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Notas Quotidianas » José de Almeida Amaral Jr.

21/AGO/2007

 

Energia

Biocombustíveis: Dúvidas Renováveis

Entre os grandes problemas da humanidade para seus dias futuros reside a busca de renovação da energia para o uso quotidiano, seja nas casas ou, principalmente, nos diversos setores produtivos da economia.


Uma dessas importantes fontes de energia que tem largo uso e causa intensa preocupação é o petróleo. Ele não é renovável. É de origem fóssil. Além desse aspecto, ainda contribui intensamente para a produção do dióxido de carbono, dos grandes responsáveis pelo aquecimento global, fato que se intensificou bastante no planeta durante o último século, com a industrialização. Carvão e a fissão nuclear também são tipos de energia que poluem o ambiente de forma agressiva. A China, país que tem um vigoroso crescimento econômico há décadas e usa muito o carvão, já é o maior poluidor do planeta, ultrapassando os EUA neste ano de 2007. O Banco Mundial anunciou que 500 mil pessoas já morreram devido ao envenenamento das águas naquela milenar nação. E estes aspectos inquietantes sobre o meio ambiente foram potencializados desde a virada do ano com o anúncio dos resultados do IPCC - Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas que reuniu centenas de pesquisadores ao redor do mundo para tratar do assunto e chegarem a conclusões bastante críticas: o planeta está doente devido a exploração predatória sobre os recursos naturais e a ausência de cuidado com o lixo resultante do sistema produtivo. Há um descompasso entre a ação da sociedade, em seus diversos aspectos de consumo e os detritos resultantes dele. O Brasil é o quarto maior emissor de gás carbônico do mundo. Além das indústrias, sua frota de automóveis, num sistema de trânsito caótico, queimando diariamente milhares de litros de gasolina parados em meio aos engarrafamentos, ajuda a deixar as grandes cidades como São Paulo com uma permanente faixa cinza ao redor de seu horizonte, acima da cordilheira de prédios. E a agressão sobre as florestas e matas? Na Amazônia cerca de 75% das suas emissões são decorrentes das queimadas de florestas nativas, alerta o Greenpeace. Grande degradação ecológica. É preciso pensar em soluções urgentes.


Os biocombustíveis aparecem assim como uma resposta para a crise. Energia renovável e não poluente precisa ser usada em escalas cada vez maiores. Então, aconteceu a euforia dos usineiros, transformados inclusive em ‘heróis’ pelo presidente Lula. A cana de açúcar do Brasil pode fornecer o etanol, com uma qualidade ainda maior que o feito pelo milho como exploram os mexicanos, por exemplo. Há então um interesse geral nessa tecnologia brasileira. E a soja, item dos mais importantes de nosso agrobusiness, também entra nessa cena como opção de extração de óleo combustível. Mas, nem por isso há ausência de efeitos colaterais.


A FAO - órgão da ONU para agricultura e alimentação, defendeu o uso da terra para a produção de energia como uma opção econômica, principalmente na América Latina. Porém, detecta que essa política acabará por elevar em conjunto o preço dos alimentos. Em documento publicado mais a OCDE - Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico há semanas, intitulado “Perspectivas Agrícolas 2007-2016”, a alta dos preços dos produtos agrícolas se apresenta para as duas instituições internacionais como “motivo de preocupação para os países importadores, bem como para as populações urbanas pobres”. Apesar disso, segundo a FAO, cabe aos governos dos países administrarem os recursos e possibilitarem em conjunto produção de alimentos e agroenergia de forma não excludente. Teoricamente faz sentido. E na prática, seria isso possível? Os interesses dos grandes grupos não se sobreporão aos dos mais carentes? Com a exportação do milho para os EUA, a tortilla, principal alimento do país, aumentou em 100% seu preço, por exemplo. Outra coisa a ser pensada é o problema das áreas de cultivo. Expandir o agronegócio não pode atrapalhar promessas do governo federal em acertar demandas de indígenas, quilombolas e populações rurais com antigas esperas de respostas a suas necessidades? O parlamentar mexicano Victor Suarez, falando para a Agência Adital, alerta que seu país vive problema de segurança alimentar onde 15% da população de 105 milhões de mexicanos está em situação de desnutrição e a média aumenta se contarem a população rural onde há 32% de desnutridos. Dentro da população indígena, 44% das pessoas estão desnutridas. E diz mais: “A FAO esteve praticamente subordinada às políticas globais de livre comércio, de privatização, de livre mercado e esteve muito complacente com os governos da América latina e do Caribe, com excepciones, claro. A FAO não jogou o papel mais ativo, é um organismo de governos, não há muita possibilidade de ir contra os próprios governos. Ela esteve muito complacente com as políticas neoliberais e não trabalhou para a promoção e defesa dos agricultores e das pessoas”.


Além das preocupantes projeções no tocante ao risco para a floresta amazônica e o Xingu, nos avanços das fronteiras agrícolas e pecuárias, bem como quanto aos preços dos grãos em geral e os aspectos da segurança alimentar, nesta semana o Prof. Dr. José Carlos Gaspar, do Instituto de Geociências da UnB, também chamou a atenção para um aspecto bastante interessante e pouco divulgado pela mídia sobre a ‘solução’ aventada. Para ele, o maior erro é exatamente a classificação dos biocombustíveis como fontes renováveis de energia. O país já importa mais de 50% do fósforo que consome e em torno de 80% do potássio, que são nutrientes importantes para as plantações. Ele explica: “Tem-se a idéia de que, se eu planto a soja todo o ano, isso é ser renovável. Mas se esquece que para plantar soja eu preciso dos fertilizantes, e para produzi-los é preciso de amônia, fósforo e potássio, cujas fontes são finitas (...) Nós precisamos das informações para discutir com propriedade, para que possamos aproveitar os benefícios que virão e tentar reparar ou evitar e administrar do modo mais competente possível aquilo que não é conveniente. Isso só se faz não negando que não haverá impactos (Agência Brasil)”. O estudioso aponta a necessidade de se investir mais em energias renováveis modernas como a eólica, a solar e da fusão nuclear – e não a perigosa fissão nuclear –, pouquíssimo comentada.


Um amanhã mais harmônico entre sociedades e natureza passa pelo equilibrado uso dos recursos naturais renováveis, o destino tratado e reciclado de seus detritos, e pelo ingresso democrático das grandes populações ao que é produzido a partir desses recursos considerando, indubitavelmente, o acesso aos alimentos básicos. O combustível pode ser renovável, mas não deve ser a desigualdade entre os homens. A ONU mostra que 27% das crianças com menos de cinco anos em países pobres estão abaixo do peso e cerca de 19% da população mundial ainda vive com menos de US$ 1 por dia (ONU/2007). Os debates precisam ser ampliados, divulgados e com soluções que abracem aos interesses mais amplos possíveis. O contrário disso é a manipulação ideológica que beneficia as permanentes e minoritárias parcelas de poderosos e a conservação de um mundo injusto.

 

José de Almeida Amaral Jr.
Professor universitário em Ciências Sociais
Economista, pós-graduado em Sociologia e mestre em Políticas de Educação
Colunista do Jornal Cantareira
Colunista pela Pascom na Rádio 9 de Julho Am 1600 Khz
Colaborador do Jornal Mundo Lusíada

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