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Notas Quotidianas » José de Almeida Amaral Jr.

25/SET/2007

 

Sociedade

Saúde Pública na UTI precisa de Doadores

 

Há longo tempo é dramática a situação da saúde pública no país. O SUS – Sistema Único de Saúde foi criado pela Constituição Federal de 1988 e regulamentado pelas Leis nº 8.080/90 (Lei Orgânica da Saúde) e nº 8.142/90. Tem a finalidade de eliminar a desigualdade na assistência da população em geral, obrigando o atendimento público a qualquer cidadão sem cobranças. Deve promover a democratização do acesso à saúde e a prevenção de doenças. Faz parte do SUS centros e postos de saúde, hospitais, laboratórios, fundações, institutos de pesquisa incluindo universitários. Além das unidades públicas municipais, estaduais e federais há também contratos e convênios com grupos privados. A população participa fazendo críticas, sugerindo e fiscalizando o andamento dos trabalhos para seu aperfeiçoamento através das Conferências e Conselhos de Saúde da comunidade. Seu financiamento vem de três fontes básicas: tributos e contribuições federais, tributos estaduais e municipais. Para 2006 constou no Orçamento da União R$ 40 bi para o setor. Um considerável valor aparente. Assim, como explicar a sucessão de greves, a falta de estrutura, de medicamentos e a penúria vivida pelos usuários? O sindicato dos médicos de Pernambuco, por exemplo, publicou relatório acusando a necessidade de contratação urgente de 490 médicos para atendimento de casos graves. Então, se o sistema não funciona, o problema deve ser, portanto, a gestão mal feita. Todavia, nem tudo o que parece assim o é. E, o pior, este país tem, é bom frisar, uma extensa e enferma demanda.


Para se ter uma idéia da realidade e suas distorções, com o pagamento da dívida e seus juros o governo gasta quatro vezes o valor atribuído à saúde! Se há alguém muito bem saudável por estas terras são as finanças dos beneficiados por tal política governamental.


O financiamento está estagnado em menos de R$ 1,00 ao dia por habitante (www.abrasco.org.br/publicacoes/arquivos/20060712142141.pdf).

 

Os convênios com particulares sofreram uma defasagem de 110% entre 1994 e 2002. Nos países desenvolvidos se gasta 70% do orçamento com o setor. Nós ficamos parados nos 45% (OMS 2006 – base: 2003). Representa 3,2% do PIB. Bem abaixo de países como Bolívia, Uruguai, Argentina, todos na faixa dos 5,12% e Portugal, França e Canadá 8,1%. Entre 1995 e 2004 os repasses federais caíram de 60,7% para 49,6% enquanto os estados e municípios subiram de 39,3% para 50,5%. Assim, o sistema fica sucateado e se eleva a dependência do setor privado. Este, por sua vez, segundo o presidente do CNS – Conselho Nacional de Saúde, Francisco Batista Jr., tem uma ‘visão capitalista’ e esquece a prevenção, preferindo tratar as conseqüências e não a causa das doenças. É um estímulo à mercantilização de remédios e tratamentos caros. Para uma grande população pobre como a nossa, é uma situação nefasta. E até o início deste mês de setembro o governo já havia contingenciado verbas na área totalizando R$ 6 bi.
No entanto, o ministério da saúde confirmou que a tabela para vários procedimentos estava agora sendo reajustada. O valor deve ter um impacto de R$ 3,6 bilhões no orçamento da pasta em 2008. Porém, de acordo com o CNS, um grande estrago já está feito devido a paralisação de processos delicados. “Temos um entendimento que as crises deflagradas, especificamente na região Nordeste, têm um componente mais estrutural e mais perverso. No nosso entendimento não serão R$ 6 bilhões ou mesmo R$ 10 bilhões que vão resolver. Nós temos hoje uma demanda por hemodiálise, por medicamentos de alto custo, por procedimentos complexos que é conseqüência da falta de prevenção, da falta de uma ação intersetorial que vem se agravando dia-a-dia e que no nosso entendimento é praticamente impossível de ser financiada em sua plenitude”, disse Batista Jr. (Radioagência NP, 09/2007).


Resumo da situação: o caos na saúde pública vem pela ausência de dinheiro. Não porque ele inexista, afinal, nossa carga tributária é bem gulosa e pesada, mas porque dentro da lógica escandalosa presente ele é disputado e canalizado para outros fins, como a manutenção de alto superávit primário e o pagamento de rentistas, credores beneficiados com nossos sufocantes juros. Deste modo, quem consegue paga planos particulares de saúde. A todos os demais, resta a fé para não ficar enfermo. É mais uma página do horrendo livro que conta a vantagem de poucos poderosos sobre o porvir insalubre da grande massa.

 

São Paulo, 25 de setembro de 2007.

 

José de Almeida Amaral Jr.
Professor universitário em Ciências Sociais
Economista, pós-graduado em Sociologia e mestre em Políticas de Educação
Colunista do Jornal Cantareira
Colunista pela Pascom na Rádio 9 de Julho Am 1600 Khz
Colaborador do Jornal Mundo Lusíada

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