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Notas Quotidianas » José de Almeida Amaral Jr.

13/SET/2007

 

Desvio

Merenda Escolar com gosto estranho

 

É notória a falta de qualidade apresentada pela educação pública de nível fundamental e médio no país. Pesquisas recentes mostram estarmos bem aquém dos países desenvolvidos e mesmo de outras nações emergentes, como somos considerados. Professores desvalorizados e sucateados. Alunos desmotivados. Equipamentos em condições precárias. Em síntese, uma educação capenga. E, inserida nessa questão da educação, vai em conjunto a merenda escolar, que é motivo também de críticas: por um lado pelo caráter nutricional e por outro pelas suspeitas de irregularidades em licitações e relações das empresas privadas com os governos.


Por exemplo, nesta semana, terça feira, o jornal “Folha de S. Paulo” publicou artigo onde pelo menos 3 merendeiras de escolas municipais da zona leste de São Paulo afirmaram que ganham prêmio para racionar comida nas unidades. De acordo com o CAE - Conselho de Alimentação Escolar, um dos órgãos oficiais de fiscalização da merenda, nove cozinheiras falaram ser comum entregar aos alunos meia maçã, colocar pedacinhos de frango misturados a legumes para compor a refeição sem que tal procedimento estivesse na receita e também juntar ao molho de tomate bastante água para render mais. Além disso, o jornal constatou que essas funcionárias disseram ter como ‘prêmio de economia’ uma recompensa de R$ 40 por mês paga pela Nutriplus, terceirizada, contratada para tocar os serviços em 158 unidades escolares na Prefeitura paulistana. A empresa confirma presentear funcionárias pela “qualidade do serviço como um todo”, mas não pela “economia” de alimentos... OK. As merendeiras é que devem ter entendido errado.


Não bastando, no dia seguinte o jornal voltou a denunciar a prefeitura. Desta feita acusou a gestão Kassab (DEM) de piorar a qualidade nutricional da sopa que deverá ser oferecida em um programa, “Sábado na Escola”, que reunirá pais e alunos em atividades educativas, culturais e sociais aos fins de semana.


A pedido da Nestlé, interessada em participar da licitação, se diminuiu a quantidade de verdura, carne bovina e frango necessárias para o prato ideal. A previsão nutricional era de 7 kg de carne, 2 kg de cenoura e mais 3 kg de hortaliças por 100 kg de sopa desidratada. Com a alteração, a sopa deverá conter só 0,5 kg de carne, 0,8 kg de cenoura e mais 1 kg de hortaliças. Brutal empobrecimento. E condenado pela Associação Brasileira de Nutrição que aproveitou também para lembrar que servir sopa com clima quente é uma escolha equivocada, podendo se optar por outra possibilidade mais agradável com o mesmo resultado nutricional. Ou seja, mau planejamento. Além da redução dos nutrientes ser reprovada pela OMS – Organização Mundial de Saúde.


O Tribunal de Contas do Município entrou em cena. Mandou, então, para avaliação da situação, cancelar a concorrência por enquanto, segundo o jornal. Para o programa foi destinado R$ 46 milhões, porém não se sabe o valor do contrato. Entretanto, o TCM recebeu reclamações de pequenas empresas devido a exigências feitas que coincidentemente beneficiariam somente a grandes corporações, caso da multinacional Nestlé, já parceira da Prefeitura de São Paulo na distribuição do leite escolar e que detém toda estrutura para fornecimento alimentar. Estranharam a obrigatoriedade de a sopa ser entregue embalada, personalizada, prontinha, 3 dias depois do resultado do pregão! Eficiência total. E outra: foi incluída na sopa de carne o ingrediente pimenta, a gosto da Nestlé. Alem dos concorrentes terem achado esquisito o fato, nutricionistas disseram que a piperácea não traz valor para o prato. Reduzem carne, verduras e aumentam a pimenta. Exótico esse pessoal da Nestlé, não? Entretanto, a Prefeitura afirma que tudo foi feito de forma transparente e mantida acessível pela internet. As mudanças realizadas foram ‘questões técnicas’. Kassab elogiou a empresa por sua seriedade. A multinacional não se manifestou. Esperta, sabe que em boca fechada não entra mosquito. Nem pimenta. O governo municipal lançará em breve programa “Merenda Legal” e este estará aberto à opinião dos consumidores, esperando críticas e denuncias.


Essa combinação de merenda empobrecida e relações estranhas do setor público com o privado – que não se limita a cidade de S. Paulo, com casos pululando pelo país todo infelizmente – não resultam em boa digestão. É preciso que os órgãos competentes avaliem com frieza os fatos para que, se houver provas de condutas ilícitas, justiça seja feita com muito rigor. Tanto na esfera pública quanto na privada, pois não existe uma mais imaculada que outra. Comer na escola, para muitas crianças, é parte fundamental de sua alimentação diária, diminuindo assim a fome quotidiana de quem muitas vezes não tem outras refeições dignas com a família. E estão sendo bancadas por dinheiro suado dos cidadãos contribuintes. Só para lembrar, o Pnae - Programa Nacional de Alimentação Escolar investiu em 2005 algo em torno de R$ 1,3 bilhão. Ele é o maior e mais antigo programa de alimentação e nutrição do Brasil, criado nos anos 50. Seus recursos são repassados diretamente aos Estados, Distrito Federal e municípios. E, de acordo com o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, a partir de setembro 166 municípios deixarão de receber recursos para merendas por não prestarem contas ao Programa Nacional de Alimentação Escolar. Mais 395 municípios estão igualmente em vias de serem condenados. Há, portanto, muito dinheiro rolando para esses fins sociais. Não dá para tolerar desvios ou desleixo. Sumir com dinheiro público e tirar alimento da criançada é crime. Cadeia neles, a pão e água na merenda.

 

S.Paulo, 13 de setembro de 2007.

 

José de Almeida Amaral Jr.
Professor universitário em Ciências Sociais
Economista, pós-graduado em Sociologia e mestre em Políticas de Educação
Colunista do Jornal Cantareira
Colunista pela Pascom na Rádio 9 de Julho Am 1600 Khz
Colaborador do Jornal Mundo Lusíada

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