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23/JUL/2007
Cultura
Villa-Lobos: 120 Anos de um Gênio Brasileiro
“... o meu primeiro livro foi o
mapa do Brasil, o Brasil que eu palmilhei, cidade por cidade,
estado por estado, floresta por floresta, perscrutando a alma de
uma terra. Depois, o caráter dos homens dessa terra. Depois, as
maravilhas naturais dessa terra. Prossegui, confrontando esses
meus estudos com obras estrangeiras, e procurei um ponto de apoio
para firmar o personalismo e a inalterabilidade das minhas
idéias."
Não só pela qualidade indiscutível de seu legado como compositor e
pesquisador, contudo, também pela importância em valorizar a
educação, nela a arte, e em seu conjunto cultural, a brasilidade,
nestes tempos de globalização, internet e ciberespaço, com
pasteurização cultural para consumo massificado, o ‘canto do Pajé’
nos chama a refletir sobre quem somos nós e a que viemos nesta
aldeia planetária.
Em 5 de março de 1887, ainda período imperial, nascia no bairro de
Laranjeiras, Rio de Janeiro, o menino Heitor, filho de uma dona de
casa, Noêmia, e de um alto funcionário público da Biblioteca
Nacional, sr. Raul, homem severo,
violoncelista/clarinetista/fagotista amador, escritor e estudioso
das artes. Aos sábados a sua casa abrigava reunião de músicos
convidados, que varava noite adentro. Assim, desde pequeno, o
garoto conviveu com a magia dos sons e por ela se apaixonou. Logo
estaria aprendendo as primeiras noções através de uma viola,
instrumento orquestral de corda como o violino, o violoncelo e o
contrabaixo. Tentaria alçar seus vôos em direção àquele compositor
tão especial para ele, o alemão gênio do barroco, Johann Sebastian
Bach, sempre visitado nas audições promovidas pelo pai.
No entanto, a família Villa-Lobos com suas 7 crianças precisou
sair além da capital carioca onde estava e viver em outras
localidades. Moraram no interior do estado e também em Minas
Gerais. Com isto, o atento menino, apelidado Tuhu, pode ouvir
outras sonoridades, chamando-lhe atenção as músicas caipiras, os
temas sertanejos, caboclos, os acordes e ponteados das violas de
natureza rurais.
Naquela época, a cidade do Rio vivia o período de formação de um
gênero brasileiro que se tornaria um dos mais importantes de nossa
cultura: o choro. De início os ‘chorões’ eram instrumentistas que,
em grupo de flauta, cavaquinho e violões, tocavam uma música que
tinha raízes no lundu – ritmo de base africana – e nos gêneros
europeus como as polcas, as valsas, os schotishs e.o. Reuniam-se
por prazer para alegrar festas, bailes ou para pura distração.
Coisa de gente boêmia. Depois, durante os primeiros anos do séc.
XX, o choro já designaria um exemplo de musica definida, bem
estruturada. Seus primeiros nomes proeminentes foram os flautistas
Joaquim A° Callado e Patápio Silva, este um virtuose; Francisca
Gonzaga, pianista, compositora e maestrina; Ernesto Nazaré,
pianista e compositor; Anacleto de Medeiros, maestro e fundador da
Banda do Corpo de Bombeiros – que levou à corporação vários dos
bons instrumentistas populares que conhecia e deu inicio então à
fase áurea das bandas marciais por todo o Brasil, como provam as
gravações da Casa Edison, no gênese da fonografia por aqui – e,
aquele considerado maior de todos, Pixinguinha, flautista,
saxofonista tenor, compositor, arranjador, maestro.
Quando Heitor voltou para a capital fluminense, ficou encantado
com aquela música que ganhava espaço e resolveu aprender a tocar
violão, escondido. Isto porque, àquela altura, o instrumento,
assim como o pandeiro, não era bem visto pelas famílias, pela
‘gente de bem’, ligando-o aos malandros, à vagabundagem, sendo
objetos das batidas policiais. Mas, somente após o falecimento de
seu genitor, em 1899, ele pôde se aprofundar com maior liberdade
em seus estudos. Tinha 12 anos. E decidiu dedicar-se plenamente à
musica, apesar da mãe desejar que fosse médico.
No ano de 1905 partiu para uma pesquisa sonora nacionalista. As
experiências com os chorões mais a música interiorana e folclórica
lhe marcaram com profundidade. Queria ouvir intensamente a
musicalidade de seu povo. Viajou então pelo sertão e pelo litoral.
