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Notas Quotidianas » José de Almeida Amaral Jr.

01/SET/2007

 

Renda e Consumo

Saiu mais um retrato Social do Brasil e ele continua ruinzinho na foto

 

A nova pesquisa sobre a sociedade brasileira divulgada neste final de agosto pelo IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística veio mais uma vez corroborar as necessidades urgentes de uma mudança de cenário referente a distribuição de renda dentro desta nação. Equilibrar a repartição e promover uma melhor justiça são objetivos que não podem mais tardar. Olhemos alguns dos seus resultados.


Para o trabalho da POF - Pesquisa de Orçamentos Familiares 2002-2003 o IBGE se baseou em uma tabela que destaca a renda média mensal familiar total e os rendimentos específicos associados a cinco classes de famílias. A primeira classe indica a produtividade mensal de até R$ 400 e inclui as famílias sem rendimento; a segunda revela rendas familiares maiores que R$ 400 até R$ 1.000; a terceira indica rendimentos acima de R$ 1.000 a R$ 2.000; a quarta de R$ 2.000 a R$ 3.000; e a quinta é composta pelas famílias com produtividade superior a R$ 3.000.


Para começar, num olhar geral, de acordo com os estudos, registrou-se no período 2002/03 que os 10% mais ricos tinham um gasto médio mensal 10 vezes maior que os 40% mais pobres. Isto porque o gasto médio do ‘andar de cima’ ficou em torno dos R$ 1815 enquanto que o grupo do ‘térreo’ teve que se virar com R$ 179 ao mês. O grupo dos 10% mais ricos tinha um rendimento superior mensal familiar de R$ 3876,00. No outro lado, dos 40% mais pobres, a renda mensal familiar era inferior a R$ 758,00. Dentro destas análises, a região nordeste revelava deter as maiores discrepâncias entre os extremos sociais. Os ricos torravam 11,8 vezes mais que os pobres, numa relação per capita de gastos no valor de R$ 1.600 para os mais ricos, enquanto os mais pobres tiveram que se contentar com R$ 138. Mais especificamente nas Alagoas, esta diferença subia para 15 vezes, ou seja, R$ 1839 versus R$ 118. Assustadores os dados, não é mesmo?


As regiões menos desiguais foram Norte e Sul. O Norte apresentou a menor despesa entre os ricos, R$ 1.244, enquanto os pobres gastaram cerca de R$ 160. No Sul se registrou a maior despesa entre os pobres, R$ 234, enquanto os ricos gastavam cerca de R$ 1.800. São distâncias médias praticamente equivalentes a oito vezes entre os pólos. Mesmo sendo o mais baixo desequilíbrio, ainda assim é excessivo.


Por Estado, entre os mais pobres, o Maranhão possuía a menor despesa per capita, R$ 116, e o Distrito Federal a maior, R$ 280. Já entre os ricos, a menor despesa ficou com o Amapá, R$ 913, e a maior com o Rio de Janeiro, R$ 2.339. Há uma curiosidade: é o fato do Amapá ter demonstrado relação mais equilibrada nas despesas familiares, com a mais baixa diferença de gastos per capita entre os mais ricos, R$ 913, e os mais pobres, R$ 180, em 5,3 vezes. Em São Paulo, o mais poderoso da federação, os 40% mais pobres tiveram que se virar mensalmente com R$ 244 enquanto que os 10% mais ricos, na época cerca de 3,8 milhões de paulistas, gastavam R$ 1709. Isto revela a disparidade entre as regiões brasileiras, com a supremacia bem evidente do sudeste.


Vejamos agora maiores detalhes para questões de ‘raça’, gênero e escolaridade.


Aqueles que se auto-declararam brancos, apresentaram um rendimento médio familiar mensal de R$ 2283, resultando em 81% mais que os auto-declarados negros, ao deterem R$ 1264. Em relação aos pardos a situação é pior: R$ 1242, ou seja, 84% menor do que os de pele alva.
Do ponto de vista dos gêneros, a mulher, declarada como chefe de família, gasta mais do que o homem com habitação, saúde, higiene e cuidados pessoais, por exemplo. Homens gastam mais que as mulheres em alimentação, recreação, cultura, transporte e fumo. Eles são em número mais elevado os chefes de família. E o rendimento dos homens era 21% maior que o das mulheres. Boa parte das mulheres chefes de famílias são as solteiras com filhos.


