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Notas Quotidianas » José de Almeida Amaral Jr.

23/SET/2007

 

Direito Social

ISONOMIA?

 

Qualquer país que se pretenda democrata e republicano deve respeitar profundamente as instituições que garantem para todos os seus cidadãos a igualdade perante a Lei. E, nesta semana, quase primavera, chega notícia que prova ainda, mais uma vez, a longa caminhada que temos por fazer em nosso aperfeiçoamento social, nos direitos básicos que não são cumpridos por nossas autoridades constituídas.


Um catador de papelão, nascido em Pernambuco e vivendo em S. Paulo, conseguiu após muito esforço adquirir, através de um ‘rolo’ envolvendo uma TV, um aparelho de som e mais R$ 1500, seu primeiro carro. Batido e velho. Recuperou o veículo, colocou bancos, deu uma pintada e, segundo ele, “ficou lindo”. José Machado Sobral, homem negro de 54 anos, começou a namorar a doméstica Neusa Alice de Jesus Dias, da mesma idade, naquele período. E, logo de cara, ela o ajudou na compra do automóvel. Sonho antigo de cada um deles. No dia 10 de março de 2005, quando completavam um mês de namoro, José decidiu que iria voltar ao seu Estado natal, a 15 anos de lá afastado, para uma visita. Estava vivendo aquilo que explicou como sendo “‘um dos melhores momentos de sua vida”. E esse retorno serviria também para renovar documentos perdidos por causa de uma enchente que fora vítima. Tudo bem planejado, só faltava pegar a estrada. Mas, sua sorte começou a mudar naquele instante, conforme apurou o jornal Folha de S. Paulo.


Parado numa batida policial ao dirigir seu veículo, estava sem a Carteira de Habilitação. Foi levado para o distrito policial. Lá, soube-se que o automóvel era roubado. Assim, de imediato, tornou-se suspeito de receptação. E o delegado identificou-o como José Manuel de Sobral. Nome de um outro pernambucano. Só que acusado de tentativa de homicídio no nordeste. Assustado, afirmou que não era aquele incriminado. Alegou ser um engano. Não tinha nada a ver com tal fato. E nem se chamava José Manuel. Não adiantou. Mesmo negando categoricamente a situação não teve retorno. O delegado cismou e decidiu. Ponto final. Ele ficou detido.


Foi pedida a confrontação de suas digitais com as originais. Porém, os arquivos responsáveis pela guarda dos documentos em Pernambuco não os localizou em meio a 300 mil fichas. E José permaneceria sem sua liberdade, até que achassem a prova final.


Em março de 2006 se cogitou sua saída. Contudo, dificuldades com a emissão do alvará de soltura o mantiveram mais um ano com sua vida se escoando na cadeia em Guarulhos. Junto a outros 20 homens. E foi esquecido por lá. ‘”Pensei que não iria mais sair”, disse.


Vários meses depois, em 6 de setembro, a uma vítima do outro acusado foi mostrada foto de José. Logo se percebeu que ele era bem mais velho e não branco como o suspeito. Assim, ainda tendo que esperar mais 15 dias para os trâmites burocráticos, no dia 21 de setembro de 2007 teve finalmente devolvida a sua liberdade. Roubada equivocadamente dele por dois anos e meio.


José saiu dizendo que agora iria poder tirar os documentos que precisava. E também comer da canjica feita por Neusa, que ficou esperando por seu retorno há tanto tempo. “Não vou processar o Estado. Não foi o governo quem me prendeu. Só quero que o delegado perca o cargo”. “Ódio e revolta”, que nunca sentiu antes, brotaram nele. Por isso, “posso matar ou morrer”, afirmou. E deseja que Deus lhe faça justiça. Ele não poderia ter ficado preso pela suposta receptação do veículo por ser primário. Não houvesse o erro de identificação nada disso teria acontecido com o pacato sujeito.


Pacientemente José aguardou seu destino entregue às mãos de gente sem muita pressa. Se ele fosse um indivíduo mais requintado, de outro nível social, dificilmente teria passado pelas humilhações que sofreu. E quanta gente também ainda não estará sendo condenada injustamente – se não já executada – pela aparência, pela falta de educação formal, pela ingenuidade que carrega, pela ausência de recursos que expõem seus documentos aos alagamentos? Onde foi parar a questão da isonomia? Quem indenizará esse cidadão pelos lamentáveis danos sofridos? Quando este país deixará de ser um paraíso para uma minoria de privilegiados e um osso duro de roer para a grande massa?

 

S.Paulo, 23 de setembro de 2007..

 

José de Almeida Amaral Jr.
Professor universitário em Ciências Sociais
Economista, pós-graduado em Sociologia e mestre em Políticas de Educação
Colunista do Jornal Cantareira
Colunista pela Pascom na Rádio 9 de Julho Am 1600 Khz
Colaborador do Jornal Mundo Lusíada

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