Estimulado, voltou a fazer outra expedição, ainda mais longa, por
três anos, envolvendo norte e nordeste, aproveitando a passagem de
uma companhia portuguesa de operetas que precisava de um
violoncelista. A bagagem adquirida nessas pesquisas - entre 1905 e
12 - resultaria em O Guia Prático (1932), uma coletânea de canções
folclóricas destinadas à educação musical nas escolas: eram, no
ver dele, as origens da nossa nacionalidade.
Para ganhar a vida, entrementes, dava aulas e tocava também nas
orquestras de cinemas e teatros cariocas e de S. Paulo. Em
restaurantes, bares e cabarés. E visitava os chorões: Sátiro
Bilhar, “o violonista mais original que conheci”; João
Pernambuco, autor de Luar do Sertão, “Bach não se envergonharia
de assinar seus estudos”; Quincas Laranjeiras, Irineu Almeida
entre muitos outros. Para ele, o choro era “a alma musical do
povo brasileiro”. Dela queria aprender muito mais. “Sim,
sou brasileiro e bem brasileiro: não ponho breques nem freios nem
mordaças na exuberância tropical das nossas florestas e dos nossos
céus, que eu transporto instintivamente para tudo que escrevo”.
Em 1915 apresentou sua primeira série de concertos no Auditório do
Jornal do Comércio. Compôs também suas primeiras peças para
violão, Suíte Popular Brasileira, várias peças para música
de câmara, sinfonias e as danças Amazonas e Uirapuru. E foi
criticado pela dissonância musical apresentada. Porém, isto não o
abateu. Permaneceu fazendo seus trabalhos de forma confiante.
Torna-se amigo de Arthur Rubinstein. Quatro anos depois, em 1919,
na capital argentina, a Associação Wagneriana promoveu um concerto
de música de câmara brasileira. Villa-Lobos esteve presente com o
Quarteto de Cordas Nº 2. A crítica especializada do
Jornal La Prensa lhe elogiou. Então, a carreira do maestro
ganhou maior valorização. Em 1920 iniciou o conjunto de peças
Choros que desenvolveria ao longo da década.
Em 1922 esteve em perfeita sintonia com a ‘Semana da Arte Moderna’
paulistana liderada por Mário e Oswald de Andrade onde pode
apresentar algumas de suas obras no Teatro Municipal. As Danças
Características Africanas foram executadas adaptadas para
flauta, clarinete, piano e quarteto de cordas. Originalmente
haviam sido compostas, entre 1914 e 1915, para piano solo. Três
números inspirados em temas dos índios Caripunas, do Estado de
Mato Grosso.
No ano seguinte, apoiado por vários amigos, principalmente pelos
irmãos Guinle, consegue levantar verbas e segue para uma viagem à
Paris, onde pode trocar idéias com gente do meio. Obtém
reconhecimento junto a músicos como Paul Dukas, Edgar Varèse,
Prokofiev, Andrès Segóvia e Florent Schmitt. No ano de 1924, o
Jornal Liberté avaliou sua produção musical como ‘um
modernismo avançado’ e Villa-Lobos como ‘uma personalidade forte e
atraente’. Ao retornar, comentou assim o poeta Manuel Bandeira:
"Villa-Lobos acaba de chegar de Paris. Quem chega de Paris
espera-se que chegue cheio de Paris. Entretanto, Villa-Lobos
chegou cheio de Villa-Lobos. Todavia uma coisa o abalou
perigosamente: a Sagração da Primavera, de Stravinsky. Foi,
confessou-me ele, a maior emoção musical da sua vida.” Três
anos depois voltaria à Cidade Luz com maior sucesso, aumentando
seu prestigio internacional. Vai também a Londres, Viena,
Bruxelas, Varsóvia, Madrid e Lisboa. Em 26 é nomeado Professor de
Composição do Conservatório Internacional de Paris. Porém, não
iria permanecer longo tempo por lá. Uma nova missão floresceria em
sua vida: a educação musical para sua gente.
Os anos que se seguiriam foram de grandes transformações no país.
A Revolução de 30 levaria o Brasil a uma nova perspectiva
econômica, avançando para tardia industrialização. Em conjunto,
Getúlio Vargas, uma das lideranças do movimento que derrubou a
República Velha, passou a semear pelo país forte sentimento de
nacionalidade. E juntamente valorizou-se o projeto modernista. Com
o Governo Provisório, Villa-Lobos foi convidado pelo interventor
paulista, João Alberto Lins de Barros, para apresentar seu plano
de educação musical, antiga preocupação do maestro. “Não é
admissível que povos jovens não procurem nutrir-se de suas
próprias fontes para dar conteúdo mais vigoroso às suas obras de
arte”. Villa-Lobos percebia a falta de incentivo, de dedicação
ao estudo da música e ao conhecimento de nosso folclore. Era
preciso buscar “a independência artística brasileira”.
