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01/AGO/2007
Cultura
FREVO: Centenário de um Gênero Brasileiro
Em fevereiro de 2006, o
instrumentista, compositor, bailarino e pesquisador pernambucano
Antonio Nóbrega, discípulo de Ariano Suassuna e ex-integrante do
Movimento Armorial, reuniu um grande elenco de musicistas,
cantores e dançarinos para dar partida nas comemorações pelo
Centenário do Frevo, que ocorreria em verdade apenas no ano
seguinte. Mas, como ele mesmo disse, por ser um intenso caso de
amor, “se mais eu não tivesse o que fazer na vida, muito me
bastaria cantar, dançar e tocar frevos... o ano inteiro” colocou
todo o seu público a brincar a partir de então. Aquela antiga
fábrica transformada em teatro pelo SESC no bairro da Pompéia foi
metamorfoseada por cerca de três horas em ruas da capital de
Pernambuco e sua vizinha Olinda. Homens, mulheres, jovens,
crianças e idosos saíram para cantar e pular como se fosse reinado
de Momo. Uma mistura de nostalgia com vigor de novidade, em meio
ao colorido das sombrinhas, passistas e o brilho dos instrumentos
da sensacional orquestra liderada pelo inovador Inaldo ‘Spok’
Albuquerque mais Gilberto Pontes, primos e saxofonistas. Como
dizia mestre Capiba: “frevo é contagiante, induz a participação, é
festa”. Bela síntese.
De acordo com o brincante Antonio Nóbrega o frevo instrumental vem
de influências das fanfarras e bandas militares. A dança, por sua
vez, tem origens nos capoeiras, em suas pernadas, rabos de arraia,
gingados que acabaram virando passos, movimentos coreográficos
codificados em expressão de dança popular. A palavra frevo parece
ter saído pela primeira vez na imprensa no Jornal Pequeno de
Recife, em 09/Fevereiro de 1907, em texto de Osvaldo da Silva
Almeida, vulgo Paula Judeu.
Por sua vez, o etnólogo e folclorista Edison Carneiro, alega que
essa distinção entre música e dança é importante. Desta forma em
Pernambuco o frevo-dança não é conhecido desta maneira e sim como
‘passo’. Assim ouve-se ‘vamos ver o passo’ ou ‘vamos dançar o
passo’. O mesmo estudioso explica que no início do século XX a
habanera e o maxixe foram ingredientes para a constituição do
frevo como forma musical. E este não pode ser compreendido como
expressão folclórica porque tem uma grande complexidade técnica e
apresenta na execução uma banda, com instrumentos caros como os
metais. “O povo não tem dinheiro para consumir isso”, diz
Carneiro. E naqueles primórdios a música era tocada pelos cordões
carnavalescos de Recife, como os Lenhadores e os Pás Douradas,
adversários nas apresentações.
Exatamente porque eram rivais, muitas vezes seus encontros pelas
ruas acabavam em pancadaria. Então, resolveram trazer capoeiristas
para proteger as pessoas que desfilavam no cordão. Eles, assim,
vinham à frente do grupo, fazendo pose, encarando os demais,
jogando capoeira e, desta maneira, iam também criando acrobacias
para se mostrarem valentes e hábeis. Estavam surgindo os passos
que acompanhariam o desfile. Com o passar do tempo as brigas
sossegaram e os capoeiristas foram aposentados em sua função de
‘segurança’, porém tinham possibilitado a criação de nova forma de
dança que os cordões absorveram. Incluindo as sombrinhas que, além
de dar equilíbrio aos passistas, ajudavam também nas constantes
brigas. O cordão passou a se denominar ‘passo’ e nele a multidão
pula até cair esgotada. E nos músicos ninguém toca, seguindo o
conjunto em roupas limpas, brancas, engomadas. Um respeito total
cuja imunidade era - e é - concedida pelo povo, de acordo com
Carneiro. Coisa para virtuoses ou quase lá.
Certa feita o maestro Guerra Peixe disse ser o frevo a mais
importante expressão musical popular porque é ‘a única música
popular que não admite o compositor de orelha, não basta apenas
saber solfejar para compor um frevo’. Tem que entender de
orquestração, ou seja, ser músico de verdade, completo, como foram
os grandes Capiba e Nelson Ferreira, explica o regente. O frevo é
no seu ver, provavelmente, a única música no mundo que já nasce
orquestrada. Nem o jazz é assim, pois é baseado no improviso. O
frevo, acredita ele, surge escrito na partitura. E originou-se na
fanfarra, exclusivamente nos metais. Depois é que vieram as
palhetas: saxes e clarinetes, ensina. Contudo, é uma música dos
trombones. E que aparece ainda no final do século XIX
desenvolvendo mais tarde alguns tipos diferentes de manifestação:
frevo-ventania, frevo-coqueiro e frevo-abafo. O primeiro é o mais
elaborado, com floreios e tessituras; o segundo é o tocado quando
duas bandas se encontram e tentam sobressair uma a outra, abusando
das notas agudas, e o terceiro, o abafo, parecido com o segundo, o
coqueiro, se caracteriza por notas longas e agudas. É o frevo de
rua, música instrumental, argumenta Guerra Peixe. Coisa fina de
alma popular.
O fato é que o frevo, das ruas ou dos salões, instrumental,
dançado ou cantado é natural de Pernambuco e espalhou-se pelos
quatro cantos do Brasil. Um patrimônio histórico e agora
centenário de nossa gente. A proliferação de bons músicos e o
numero de foliões que aumenta em cada ano naquela região do
nordeste prova que o vaticínio de Capiba, quando comemorou seu
octogésimo aniversário há 23 anos atrás, não tem erro: o frevo é
eterno e permanecerá cativando e arrastando multidões por onde
passar fervendo, seja em Recife, Olinda, Campina Grande, Igarassú
ou na Paulicéia, na praça ou nos teatros, na orla ou nos
calçadões. “Estou aqui para ver/ A juventude dourada/ Nessa
alegria de louco/ Entrando na madrugada.” Viva o delicioso Frevo!
São Paulo, 1º de Agosto de 2007.
José de Almeida
Amaral Jr.
Professor universitário em Ciências Sociais
Economista, pós-graduado em Sociologia e mestre em Políticas de
Educação
Colunista do Jornal Cantareira
Colunista pela Pascom na Rádio 9 de Julho Am 1600 Khz
Colaborador do Jornal Mundo Lusíada
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