Maior nº de anos na escola também acusa vantagem nos rendimentos, revelam os resultados do IBGE. As famílias chefiadas por pessoa com 11 anos ou mais de estudo detinham R$ 3.796, 404% mais que os R$ 752 encontrados em famílias cuja pessoa de referência tinha menos de um ano na escola. Segundo a pesquisa, a maior concentração de famílias - 14,2 milhões do total de 48,5 milhões de famílias - se encontrava no agrupamento de 4 a 7 anos de estudos, com rendimento médio de R$ 1.324. Destaque-se que em 2003, 84% das famílias não possuíam integrantes com nível superior. Dos 48 milhões de famílias entrevistadas, 40 milhões responderam não terem entre os seus alguém cursando ou já com nível superior completo à época. E, nota-se, quanto mais se estuda, mais se valoriza a educação: a despesa com escola foi 20 vezes maior nas famílias cuja pessoa responsável sobre os gastos do domicílio tinha 11 anos ou mais de estudo do que a observada nas famílias com menos de um ano de freqüência aos bancos escolares.


Apesar da importância da educação, os brasileiros gastam mais com outros itens. Na faixa entre 1 e 3 anos de estudo, com educação se gasta 1,4%; já com veículos e combustível se chega aos 6,9% e com impostos 2,1%. Para a faixa de 11 anos ou mais de estudo, os dados são 4,9%, 10,8% e 6,4%, respectivamente. E independente da composição familiar, os gastos com questões de habitação chegaram a 35,5%. É o campeão dos gastos. E dentro dele, o maior peso fica com o preço do aluguel: 45%. O vice-colocado geral, como item de maiores custos, é a alimentação: 20,7%, em todas as formas de família, excetuando-se as sem filhos, onde se sofre mais com transporte. E claro, também se destaca as despesas com saúde. As famílias mais ricas gastam 35% com planos de saúde e 43% dos mais pobres a despesa recai sobre remédios. Nesta área, somente 1,9% dos custos com saúde entre os ricos vai para hospitalização. Já entre os pobres este resultado chega em 8%. Entre os mais ricos, 87% é independente dos serviços públicos de saúde. Entre os mais pobres, bem menos: 44%. Como os preços são altos, imaginem a dificuldade deste segmento para pagar os tratamentos privados.


Entre os grupos religiosos, o rendimento médio mensal nas famílias cujo chefe se declarou espírita foi de R$ 3796; entre os católicos foi R$ 1791 e entre os evangélicos pentecostais os rendimentos são os mais baixos, na ordem de R$ 1271. Entre os evangélicos não pentecostais se dá o maior percentual em forma de doações para as igrejas, 3,6%. Protestantes históricos oferecem 2,8%, pentecostais 1,8% e os católicos 1,4%. Os espíritas, que lideram as rendas, contribuem com apenas 1,2% dos dízimos.


São alguns dos resultados que revelam um pouco mais do retrato do Brasil contemporâneo. Eles tornam a denunciar ser este um país que carrega ainda fortes marcas do passado escravocrata e patriarcal, cerca de cento e vinte anos após a proclamação da sua república, com uma pirâmide social onde a base é imensa em oposição a seu estreitíssimo cume. Assim, temos nesta pesquisa mais do mesmo: sucedem-se levantamentos que causam indignação e constata-se a lentidão para um quadro de menor discrepância.


Portanto, é preciso que façamos algo verdadeiro para dar um basta a esta longa história de absurdos. E mais: ao tomarmos contato com esses levantamentos se percebe o quanto há de mesquinharia em nossas elites e seus bajuladores ao chiarem de programas ‘analgésicos’ como o Bolsa-Família. Seu teto tem um benefício de R$ 95 a R$ 105, bem menos que o salário mínimo vigente de R$ 380,00. Uma ninharia que, apesar de tudo, ampara milhões de pessoas dando-lhes uma sobrevida menos tenebrosa e, não existindo, aumentaria ainda mais o nº de excluídos e o risco de convulsões sociais. Todavia, as pesquisas mostram também que esse tipo de ação paliativa não basta. É muito frágil. Entretanto, a crítica deve ser não para eliminá-la e sim avançar e promover autonomia para essa gente toda. Uma política de promoção social mais agressiva envolvendo trabalho, renda e escola.


Uma hora estas estatísticas todas contarão algo mais alvissareiro. Não creio que eu verei esse futuro. Entretanto, a minha esperança não cansa.

 

José de Almeida Amaral Jr.
Professor universitário em Ciências Sociais
Economista, pós-graduado em Sociologia e mestre em Políticas de Educação
Colunista do Jornal Cantareira
Colunista pela Pascom na Rádio 9 de Julho Am 1600 Khz
Colaborador do Jornal Mundo Lusíada

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