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Notas Quotidianas » José de Almeida Amaral Jr.

05/OUT/2007

 

Trabalho Escravo

Trabalho Degradante

 

A escravidão no Brasil foi declarada extinta oficialmente em 13 de Maio de 1888 através da Lei Áurea, assinada pela Princesa Isabel, resultado do Movimento Abolicionista que havia tempos pressionava o governo imperial pelo fim dessa chaga social e já conquistara a Lei do Ventre Livre em Setembro de 1871, libertando do cativeiro todas as crianças nascidas a partir daí. Mas, o problema em si apenas foi transformado. Faltou amparar a idéia. Os escravos se tornaram cidadãos na teoria, porque quase nada tiveram na prática os seus direitos. Foi uma grande oportunidade que a história deu à nossa elite para favorecer os menos privilegiados e não efetivaram a chance: nem terras, nem habitação, muito menos salários dignos. Restaram a eles favelas e cortiços. Logo depois, a República foi proclamada e também não houve correção desse problema. Os ex-escravos ficaram livres apenas para oferecer sua mão de obra ao mercado, que lhes deu as costas optando pelo imigrante europeu. O escravismo havia se tornado um empecilho para essa etapa do sistema. O capitalismo entrava em fase de industrialização, massificando a produção e necessitando de consumo para suas mercadorias. E os ex-escravos inauguraram assim a categoria dos ‘subempregados’.


Porém, inacreditavelmente, nem com a existência das ocupações precárias os escravos deixaram de existir. Sim, até hoje, século XXI, Terceiro Milênio, com Globalização, cibernética, mecatrônica, engenharia genética, realidade virtual e coisas afins, o problema persiste. Ao menos para a realidade concreta de nossa sociedade, embora para alguns senadores isto não seja factível. Por isso, devido a essa pressão, as atividades da Secretaria de Inspeção do Trabalho, que atuava coibindo esse abuso, foram interrompidas há poucas semanas.
O chamado Grupo Móvel de Fiscalização - GMF do Ministério do Trabalho e Emprego teve suas atividades obstruídas após fazendeiros e senadores do Estado do Pará terem classificado como abusiva a ação dos agentes executada no mês de julho deste ano na fazenda do grupo Pará Pastoril Agrícola – Pagrisa, localizada em Ulianópolis. O trabalho escravo contemporâneo pode ser caracterizado quando o empregador sujeita o empregado a condições execráveis de trabalho e o impede de desvincular-se de seu ‘contrato’ o amarrando a obrigações contraídas no período ou utilizando-se de ameaças físicas. Para as investigações, 1084 trabalhadores eram mantidos em situação análoga a esse conceito de escravidão. Como provas constavam 18 testemunhos entre fotos e vídeos. Os senadores que acompanharam o caso não gostaram das denúncias e inocentaram os proprietários da empresa. A OIT - Organização Internacional do Trabalho criticou em nota publicada a interrupção dos trabalhos do GMF por considerá-lo um importante instrumento na luta contra o trabalho escravo que, segundo entende, ainda persiste no Brasil.


A OIT-Brasil realizou um levantamento jornalístico e constatou: em 2002 o tema “trabalho escravo” apareceu em 260 matérias na mídia. Em 2003, o número saltou para 1541 e, em 2004 mantinha ainda 1518 destaques. Segundo a Rede Social de Justiça e Direitos Humanos o Pará acumulou, no período de 2000 a 2003, 74% do total nacional de trabalhadores envolvidos em denúncias de escravidão (13.331). Essa proporção só baixou em 2003 por conta do aparecimento de casos de trabalho escravo “onde ainda não se suspeitava que existisse, como Bahia e Rio de Janeiro” (http://www.social.org.br/relatorio2003/relatorio013). Segundo a ONG Repórter Brasil, em artigo de setembro último, o estado do Pará, com uma média anual de mais de 100 estabelecimentos denunciados por trabalho escravo e mais de 10.000 trabalhadores libertados da escravidão desde 1995 (sendo 7.000 nos últimos 5 anos: um terço do total nacional), “deveria ser o primeiro a intensificar a vigilância, a prevenção e a repressão a essas práticas.” Em texto assinado por Xavier Plassat, da Comissão Pastoral da Terra – CPT, se coloca a não aceitação da idéia de flexibilização do combate à escravidão em nome dos imediatos interesses mercantis devido o crescimento do agrobusiness. E os dados alarmantes não param de surgir. A pesquisadora Maria Aparecida de Moraes Silva, Unesp, especialista no estudo da exploração da mão-de-obra no setor da cana-de açúcar, destaca que de 2004 a 2007 ocorreram 21 mortes, supostamente por excesso de esforço durante o corte da cana. Chegam a cortar/dia 15 toneladas para render o trabalho. A vida útil de um cortador é inferior a 15 anos, nível abaixo dos negros em períodos da escravidão, de acordo com a socióloga. Segundo os usineiros, o cortador ganha em média R$ 2,40 por tonelada de cortada, atingindo entre R$ 700 e 1.200,00/mês no período de contrato. E o governo está eufórico com as possibilidades econômicas do etanol no mercado internacional. Como fica a questão social no caso? Além disso, conforme a Síntese dos Indicadores Sociais do IBGE/2007, há ainda 2,5 milhões de crianças na faixa de 10 a 15 anos que trabalham e estão especialmente na agricultura e na região nordestina. Então, com esse cenário, dá para abrir-se mão das ações do GMF? Pode-se ser tolerante com as questões dos direitos trabalhistas neste país? Óbvio que não.


