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26/AGO/2007
Política Social
Pobre Brasil
Com o ‘apagão aéreo’, que deixou os
aeroportos entupidos no primeiro semestre de 2007, mais o
lamentável acidente do avião da TAM em Congonhas, zona sul da
cidade de S. Paulo, durante as férias de julho, a elite mais a
oposição ao governo federal criaram um movimento que se tornou
conhecido por “Cansei”. Teve apoio do PSDB, do DEM (ex-PFL, reduto
de muitos membros da Arena, partido da situação na época da
ditadura) e da OAB seção S. Paulo, além de socialites e
celebridades da televisão como Hebe Camargo e Regina Duarte.
Acusam o atual governo de acomodação,
corrupção e de ter copiado o modelo de FHC naquilo que de melhor
apresenta, os resultados da economia. De fato, eles têm alguma
razão. São dois governos muito parecidos. Curioso, por isso, não
terem se cansado antes. Lula desde que tomou posse afastou-se dos
quadros mais radicais de seu partido, inclusive vários deixaram a
sigla ingressando ou criando outras alternativas, como o PSOL,
sentindo-se traídos. O ex-sindicalista fez alianças com
conservadores como o PL e mantém parceria no Congresso com o PMDB.
Até utiliza gente no governo que esteve ligado a gestão anterior.
Ambos, petistas e tucanos, estão fazendo a alegria dos banqueiros
e rentistas enquanto o povo recebe anestésicos de políticas
compensatórias tipo Bolsa Família e programas assistencialistas
afins. Vimos desde os anos 80 com um crescimento lamentável em
nosso PIB. Temos juros sufocantes nos dois governos. A qualidade
educacional no país é horrível e S. Paulo, um enclave estadual
tucano, solta adolescentes em final do nível médio sem saber
escrever ou calcular. Falaram e não fizeram a reforma agrária.
Então, se na prática são tão semelhantes, do que reclamam os
membros do movimento?
Dados da Receita Federal e do The Boston Consulting Group (BCG) em
julho/2007 mostram que o Brasil tem 130 mil milionários, os mais
ricos da América Latina, com fortuna conjunta estimada em US$ 573
bilhões, totalizando mais da metade do PIB nacional. Este cenário
permitiu ao jornal francês Le Figaro afirmar que “Lula faz a
alegria dos ricos brasileiros” graças às elevadas taxas de juros e
ao boom das matérias primas. Finanças e negócios conhecem uma “era
dourada”.
A Bolsa de São Paulo bate recordes há
três anos. Segundo a agência Adital, em Recife, na butique Dona
Santa, que atende clientes chiques de diversos estados, as bolsas
da nova coleção Prada tiveram todas as 15 unidades recebidas
vendidas no início de agosto e uma fila de 30 interessados ao
preço módico de R$ 7000,00. A Construtora Gafisa tem apartamentos
em Manaus cujo preço mais barato é R$ 800 mil. E já fizeram outros
empreendimentos com total sucesso, em valores que rondavam para
começar os R$ 2 milhões a unidade. Entre 2000 e 2005 o país saltou
da 18ª posição para a 14ª no ranking dos milionários. Só perde
nessa progressão para a China, já ultrapassando a Índia e a
Rússia. E mesmo assim, com Lula se esforçando em contemplar os
ricos – conforme atestado até mesmo pela mídia internacional - ele
não é querido pela elite. Enfim, por que essa má vontade? Será que
dá afinal para se entender?
A solução para o enigma é algo profundo e não assumido na maior
parte das vezes. Mas, que se expõe quando escapa o controle. E as
declarações há dias do presidente da Philips, Paulo Zottolo, um
dos promotores do movimento “Cansei”, são a prova cabal disto. O
nervo que se expôs sem desejar. Escapou.
A elite e boa parte da classe média – que vive na corda bamba e
inúmeras vezes é tragada pelos rombos do cheque especial, porém
acha que é chique e por isso abandonou o ensino e a saúde pública
que lhe serviam migrando para o setor privado, optando por pagar
ao invés de se indignar e agir contra a precariedade dos rumos
governamentais e exigir qualidade no atendimento público geral –
não suportam o ‘povo’, ou seja, as camadas populares. Querem
distancia na prática. Repetem quando podem o ‘isolamento em
Versalhes’, tal qual a aristocracia francesa no Iluminismo. Vão
para seus condomínios, para suas fortificações. Desta forma,
apesar de tudo, com todos os resultados e multiplicações de
milionários e fortunas, Lula não escapa de suas origens humildes.
Representa simbolicamente essa gente cafuza, mameluca e mulata.
Seu passado o condena. Sertanejo nordestino, migrante
pau-de-arara, operário. E sindicalista. Por isso o chefe da
divisão brasileira da multinacional holandesa disse, do alto de
seus R$ 2 milhões salariais mensais, que: “se o Piauí deixar de
existir ninguém vai ficar chateado”. Prepotente, arrogante,
preconceituoso. Desnudou seu ‘cansado’ grupo sem querer. A própria
empresa que o emprega tentou passar incólume para evitar danos de
imagem. Ele foi transparente. Essa é a dura realidade. Há um
desprezo permanente pelos mais simples. Vivem num outro mundo,
sentem-se milaneses ou novaiorquinos. I’m so tired...
Manhã de sexta feira, bairro do Morumbi, dentro de um hipermercado
da multinacional francesa Carrefour, na agência Bradesco, o vigia
José Ramos da Silva foi assassinado com um tiro de fuzil no peito
ao tentar evitar um assalto, empunhando um revólver calibre 38 e
um colete à prova de balas. O tiroteio assustou todo mundo que por
lá estava.
Gente se jogou no chão, pulou para
trás dos móveis, se escondeu como pode para fugir das rajadas. As
marcas ficaram nas paredes e teto. Pânico. Pessoas abaladas não
conseguiram permanecer depois no local. E entre os caixas
eletrônicos ficou o corpo do indivíduo baleado. Assim que passou o
impacto, 60 minutos depois do fato, a empresa já estava
funcionando normalmente. Conforme disse a assessoria de imprensa
do hipermercado: “sem problemas, o local está isolado”. Com o
lugar e o corpo do trabalhador ocultados por uma lona e carrinhos
de compra a gerência colocou os aparelhos de som para alegrar o
ambiente a partir do setor de eletrônicos. Depois de 5 horas de
‘apagão da assistência’, chegou um carro do IML para retirar o
cadáver. Para o banco, “todos os procedimentos de segurança foram
adotados”. Silva, 35 anos, é o Piauí de Paulo Zottolo e sua
confraria. Não faz parte dos 10% que detêm 80% da renda nacional (IPEA/2007).
Sumiu do mapa e ninguém reclamou.
Pobre Brasil.
José de Almeida
Amaral Jr.
Professor universitário em Ciências Sociais
Economista, pós-graduado em Sociologia e mestre em Políticas de
Educação
Colunista do Jornal Cantareira
Colunista pela Pascom na Rádio 9 de Julho Am 1600 Khz
Colaborador do Jornal Mundo Lusíada
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