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Notas Quotidianas » José de Almeida Amaral Jr.

05/OUT/2007

 

Brasil/Corrupção

Nossa responsabilidade no combate a Corrupção

 

O mês de Outubro chega e traz em seus primeiros dias a publicação da pesquisa do MCCE - Movimento de Combate à Corrupção. Corrupção é uma palavra feia. Ela quer dizer, segundo os dicionários, decomposição, putrefação, depravação, suborno, ato contrário ao dever ético. Mas, apesar dessa intensa carga negativa, acompanha o ser humano há muito tempo, sem dar tréguas à tentação. Por exemplo, Judas Iscariotes, o tesoureiro entre os 12 apóstolos de Jesus, há cerca de 2000 anos recebeu 30 moedas de prata para delatar seu Mestre aos perseguidores. Por uns trocados ajudou a sacrificar o Messias. É verdade que, segundo a tradição cristã, teve séria crise de arrependimento e se matou logo depois. Porém, nem todo sujeito corrupto tem dessas manifestações de consciência crítica. Pelo contrário. Muitos até se envaidecem pela coragem e astúcia. E justificam seus atos. Ações graves que não deveriam proliferar. Contudo, a realidade nos joga na cara o contrário.


O mundo da política é um prato cheio para essa prática. Todo dia a imprensa nos bombardeia com esse tema. Está absolutamente banalizado. Virou piada, chacota. O intelectual baiano Ruy Barbosa, durante a República Velha, escreveu certa vez “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.” Uma persistente infâmia, com certeza. Todavia, apesar do sentimento de impunidade existente entre nossos representantes - acarretando a partir daí, diga-se, a grande sensação de descrença em muitas de nossas instituições governamentais para a população em geral - a Justiça Eleitoral, nos últimos 7 anos, está atenta, conforme mostra o estudo do MCCE. Ela já cassou mais de 620 mandatos de gente que não se comportou como deveria, isto é, se elegeu de forma ilícita.


De acordo com o levantamento, resumidamente, foram cassados dois governadores (e seus vices), seis senadores (incluindo suplentes), oito deputados federais, 13 deputados estaduais (e distritais), 508 prefeitos (mais os seus vices), e 84 vereadores. Estão aqui contabilizados somente os que perderam mandatos por problemas de irregularidade eleitoral, não incluindo condenações criminais.


O Estado que apresentou o maior número de cassações desde 2000 foi Minas Gerais, com 71. A justiça legou o segundo lugar aos potiguares, com 60 casos e o terceiro aos paulistas, com 55 punições, só para citarmos os primeiros.


Sobre os partidos, o campeão dos membros cassados foi o ex-PFL, atual DEM, com 69 casos. Em segundo lugar, logo atrás o PMDB com 66 punidos. Pouco depois, na desonrosa terceira posição, estão os tucanos, com 58 cassações. Seis postos abaixo do PSDB se apresenta o PT com 10 mandatos cassados. E segue a vexatória lista.
Os dados foram recolhidos e trabalhados pelo juiz Marlon Reis, presidente da Abrampe - Associação Brasileira de Magistrados, Procuradores e Promotores Eleitorais e integrante do Comitê Nacional do MCCE, com base nas informações disponíveis nos sites dos TREs - Tribunais Regionais Eleitorais e do TSE.


Cabe observar aqui que, mesmo com essas decisões, há gente que ainda assim se mantém na ativa como o governador Cássio Cunha Lima, PSDB-PB. Ele entrou com liminar e sobrevive. Pode haver alterações nos dados por recursos em instâncias superiores serem acatadas. O que se deseja é que a Justiça Eleitoral permaneça nesse caminho, sendo cada vez mais forte e rigorosa com nossos políticos, especialmente aqueles que insistem em aproveitar de sua condição para se beneficiar de maneira particular e também aos seus cupinchas. Que o povo não se esqueça dessas coisas a cada pleito. Não seja condescendente.


É preciso muita energia para combater essa praga. E igualmente evitar posições hipócritas em se colocar a questão apenas sendo da esfera pública, como se o setor privado não tivesse igual hábito e fosse um conjunto de entes celestiais. Nem aqui, nem em qualquer lugar deste planeta.


Agora mesmo a Siemens, poderosa multinacional da área de tecnologia das comunicações, foi condenada pelo Tribunal de Munique a pagar multa de 201 milhões de euros por casos de corrupção e suborno. A empresa aceitou o pagamento e assumiu sua responsabilidade. E as investigações prosseguem. Outro exemplo? Em agosto os fundadores da Igreja Renascer em Cristo, o apóstolo Estevam Hernandes Filho e sua esposa, a bispa Sônia Haddad Moraes Hernandes, acusados de estelionato, lavagem de dinheiro, evasão de divisas e falsidade ideológica foram condenados pela Justiça norte-americana a 140 dias de reclusão, cinco meses de prisão domiciliar e dois anos de condicional por crimes de contrabando de dinheiro. Mais: em dezembro/2006 a Receita Federal autuou a Daslu, ‘templo’ da moda e do luxo em São Paulo, em R$ 236 milhões devido à sonegação de impostos na importação de produtos. A penalidade aplicada refere-se a valores de imposto não-recolhido entre os anos 2001 e 2005 com multas e juros. E o publicitário Marcos Valério Fernandes de Souza, do ‘mensalão’ tucano e petista? Está sendo processado por ocultação de receitas e formação de quadrilha, entre 1999 e 2002. Responde também por participação em destruição de notas fiscais em 2005. Ou ainda, segundo informou o jornal O Estado de S. Paulo em setembro, calcula-se que a sonegação de impostos chegue a 30% do PIB. Quanta fiscalização não terá sido comprada para fazer ‘vistas grossas’ por isto? E por aí adiante seguem os exemplos infindos.


Como já dizia uma famosa propaganda de cigarro há décadas, que virou símbolo da prática malandragem, ‘Você sempre gosta de levar vantagem em tudo, não é mesmo?” E aquela que rendeu milhões de votos: “Rouba, mas faz”? Lastimável. Ou seja: corrupção é uma das mais atuantes fraquezas do ser humano, e como ela acaba prejudicando a comunidade em troca de facilitação da vida de quem a utiliza e de sua corriola, precisa ser atacada com muito rigor, sem clemência para os envolvidos. Seja no executivo, no legislativo ou no judiciário. Seja em meio à sociedade civil. Para rico ou pobre. Não importa a origem. Corrupção é crime e ponto final. Deve-se aprender isso desde tenra idade. No seio familiar, na relação com as pequenas coisas. A parceria justiça e educação cidadã poderão atenuar sua proliferação. O combate de seu exercício auxiliará, inclusive, a caminhada para uma sociedade menos desigual, sem privilegiados. E, mesmo assim, a vigilância deve ser permanente. O otimismo com o ser humano deve se acompanhar sempre da prudência.

 

São Paulo, 5 de outubro de 2007.

 

José de Almeida Amaral Jr.
Professor universitário em Ciências Sociais
Economista, pós-graduado em Sociologia e mestre em Políticas de Educação
Colunista do Jornal Cantareira
Colunista pela Pascom na Rádio 9 de Julho Am 1600 Khz
Colaborador do Jornal Mundo Lusíada

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