Então, pensou um projeto e encaminhou proposta à Secretaria de
Educação do Estado de São Paulo. E ela foi aceita.
Em 1931 iniciou a Excursão Artística Villa-Lobos. O maestro
reuniu artistas como Souza Lima, Nair Duarte e Antonieta Rudge
para excursões pelo interior de São Paulo, Minas e Paraná. Ainda
em 1931 organizou uma Concentração Orfeônica chamada Exortação
Cívica com 12 mil vozes. Assim, sua carreira no exterior teve
que esperar. Neste princípio dos anos 30 começa a compor as
Bachianas Brasileiras.
Em 1933 o ensino da Música e do Canto Coral foi também levado às
escolas da capital federal. A convite do Secretário de Educação
Anísio Teixeira Villa-Lobos assumiu a direção da SEMA -
Superintendência de Educação Musical e Artística. A partir de
então, boa parte de seu trabalho focalizou a educação musical nas
escolas. Em 1933 criou-se a Orquestra Villa-Lobos igualmente com
fins educativos e patrióticos.
Na visão do maestro o canto orfeônico, conhecido, contudo, pouco
difundido no Brasil, seria um jeito eficiente de educar as massas.
Tinha esperança nessa idéia. E convenceu ao presidente disso. Em
1932, Getúlio assinou decreto obrigando o ensino de canto
orfeônico nas escolas. E em seguida criou o Curso de Pedagogia de
Música e Canto Orfeônico e o Orfeão dos Professores do Distrito
Federal. Até 1941, pleno Estado Novo ditatorial, Villa-Lobos
entregou-se ao trabalho de educação cívico-musical. Criou um
sistema de sinais para facilitar ensino de ritmo - o mano-solfa,
adaptando uma técnica do séc. XI -, notação e regência de corais.
Preparou textos, aulas e métodos que melhor se aplicassem às
nossas crianças. No ano de 1936 foi convidado para apresentar seu
plano no I Congresso de Educação Musical de Praga. Viajou de
Zeppelin até lá. Foi o único representante da América Latina.
Nessa época, resolveu se separar da esposa –desde 1913 -, a
pianista Lucilia Guimarães, e se casou com Arminda Neves de
Almeida, dona Mindinha. Ainda, a pedido de Getúlio Vargas, compôs
Ciclo Brasileiro e Descobrimento do Brasil (1937) para o
cinema, em filme homônimo do diretor Humberto Mauro. Em 1942 regeu
em 1ª audição a Bachianas Brasileiras nº 4 e os Choros nº 6, 9
e 11. Nesse mesmo ano fundou o Conservatório Nacional de Canto
Orfeônico, cujo objetivo era formar docentes para o magistério
orfeônico nas escolas primárias e secundárias, bem como elaborar
diretrizes para o ensino de corais pelo país e promover estudos de
musicologia brasileira. Em datas comemorativas chegou-se a reunir
no Estádio de S. Januário, do C. R. Vasco da Gama, mais de 40 mil
vozes de escolares sob sua batuta. Envolvia nos eventos grandes
vozes como Chico Alves e Silvio Caldas, para ele “o professor
natural da música de câmara vocal do Brasil”. Em 43 teve como
‘braço direito’ no Conservatório o orquestrador, compositor e
pianista Henrique Vogeler, autor entre outras belezas de Linda
Flor. Deu conferências referentes ao seu projeto educacional
em Paris, Berlim e Barcelona.
Em 1944, fase final da II Guerra Mundial, vai aos Estados Unidos,
país com quem o Brasil se alinhou no conflito, a convite dos
maestros Leopold Stokowsky e Werner Janssen pela primeira vez.
Entre 1944/45 regeu orquestras como a Boston Symphony Orchestra e
a New York City Symphony. É homenageado pela comunidade artística
no Waldorf Astoria, Nova York, em recepção que estavam presentes
artistas como os band-leaders Duke Ellington e Benny Goodman, além
de estrelas da música erudita como Toscanini e Copland entre
outros. Retornaria em novas ocasiões, com sucesso, gravando,
escrevendo e recebendo honrarias. Realizou concertos em Lisboa,
Roma, Paris e na América Latina, com excursões por Venezuela,
Chile e Argentina. Esteve bom tempo nos EUA de 1957 a 1959. Em
1957 recebeu no Brasil carinhos pelos seus 70 anos. É instituído o
Ano Villa-Lobos. Em 1958, na Europa, regeu e gravou várias
composições suas. Compõe, por encomenda do Papa Pio XII, o
Magnificat Aleluia. Recebeu o título de Doutor Honoris Causa
pela Universidade de Nova York. Em 12/7/59 fez, em Nova York, seu
último concerto. Morreu em novembro daquele mesmo ano, no Rio de
Janeiro, sua terra natal.
