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Notas Quotidianas » José de Almeida Amaral Jr.

26/AGO/2007

 

Economia e Sociedade

O consumo e desperdício de uns e a fome de outros

 

Pedro de Sá/Lusa

População de Samaruja, debaixo de chuva intensa, aguarda ajuda alimentar urgente. Extensas áreas do centro de Moçambique atravessadas pelo rio Zambeze poderão estar a beira da tragédia, se a chuva continuar a cair com intensidade 13-02-2007

 

A World Water Week, uma conferência mundial sobre as águas realizada neste mês de Agosto em Estocolmo, Suécia, produziu um documento que pede mais uma vez atenção à sociedade para a escassez da água potável, isto é, o grande aumento sobre seu consumo. Aponta para a poluição de mananciais e, somado a isso, o desperdício quotidiano. Este, aliás, bom lembrar, é uma dificuldade denunciada há muito pela nossa SABESP. Nos seus informes, já avisaram que uma torneira pingando gasta 46 litros por dia, quantidade suficiente para sustentar um indivíduo por quase três semanas. Se a torneira ficar aberta por 15 minutos com um quarto de volta o gasto será de 108 litros. Com meia volta, 280 litros. Com uma volta completa serão gastos 380 litros de água. E por aí vai o descalabro. Mas, um novo aspecto bem preocupante do referido encontro vem pelo relatório do Comitê Científico do Instituto Internacional de Água da capital daquele país escandinavo. Ele afirma que os países mais ricos além de desperdiçarem milhões de toneladas de água para produzir alimentos - a produção de um quilo de carne, por exemplo, usa de 10 a 15 toneladas de água - as famílias dessas potências também fazem o maior desperdício da própria alimentação.


Os estudos revelam que nas famílias cujos membros existem crianças pequenas cerca de um quarto do alimento preparado é jogado no lixo. Nos EUA, as famílias jogam fora algo em torno de meio quilo de comida diário, cerca de 40% dos alimentos. Entre os britânicos o desperdício ronda de 30 a 40%, correspondendo a um prejuízo de 20 bilhões de libras ou R$ 82 bi/anuais. Dois pontos ampliariam esta prática: os prazos de validade que não são minimamente ultrapassados pelos consumidores. Não querem correr risco algum com deterioração.

Nem por 24 hs de ultrapassado o vencimento. E, pior, mais insensato e que reforça o item anterior: consumo exacerbado, isto é, compra-se demais, guarda-se e não se utiliza o adquirido. Ofertas ‘tentadoras’ e muito dinheiro disponível no bolso acabam por potencializar o consumo das famílias mais abastadas, num exercício de excessos e, consequentemente, de desperdícios. Conforme os cálculos do Comitê, somando famílias, restaurantes e supermercados dos países ricos, com as perdas da cadeia produtiva, a proporção de desperdício pode chegar aos impressionantes 50% (Radioagência NP). A coisa é claríssima: não se pensa no todo, apenas em seu próprio umbigo.


A ONU em fevereiro deste ano, segundo sua publicação intitulada "Flat World, Big Gaps" quando da realização da 45ª sessão da Comissão sobre Desenvolvimento Social, afirmou que a repartição da riqueza mundial piorou e os índices de pobreza se mantiveram sem mudanças entre 1980 e 2000. Em Julho último a ONU divulgou nota alertando que 19% da humanidade sobrevive com menos de US$ 1/dia: mais de 1 bilhão de pessoas está abaixo da linha da pobreza em todo o mundo. Com o mencionado desperdício alimentar – sem falar na própria água potável - dos países centrais, cada vez mais fica óbvia a responsabilidade da permanência da fome no planeta. Já afirmava na primeira metade do século XX o intelectual brasileiro nascido em Pernambuco Josué de Castro que a desnutrição não é um problema de excesso de bocas para pouca comida produzida. Não é um problema natural e sim um fato fabricado pelo homem.


A ciência realiza pesquisas que comprovam com passar do tempo o caráter predatório e cruel do sistema capitalista, tanto pelos aspectos dos impactos ambientais quanto pelo viés da concentração de renda e poder. Enquanto a vida for guiada pelas ambições de lucro a todo custo, poucos beberão da água doce, comerão as quantidades diárias necessárias, terão um sistema de saúde e educação dignas e habitarão moradas decentes. Somente um modo de produção de caráter solidário e ao mesmo tempo respeitoso em relação aos elementos da natureza tirará o planeta do permanente risco da extinção das espécies, incluindo a do próprio ser humano.


São Paulo, 26 de Agosto de 2007.

 

José de Almeida Amaral Jr.
Professor universitário em Ciências Sociais
Economista, pós-graduado em Sociologia e mestre em Políticas de Educação
Colunista do Jornal Cantareira
Colunista pela Pascom na Rádio 9 de Julho Am 1600 Khz
Colaborador do Jornal Mundo Lusíada

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