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Notas Quotidianas » José de Almeida Amaral Jr.

05/SET/2007

 

Previdência Social

A visão dos menos favorecidos na polêmica questão

 

A Secretaria de Políticas de Previdência Social, utilizando informações do Caged - Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, concluiu neste final de agosto que a elevação do nº de trabalhadores com carteira assinada foi muito importante para reduzir o déficit da Previdência, ou seja, a diferença entre arrecadação e as despesas do sistema. Em julho houve uma queda de 5% na dívida em relação a junho e 10% em relação ao mesmo mês em 2006. O valor do ‘rombo’ está atualmente na casa dos R$ 3 bilhões.


Para os conservadores, se não forem cortados benefícios e enxugados custos a Previdência não conseguirá se sustentar. Estatísticas mostram que somos o 14º maior gasto entre 113 países pesquisados em relação aos respectivos PIBs. Pregam, entre outras coisas, a retirada do vínculo com o salário mínimo na seguridade.


Não obstante, outros técnicos não pensam conforme esses critérios. Acreditam que ela foi sim, entre outras coisas, dilapidada, lhe retiraram recursos e, mais ainda, seu déficit gigante é uma interpretação errada, que serve para furtar apoio a políticas de proteção social das camadas mais populares.


A Constituição de 1988 propiciou conquistas aos menos favorecidos. Ela instituiu a Seguridade Social associando previdência, assistência e saúde a todos os cidadãos. Foram criados vários benefícios previdenciários e assistenciais que atingem contribuintes ou não. Tudo para permitir uma diminuição das dificuldades da sobrevivência especialmente aos mais carentes. E para se financiar o programa, verbas deveriam chegar das contribuições do INSS, das rendas de loteria e da CPMF, entre outras.


Há dias dois economistas, Eduardo Fagnani, da Unicamp, e José Celso Cardoso Jr, do IPEA, escreveram artigo para a Folha de S. Paulo dizendo que as classes dominantes jamais aceitam avanços, “mesmo quando se trata apenas de garantir direitos sociais básicos para a construção de uma sociedade democrática e justa”. Segundo seus raciocínios, os opositores buscam ‘comprovar’ uma inviabilidade financeira do sistema. Lembram argumentos conservadores como: “o Brasil gasta muito em aposentadorias e pouco em investimento”. No entanto, aponta a dupla que a proporção do gasto/PIB que apresenta o país não tem discrepância com o quadro internacional. Nossa marca está em 7%. A Argentina é o dobro. Panamá, Chile, Costa Rica e Uruguai também nos são superiores. Explicam os economistas que os benefícios cresceram no período 1988-2006 porque o sistema atinge direta e indiretamente pelo menos 87 milhões de pessoas, lembrando que no período houve uma ‘corrida à aposentadoria’ com medo das reformas entre 1998 e 2003, assim como também se deu uma recuperação do salário mínimo. Mas, concordam que, de fato, existem algumas preocupações. Entre 2000 e 2040 haverá envelhecimento da população, num salto de idosos de 5,5% para 15,3%. Haverá queda na população de até 14 anos, de 29,8% para 19,3% e a que está entre 15 e 64 anos subirá de 64% para 65%. Então, vêem que muito das questões sobre o tema será respondido exatamente pelo crescimento econômico e pela geração de empregos formais. Torcem por um desempenho forte, já que os anos 80 e 90 foram anêmicos. E concluem afirmando que o ajuste fiscal ortodoxo para conter o déficit da Previdência é um fato parcial. Só pelo lado das taxas de juros, entre 1994 e 2002, a relação dívida pública/PIB subiu de 29% para 60%. Entre 2003 e 2006 o estoque da dívida cresceu 500 bilhões ou 50 anos de Bolsa Família. Isto sim que é barbaridade.


Henrique J. Magalhães, jornalista e pesquisador dos problemas em seguridade social, escreveu para a Adital – Agência de Informação Frei Tito para a América Latina no início de agosto que no INSS há 20 milhões de beneficiários atualmente. Segundo ele, os cálculos que apresentam déficits imensos, como o de R$ 42 bilhões em 2006, não contam a arrecadação da Cofins, CSLL e CPMF, três tributos destinados à Previdência. Considerando estas fontes, o resultado é na verdade um superávit de R$ 1,25 bi no ano passado. Isto, sem contabilizar o crédito de R$ 156 bi pelas dívidas de empresas caloteiras, conforme cálculo da Advocacia Geral da União. A ele, assim como para os estudiosos anteriores, também falta um crescimento econômico decente ao país para incrementar o nº de carteiras assinadas.


No entender de Magalhães as críticas à elevação do salário mínimo e seu vínculo ao piso previdenciário traz consigo a intenção clara do sistema financeiro não assumir o pagamento dos atuais aposentados pelo Estado. Por isso estimula-se tanto a previdência privada. O Estado assim ficaria livre apenas para manter a política rentista dos beneficiados com os altos juros e, portanto, quanto menos gente sugando o sistema, melhor.