Hoje, passados 120 anos do nascimento deste genial brasileiro,
sobram inquietações e indignações ao relembrar o esforço realizado
por ele, há quase meio século atrás. A educação no país, pelo qual
tanto se dedicou, está degradada. Embora tenhamos elevado o nº de
crianças matriculadas, massificando o ensino, a evasão é muito
grande e a qualidade vai abaixo da média dos países desenvolvidos.
Os professores são mal remunerados e estão desiludidos. Há um
déficit no magistério de 710 mil profissionais: 235 mil no ensino
médio e 475 mil do fundamental (MEC). A Secretaria Geral da
Presidência diz que dos 50,5 milhões de jovens brasileiros entre
15 e 29 anos, 4,5 milhões são considerados de risco, isto é, em
potencial situação de marginalidade, alvos de cooptação por parte
do crime organizado, porque estão sem ensino, desempregados,
desassistidos. Um triste desperdício, num Estado há anos sem rumo
de navegação. Além disso, a cultura popular carece de divulgação e
compete em desigualdade com a poderosa indústria de
entretenimentos, dominada pelas multinacionais. O poeta e
estudioso da MPB Hermínio Bello de Carvalho destaca palavras de
maestro:
“Interesses industriais de uma terceira categoria social,
explorando a exteriorização das circunstâncias oportunas da
confusão do após a grande guerra, a parte mais acessível à
compreensão da incultura alheia, sacode para o ocaso e deixa cair
impiedosamente o nível da opinião pública, como se se projetasse,
na superfície da terra, um gás asfixiante.”
E mais: “O mercantilismo atinge também as artes, e, quando a
música se subordina a uma ambição, deixa de desempenhar sua função
orientadora da opinião pública” (CARVALHO, Hermínio B. O Canto
do Pajé. RJ: Espaço e Tempo, 1988).
O sonho do modernista Villa-Lobos, o ‘Índio de Casaca’, de uma
nação escolarizada, com orgulho de suas raízes e tradições
folclóricas, é cada vez mais ponto fundamental a ser resgatado
neste mundo globalizado. Afinal, seu objetivo através da música
era promover e fortalecer nossa identidade. Ora, para podermos
refletir sobre nós, nos questionarmos e assim construirmos saídas,
projetos autênticos e próprios de país para resolvermos nossos
problemas, precisamos exatamente nos compreender, nos enxergar
como povo, como história. Só assim é que poderemos nos relacionar
em bons termos com as demais nações, participando com equilíbrio e
consciência de nosso papel nos intercâmbios do mundo
contemporâneo. Universalizar a educação verdadeiramente de
qualidade, incluindo aí o ensino das artes, seria a primeira
grande revolução nacional com vistas ao benefício popular. Um país
que teve Villa-Lobos, não pode eterna e mesquinhamente dar errado.
P.S.: Para terminarmos de maneira risonha, já que sua obra é tão
rica e bela, faço aqui algumas sugestões de audições e leituras
onde se encontrará muito mais dos sonhos realizados pelo moleque
Tuhu:
BESSLER-REIS. Villa-Lobos – Quartetos de Cordas. Kuarup Discos.
CLARA SVERNER. Alma Brasileira. Sony Classical.
MARIA LÚCIA GODOY. 14 Serestas de Villa-Lobos. Poligram.
ORQUESTRA SINFÔNICA BRASILEIRA. Concertos Internacionais em
Homenagem a Villa-Lobos. Som Livre.
ROBERTO SZIDON. Villa-Lobos Cirandas e Cirandinhas. Kuarup
Discos.
TURÍBIO SANTOS. Villa-Violão – Obra Completa para violão solo.
Kuarup Discos.
VÁRIOS. Villa-Lobos - Choros de Câmara – 1ª Gravação Completa.
Kuarup Discos.
CARVALHO, Hermínio B. O Canto do Pajé. RJ: Espaço e Tempo,
1988.
DINIZ, André. Almanaque do Choro. RJ: Jorge Zahar Editor, 2003.
GIACOMO, Arnaldo Magalhães. Villa-Lobos – Alma Sonora do
Brasil. SP: Melhoramentos, 1962.
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José de Almeida
Amaral Jr.
Professor universitário em Ciências Sociais
Economista, pós-graduado em Sociologia e mestre em Políticas de
Educação
Colunista do Jornal Cantareira
Colunista pela Pascom na Rádio 9 de Julho Am 1600 Khz
Colaborador do Jornal Mundo Lusíada
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