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Notas Quotidianas » José de Almeida Amaral Jr.

15/JUL/2007

 

Brasil

Habitação: Novos dados e velhas preocupações

Há pouco o UNFPA - Fundo de População das Nações Unidas publicou relatório anunciando que a população urbana se igualou à rural. São 3,3 bilhões de pessoas para cada lado e, a partir do final de 2008, a tendência já terá garantido um número superior para as cidades, que são apenas 2,8% da superfície terrestre – área dos grandes assentamentos citadinos –, revelando extraordinário desequilíbrio na ocupação dos espaços.


O mesmo estudo aponta que, ainda com esse crescimento demográfico, ele é menor do que o esperado na primeira metade do século XX sendo, portanto, ajustável aos recursos possíveis. E se verifica em maior intensidade nas cidades de portes médios. Porém, as concentrações excessivas em poucos pontos do espaço geográfico como se nota implica em maiores dificuldades para solucionar a reprodução da vida: redes de água, esgoto, aterros sanitários, luz, gás, transporte, escola, hospitais, abastecimento, segurança etc. Impacta-se a natureza provocando poluição, avanços em mananciais e áreas de risco entre outras tantas irregularidades.


É verdade que as cidades propiciam um controle melhor sobre seus habitantes, facilitando o acesso a informações e serviços básicos, colaborando para segurar as taxas de natalidade e mortalidade. Mas, ainda assim, em 30 anos, a população urbana nos países ricos aumentará apenas 100 milhões de pessoas – 11% de sua pop urbana atual – enquanto a América Latina, até 2030, somará novos 200 milhões de moradores urbanos, mais 50% em relação a hoje. Ásia e África, regiões dos maiores crescimentos das cidades, a população urbana dobrará. Sete em cada dez indivíduos urbanos serão asiáticos ou africanos em 2030. E as ameaças de insegurança habitacional se confirmam: já há 1 bilhão de pessoas faveladas com 90% delas nos países em desenvolvimento, sendo 40% em Índia ou China. E o Brasil?
O IBGE - Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística acaba de anunciar que os dados até então utilizados estavam subdimensionados. Conforme levantado através do Censo 2000 o governo trabalhava com um total de 6,3 milhões de favelados dispersos pelo país. Contudo, a proporção é muito maior. O dobro. E isto por conta da metodologia que vinha sendo aplicada para as pesquisas não esclarecendo o suficiente. Partindo da correção agora colocada, será possível qualificar melhor os chamados ‘aglomerados subnormais’: áreas públicas de posses irregulares e com mais de 51 domicílios – barracos -, isto é, menos que isso ou se estivessem em terrenos privados não eram somados. Em 2010 as bases do IBGE já serão outras. De qualquer forma, entre os anos 1940 e 90 a taxa da população urbana brasileira passou de 25 para 80% organizando-se 13 cidades com mais de 1 milhão de habitantes entre 1950 e 90. Em grandes e desordenadas condições. Desse jeito, já reconhece o governo que há pelo menos 12,4 milhões de pessoas vivendo em condições precárias em torno de 3,2 milhões de domicílios envolvendo favelas, cortiços, palafitas, barracos entre outras precariedades.

 

Através da PNAD – Pesquisa Nacional de Amostra Domiciliar/2005 o déficit de moradias no Brasil era de 7,903 milhões de domicílios.
Todos esses estudos, tanto da ONU quanto do IBGE, demonstram que a pobreza, a falta de educação, a desassistência por parte do Estado estimulam o deslocamento migratório e uma maior fecundidade dos estratos mais carentes da população. Propiciar melhores condições de vida para o meio rural, com saúde e escolaridade, mais o fortalecimento dos pequenos proprietários através de reforma agrária, no caso brasileiro, ajudaria a fixar mais as pessoas no campo. Por outro lado, como não se pode proibir a mobilidade das pessoas, também nas cidades o acesso à educação e saúde precisa atingir a todos os habitantes atrelando isso, indiscutivelmente, a uma política de emprego. Ausência de ocupação remunerada e de escola reflete em uma piora generalizada das condições dos indivíduos, desagregação familiar e convidativos acessos à criminalidade. O Ipea – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada calcula que despesas com a violência – gastos com hospitais e segurança – chegue hoje a 5% do PIB. Isto sem contar o trágico desperdício de jovens que tem sua existência brutalmente interrompida pela bestialidade presente.


No atual ‘país das balas perdidas’ - onde 10% se apropriam de 80% da riqueza nacional (Ipea) - há décadas um samba do genial baiano Dorival Caymmi dava o recado assim “eu não tenho onde morar/ é por isso que eu moro na areia”. Preferiram ignorar o problema ontem. Então, agora é preciso investimento para minimizar o aprofundamento desse caótico buraco.

 

São Paulo, 15 de julho de 2007.
 

José de Almeida Amaral Jr.
Economista e professor universitário em Ciências Sociais
Pós-graduado em Sociologia e mestre em Políticas de Educação
Colunista pela Pascom na Rádio 9 de Julho Am 1600
Colaborador do Jornal Mundo Lusíada

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