, que se cogitava a redução em 50% entre 1990 e 2015 do nº de famintos no mundo, permanece desde 2006 a elevação de seus níveis, informa a Agencia Adital.


É bom se relembrar que a fome não é um problema natural. Há comida para todos. O que inexiste são recursos suficientes para sua obtenção. Ela é, portanto, causada pela má distribuição de renda e pelo conseqüente não consumo de alimentos. Segundo relatório da ONU, publicado em julho/07, cerca de 20% da população mundial ainda sobrevive com menos de US$ 1 por dia. Mais de 1 bilhão de pessoas está abaixo da linha da pobreza em todo o globo.


As causas relacionadas com a fome matam mais de 6 milhões de crianças anualmente. Outras milhões sobrevivem subnutridas, numa arrastada existência, que lhes prejudica física e intelectualmente. Milhares movimentam-se pelo mundo fugindo dela, abandonando suas regiões e países de origem e padecendo em seus destinos.


Ziegler chama a atenção, em meio ao cenário atual, para a questão dos biocombustíveis: alimentos como o milho, o trigo e o açúcar podem ter canalizadas suas produções especialmente para a indústria energética em detrimento da alimentação. Se a situação dos pobres já é difícil, com essa hipótese se confirmando a condição seria terrivelmente piorada. Sugere então que a fabricação seja feita com outro tipo de matriz vegetal, não alimentar, além de sobras e outras fontes. Notem que 50 litros de biocombustível para um veículo equivale a 200 kg de milho, o que atende a alimentação de uma pessoa no ano. Além disso, a valorização desse setor tende a dificultar a melhor distribuição de terras e pode ampliar as condições de exploração dos trabalhadores. No Brasil, a pesquisadora Maria Aparecida de Moraes Silva, da Unesp, especialista no estudo da exploração da mão-de-obra no setor da cana-de açúcar, destaca que de 2004 a 2007 ocorreram 21 mortes, supostamente por excesso de esforço durante o corte da cana. As pessoas chegam a cortar/dia 15 toneladas para render a jornada. A vida útil de um cortador é inferior a 15 anos, nível abaixo dos negros em períodos da escravidão, de acordo com a socióloga. Segundo os usineiros, o indivíduo ganha em média R$ 2,40 por tonelada cortada, atingindo entre R$ 700 e 1.200,00/mês no período de contrato.


Fato bem conhecido e que corrobora a apreensão do técnico da ONU quanto ao efeito do biocombustível sobre os alimentos são as tortilhas de milho no México que tiveram brutalmente seu preço elevado. O milho constitui 45% dos gastos de uma família pobre mexicana. Teme-se também nesse sentido a maior entrada de capital de grandes empresas no setor prejudicando os pequenos agricultores. Uma maior liberalização comercial, que promoveria uma concorrência desleal entre os agricultores independentes dos países em desenvolvimento e a produção da UE fortemente subvencionada, explica a Agencia Adital.
No continente africano, uma das regiões mais devastadas pela fome, informa o relatório organizado pela Organização Não-Governamental Oxfan International, foram gastos R$ 540 milhões em conflitos armados na África do Sul, entre os anos de 1990 e 2005. Este valor equivale a toda a ajuda recebida pelo continente no mesmo período. Ao mesmo tempo, 23 países africanos que estavam em conflito gastaram mais de R$ 30 milhões por ano. Uma triste constatação: o combate à fome despenca e o comércio de armas prolifera em meio à miséria. Na África subsaariana, 25 entre 36 países tem condições "extremamente alarmantes" de subnutrição.


Todavia, há gente lutando efetivamente contra esse crime. A ONU destaca na América Latina programas desenvolvidos na Bolívia e no Peru, por exemplo. Na Bolívia, um quarto das crianças sofre de grave desnutrição. No Peru, são 25% das crianças sofrem cronicamente do problema. Cuba, que sofre embargo econômico dos EUA há muitos anos, é o mais próximo de atingir as metas do milênio e lidera a lista dos países que mais fizeram progresso. Há avanços também no leste asiático.


No Brasil, o “Índice da Fome”, calculado para 118 países pelo Instituto de Pesquisas sobre Políticas Alimentares, sediado em Washington, mostra queda de 5,43 em 2003 para 4,60 em 2004. Em 1990, o indicador chegava a 8,33 e em 1981, 10,43. Entre 1990 e 2004 a mortalidade infantil de crianças com menos de cinco anos de idade caiu de 6% para 3,4% e o número de crianças abaixo do peso caiu de 7% para 2,4%. A proporção de pessoas desnutridas caiu de 12% para 8% da população dentro do período. É preciso prosseguir firme nessa direção, sem dar chances a retrocessos.


Percebemos a iniciativa de alguns governos no combate a fome e algumas melhoras. Entretanto, ainda é muito pouco para o desequilíbrio existente, diz a ONU. É essencial baixar esses percentuais de desigualdade. Mas, isto não ocorrerá pela bondade e súbito donativo das elites. A história é realista e nos mostra claramente isso. Não enxerga quem não quer. É preciso se estimular cada vez mais as organizações populares para lutarem, para reivindicarem oportunidades, melhorias, de forma firme e contínua. Não dá para viver apenas de bolsas assistenciais. Vencer a fome é conquistar auto-sustentação. Dignidade não se alcança com doações.

 

São Paulo, 13 de outubro de 2007.

 

José de Almeida Amaral Jr.
Professor universitário em Ciências Sociais
Economista, pós-graduado em Sociologia e mestre em Políticas de Educação
Colunista do Jornal Cantareira
Colunista pela Pascom na Rádio 9 de Julho Am 1600 Khz
Colaborador do Jornal Mundo Lusíada

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