De acordo com seus cálculos, 14 milhões de beneficiários da Previdência e 3 milhões da Assistência recebem o mínimo. Isto significa 67% dos beneficiários da Previdência Social vivendo com o mínimo, sendo que na cidade a proporção é 44,5% e no campo 99%. Cada benefício ajuda a sustentar cerca de 2,5 pessoas. Então, enxugar essas políticas implicará em atingir a vida de algo em torno de 60 milhões de brasileiros pobres. Ele aponta análises feitas pelo IPEA em 1999 onde os benefícios previdenciários respondiam, em média, por 41,5% do orçamento familiar rural no sul do país e 70,8% no nordeste. E não há motivos para se acreditar numa mudança favorável desse quadro para os dias atuais. Além disso, tomando por base outro estudo do IPEA, este de 2006, sem os benefícios previdenciários e assistenciais mínimos o percentual da população abaixo da linha da pobreza passaria de 31 para 38%. Desses 7 pontos, 5 são pelo piso previdenciário e os outros 2 pelos benefícios do BPC - Benefício de Prestação Continuada e Bolsa-Família. Em síntese, nas suas próprias palavras, “sem a previdência o interior quebra”.


Em comum com as opiniões anteriores, a pesquisadora da UFRJ, Denise Lobato Gentil, em estudo publicado em julho pela agencia Adital, afirma que nem a Previdência e nem a Seguridade Social são deficitários. Ao contrário, são superavitários e seus recursos são desviados para outros fins. Defende, através de suas análises, a necessidade de um crescimento econômico vigoroso para expansão do emprego formal e da renda média. A reforma proposta pelos economistas e técnicos ortodoxos é, a seu ver, nefasta à sociedade, devido a precariedade da vida de quem usufrui desses benefícios.
Jorge Moreira, secretário da Federação Nacional do Sindicato dos Trabalhadores em Saúde, Trabalho, Previdência e Assistência Social, reforça o grupo acima. Afirma que a dívida no setor existe por má gerência do dinheiro público. O governo utiliza a arrecadação da previdência para a efetuação de políticas em outros campos, como por exemplo, pagar os rentistas. É preciso se reverter essa lógica. De acordo com a Radioagencia NP, a queda do déficit em 5% no mês de julho é reflexo da diminuição na informalidade do Brasil, fator que hoje ainda é responsável pela geração de 40% do PIB - Produto Interno Bruto.


Conforme a Adital, 82% da população com mais de 60 anos estão protegidas. Faltam ainda 3,3 milhões de idosos para integrar o conjunto. A América Latina tem uma variação para essa faixa entre 30 e 40%. É um excelente resultado por parte do Brasil das políticas de atendimento aos necessitados embora ainda apresente, conforme a agência, 55,9 milhões de pessoas abaixo da linha da pobreza. Quer dizer, se retirando os benefícios previdenciários e assistenciais pagos a 21 milhões de indivíduos, o total de pobres iria para 76,9 milhões. E o IPEA concluiu que o BPC é mais eficiente no impacto sobre a pobreza que o próprio Bolsa-Família. Este, a propósito, é um programa de transferência de renda destinado a famílias com até R$ 120/mês por pessoa e atinge hoje 12 milhões de brasileiros.


Portanto, tendo em vista os resultados desses programas, antes de cortar ou reduzir benefícios, vamos atacar com violência a sonegação, as falcatruas, as corrupções; rever as isenções dos não pagantes e tomar ciência do quanto são justas tais situações; levar para o setor receitas desviadas a outros fins extinguindo a DRU – Desvinculamento de Receitas da União – que também tira fundos da educação – e, obviamente, crescer economicamente de forma contínua e com boas taxas para criar postos de trabalho formais. Não podemos abrir mão deste mecanismo que auxilia verdadeiramente milhões de brasileiros para beneficiar minorias de rentistas e reduzidos interesses privados. Já passa da hora de promovermos uma melhoria à imensa maioria de nossa população. Todavia, se nestes tempos bicudos garantir os direitos é uma meta razoável, futuramente equilibrar a distribuição de renda será a nova luta. E das imensas. Ou você é um daqueles que acha está tudo certo em, segundo o IPEA, termos 10% de indivíduos detendo a riqueza de 80% do que é produzido no país?

 

José de Almeida Amaral Jr.
Professor universitário em Ciências Sociais
Economista, pós-graduado em Sociologia e mestre em Políticas de Educação
Colunista do Jornal Cantareira
Colunista pela Pascom na Rádio 9 de Julho Am 1600 Khz
Colaborador do Jornal Mundo Lusíada

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