A ‘era neoliberal’, sentida no Brasil desde o final dos anos 80, discursando sobre um pretenso equilíbrio das conversações entre capital x trabalho em meio ao mercado, onde o patronato defende para maior ‘dinâmica econômica’ uma diminuição da presença do Estado no que é conhecido como direitos do empregado, levou na verdade à perda de conquistas por parte deste. E nós nunca tivemos um Estado efetivamente de Bem-Estar Social, nos moldes europeus, diga-se de passagem. Somos um povo com imensas desigualdades sócio-econômicas, de grandes desequilíbrios.


Nos últimos anos tem-se notado no país uma recuperação da renda da grande massa de forma gradual. De 2003 a 2005 a redução acumulada da pobreza foi de 36%, segundo a FGV. Entre 2005 e 06, houve uma redução de mais de 5 milhões de miseráveis, aqueles que recebem abaixo de R$125/mês. Ainda assim, são contados ao menos 36 milhões de seres numa qualidade inferior à pobreza. Também o IBGE/PNAD traz dados de melhoras. Contudo, tendo em vista todas as recuperações dos últimos anos, a renda média do trabalhador brasileiro é ainda 10% menor que a de 1996. E cerca de 47 milhões vivem na informalidade, sem proteção alguma. Mais de 53% da PEA. Sem auxílio doença, aposentadoria, pensão por morte, férias, 13º, descanso remunerado, hora extra, licença maternidade e paternidade, aviso prévio etc. É uma brutalidade.


Na Paulicéia imigrantes bolivianos atuam quase como escravos em suas jornadas de trabalho. Nos bairros do Brás, Pari e Bom Retiro produzem roupas em um ambiente fechado, sem janelas e pouca luminosidade. Eles moram nas fábricas e ainda pagam para o patrão, da água, luz e comida que utilizam até a própria ferramenta de trabalho, a máquina de costura. Desta maneira, acabam endividados e ‘presos’ nas confecções. É a versão urbana para o problema rural apontado anteriormente. Conforme o Centro de Apoio ao Imigrante, da CNBB, os trabalhadores caem nessas condições devido a pobreza existente em seu país, que os faz sair de lá. A Bolívia é a nação mais pobre da América do Sul. Aqui temem a denúncia de seus patrões que podem – ironia do destino - denunciá-los à polícia e haver deportação. Assim, preferem arriscar-se. E sobrevivem, sob tal aperto e humilhação, no coração da maior metrópole brasileira. Que pensar das situações dos trabalhadores nos grotões?! Tudo isto é extremamente grave e triste. Os trabalhadores estão fragilizados.


No mundo, 180 milhões de pessoas estão numa situação de desemprego "aberto" (procurando, mas não encontrando vaga), sendo mais de 1/3 jovens de 15 a 24 anos. Um terço da mão-de-obra internacional está desempregada e subempregada. Não é possível, por isso, abrir concessões para abrandar ações como o uso do trabalho precário na produção e serviços. E, muito mais ainda, do trabalho escravo, que é absolutamente intolerável por se caracterizar como um crime de cerceamento da liberdade dos indivíduos. Estima-se, segundo a OIT, que o mundo tenha mais de 12,3 milhões de pessoas nesta circunstância. Mais de 2,4 milhões foram traficados. Quase 10 milhões são explorados por agentes privados. O Brasil precisa evitar a todo custo a permanência deste tipo de opressão sobre os seus trabalhadores, condicionados a uma vida subumana, sem dignidade. A sociedade não pode permitir este fato aviltante. Precisa pressionar o governo a manter forte fiscalização sim e punir com rigor aqueles que submetem os indivíduos a essas circunstâncias degradantes. Se a informalidade é ruim, que dizer do trabalho forçado? Não dá para aturar a permanência da escravidão 119 anos depois de sua abolição. Pactuar com isso é pura barbárie.

 

São Paulo, 5 de outubro de 2007.

 

José de Almeida Amaral Jr.
Professor universitário em Ciências Sociais
Economista, pós-graduado em Sociologia e mestre em Políticas de Educação
Colunista do Jornal Cantareira
Colunista pela Pascom na Rádio 9 de Julho Am 1600 Khz
Colaborador do Jornal Mundo Lusíada

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